Em Itapevi, os acontecimentos recentes não pedem apenas reação — exigem compreensão. Não do fato em si, pois não entrarei no mérito, mas do princípio que foi violado.
Antes de qualquer norma escrita, antes de qualquer sistema jurídico, existe uma lei anterior a todas: a lei que sustenta a própria possibilidade de convivência. Uma lei não criada, mas percebida. Não imposta de fora, mas inerente à condição de existir entre outros.
O respeito é essa lei.
Não é valor moral frágil, sujeito a variações de humor ou cultura, mas como estrutura invisível que impede o colapso das relações humanas. Onde ele se rompe, não resta conflito — resta desintegração.
A criança autista, em sua singularidade, não desafia o mundo. Ela o revela. Expõe o quanto ainda dependemos de padrões para tolerar a existência do outro. Expõe o quanto nossa ideia de humanidade ainda é condicionada à semelhança.
E isso é uma fissura.
Porque aquilo que só é aceito quando se parece conosco nunca foi, de fato, acolhido como outro — foi apenas assimilado.
O respeito verdadeiro não nasce da identificação. Ele nasce da aceitação do irredutível. Daquilo que não se explica, não se molda, não se submete — mas existe.
E existir, por si só, já é suficiente para exigir limite.
Quando esse limite é violado, não estamos diante de um erro circunstancial. Estamos diante da negação da lei mais primitiva: a de que o outro não pode ser reduzido àquilo que nos é confortável.
A violência, nesse sentido, não é apenas um ato físico. É uma ruptura ontológica. É a tentativa de apagar o que não se compreende. É a recusa em sustentar a alteridade.
E toda vez que isso ocorre, algo mais profundo é atingido: deixa de ser apenas o indivíduo e passa a ser a própria ideia de mundo compartilhado.
Porque não há mundo possível onde o outro não é considerado legítimo em sua existência.
A lei escrita, então, surge tarde. Ela não cria o respeito — ela tenta reparar sua ausência. Ela é o eco de algo que deveria estar dado desde o início.
Mas quando é necessário recorrer à lei para garantir o mínimo, é porque o essencial já foi esquecido.
E há um ponto inescapável: o limite se aprende. Aos responsáveis cabe transmiti-lo com clareza. Sem isso, não há liberdade — há permissividade. E a permissividade, diante do outro, facilmente se converte em violência.
Respeito não é escolha, não é virtude, não é concessão.
É a condição que antecede qualquer direito, qualquer norma, qualquer civilização.
É a primeira lei.
E toda vez que ela é violada, não se rompe apenas um limite jurídico — rompe-se o próprio fundamento do humano.
Dra. Cidmeire de Oliveira



