Em 2 de fevereiro, os mares brasileiros vestem-se em festa para homenagear Iemanjá, a reverenciada “Rainha das águas, mares e oceanos”, uma orixá central nas religiões de matriz africana como o Candomblé e a Umbanda. Na capital fluminense, as celebrações do dia de Iemanjá mobilizam milhares de fiéis e admiradores, que se reúnem em cortejos vibrantes, rituais ancestrais e apresentações musicais por toda a cidade. Este dia não apenas reverencia uma das entidades religiosas mais conhecidas, mas também reforça a rica herança cultural e a ancestralidade negra que moldaram a identidade do Rio de Janeiro, transformando a data em um significativo patrimônio imaterial.

A grandiosidade das celebrações na Pequena África

As comemorações do Dia de Iemanjá no Rio de Janeiro iniciaram-se de forma grandiosa na emblemática região da Pequena África, coração histórico da Zona Portuária. Em 2 de fevereiro de 2026, a Associação Recreativa Filhos de Gandhi do Rio de Janeiro marcou um momento histórico com a celebração dos 50 anos do seu “Presente para Iemanjá”, um dos eventos culturais mais tradicionais e que consistentemente sublinha a ancestralidade negra fluminense.

O cortejo ancestral dos Filhos de Gandhi

A programação teve início pontualmente às 7h da manhã, com rituais de saudações aos orixás e um café da manhã aberto ao público, reunindo a comunidade em um ato de fé e comunhão. Dali, um cortejo majestoso e repleto de simbolismo seguiu em direção à Praça Mauá. Fiéis, em sua maioria vestidos de branco, entoando cânticos e carregando oferendas, formaram uma corrente humana que atravessou as ruas, impregnando o ar com a energia da devoção.

Na Praça Mauá, o ápice da manhã foi a saída da célebre embarcação. A bordo, os devotos prosseguiram para entregar suas oferendas à Rainha das Águas, um ritual de profunda conexão com o mar e com a espiritualidade. O evento foi mais do que uma celebração religiosa; foi uma manifestação cultural robusta, que se estendeu com apresentações de sambas e outras atividades artísticas e culturais ao longo do dia, proporcionando um ambiente de festa e reflexão.

Sylvia Leandro, chefe da Fundação Palmares, ressaltou a importância desses rituais para a afirmação da ancestralidade negra na cidade. “É um enfrentamento que toda a comunidade negra tem feito. Aqui na Pequena África, a gente tem trabalhado também junto ao comitê do Cais do Valongo, para que a gente consiga permanecer aqui, permanecer nesses espaços e demonstrar que o negro ele construiu o Brasil também”, afirmou, destacando a luta pela preservação e valorização da história e do legado afro-brasileiro. A Pequena África, com seu Cais do Valongo, reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO, é um lembrete vivo da história da escravidão e da resiliência dos povos africanos no Brasil.

A continuidade da fé e cultura no Arpoador

As celebrações do Dia de Iemanjá se estenderam por diversas partes do Rio, demonstrando a capilaridade e a importância da orixá na cultura carioca. Enquanto a Zona Portuária se enchia de cortejos e homenagens históricas, a zona Sul da cidade também se mobilizava para mais uma edição da Festa de Iemanjá do Arpoador, na altura da icônica Pedra do Arpoador.

Oferendas e o compromisso com a sustentabilidade

Esta foi a quinta edição do evento no Arpoador, que se destacou por uma programação cultural diversificada e um forte apelo à consciência ambiental. A celebração incluiu rodas de ritmos e danças candomblecistas, lideradas pelo renomado grupo Orin Dudu, que cativaram o público no Largo Millôr. A concentração para o cortejo sagrado teve início às 15h, com a saída marcada para as 16h, partindo da estátua de Tom Jobim, em um trajeto que une a beleza natural do Arpoador com a expressão da fé.

Além das tradicionais giras e entregas de oferendas no mar, a festa ofereceu uma experiência completa aos participantes. Uma feira gastronômica com sabores autênticos e uma variedade impressionante de 21 atrações artísticas e religiosas animaram o público. Cerca de 300 artistas, de grupos de jongo e samba, levaram sua arte para as areias da praia, celebrando a cultura afro-brasileira em todas as suas manifestações.

Um ponto crucial e de grande relevância nas festividades do Arpoador foi o forte engajamento com a sustentabilidade. As recomendações para as oferendas foram claras: priorizar materiais biodegradáveis, com a restrição de plásticos, vidros ou madeiras. Nas águas, apenas flores e frutas frescas foram permitidas, garantindo que a homenagem à Rainha do Mar não prejudicasse o ecossistema marinho. Ao término da programação, o compromisso ambiental se estendeu com um mutirão de limpeza das praias e pedras, envolvendo tanto o público quanto a equipe da Pedra do Arpoador Conservação. Essa iniciativa reforça a conexão profunda entre a espiritualidade das religiões de matriz africana e o respeito pela natureza.

A história e o reconhecimento oficial de uma tradição viva

A celebração de Iemanjá no Rio de Janeiro não é um fenômeno recente; sua história está enraizada na fé e na resistência, e sua evolução reflete a trajetória da própria cidade.

A evolução da festa e seu status cultural

A tradição da entrega de oferendas ao mar remonta ao pai de santo umbandista Tatá Tancredo, uma figura de imensa importância e um dos maiores líderes espirituais na história do Rio de Janeiro. Em 1950, Tatá Tancredo reuniu um grupo de religiosos, todos vestidos de branco, para o evento que ficou conhecido como “Flores para Iemanjá”. Naquela ocasião, as oferendas eram entregues ao mar antes da meia-noite, um ritual que visava a agradecer e pedir bençãos à orixá.

O costume rapidamente ganhou adeptos, expandindo-se para além dos terreiros e tornando-se uma prática popular que, com o tempo, influenciou e contribuiu para a origem da célebre festa de Réveillon na praia de Copacabana, com suas oferendas e a tradição de vestir branco. Essa evolução demonstra como as manifestações religiosas de matriz africana se entrelaçaram com a cultura carioca, influenciando eventos de grande porte e se tornando parte integrante do calendário da cidade.

Após anos de luta e reconhecimento por parte dos povos de terreiro e seus apoiadores, a importância dessa celebração foi finalmente reconhecida pela prefeitura do Rio de Janeiro. Em janeiro de 2026, a Festa de Iemanjá foi oficialmente instituída como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade, um marco significativo para as religiões de matriz africana e para a diversidade cultural brasileira. Este reconhecimento não apenas valida a riqueza e a profundidade da fé, mas também garante a proteção e a valorização dessa tradição para as futuras gerações. No ano anterior, a festa reuniu cerca de 25 mil pessoas. Para 2026, a expectativa é de que aproximadamente 30 mil participantes se unam para saudar a “Mãe cujos filhos são peixes”, reafirmando a força e a beleza de uma tradição viva e resiliente.

Perguntas frequentes

Qual é a data da celebração de Iemanjá no Rio de Janeiro?
A principal celebração do Dia de Iemanjá no Rio de Janeiro acontece anualmente em 2 de fevereiro, seguindo a tradição das religiões de matriz africana.

Quais são as recomendações para as oferendas a Iemanjá?
É fortemente recomendado que todas as oferendas sejam biodegradáveis, priorizando flores, frutas e outros materiais que não agridam o meio ambiente. Materiais como plástico, vidro ou madeira devem ser evitados para proteger os oceanos.

Qual é a importância histórica e cultural da celebração de Iemanjá?
A celebração de Iemanjá no Rio de Janeiro é um marco da ancestralidade negra e da resistência cultural. Ela remonta a líderes espirituais como Tatá Tancredo e influenciou grandes eventos da cidade, sendo recentemente reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial.

Onde ocorrem as principais festividades no Rio de Janeiro?
As festividades ocorrem em diversas localidades, com destaque para a Zona Portuária (Pequena África e Praça Mauá), com o cortejo dos Filhos de Gandhi, e na zona Sul, com a Festa de Iemanjá do Arpoador.

Para mais informações sobre eventos culturais e religiosos na cidade, acompanhe as iniciativas de preservação do patrimônio carioca.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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