Cuba atravessa um dos períodos mais desafiadores de sua história recente, com relatos de moradores de Havana indicando uma deterioração drástica nas condições de vida. A crise em Cuba é amplificada pelo endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos desde o final de janeiro, resultando em apagões mais frequentes e imprevisíveis, aumento exorbitante dos preços de produtos básicos, e severa redução nos serviços essenciais, como transporte público e a oferta da cesta básica subsidiada pelo Estado. A população se vê diante de um cenário de escassez sem precedentes, onde o cotidiano é marcado pela incerteza e pela luta constante para suprir as necessidades mais básicas, gerando um descontentamento palpável e um sentimento generalizado de que este é o “pior momento” que a ilha já vivenciou. A situação se agrava nas províncias do interior, onde a falta de energia pode durar quase o dia inteiro, impactando diretamente a capacidade de armazenamento de alimentos e a rotina de trabalho.

Aprofundamento da crise e seu impacto diário

A vida em Havana, capital vibrante de Cuba, transformou-se radicalmente nos últimos meses, ditada pela crescente instabilidade no fornecimento de energia e pela escassez generalizada. As dificuldades se manifestam em todos os níveis, desde a impossibilidade de realizar tarefas simples até o acesso a serviços básicos.

A rotina sob apagões imprevisíveis

Ivón B. Rivas Martinez, uma arquiteta de 40 anos e mãe solo de um menino de nove, descreve a drástica mudança na rotina energética. O que antes eram apagões programados de cerca de quatro a cinco horas diárias na capital, agora se tornaram eventos erráticos e de duração prolongada. “Ninguém sabe quantas horas podem ser. Hoje houve 12 horas de apagão”, relata Ivón, evidenciando a imprevisibilidade que desestrutura o planejamento diário das famílias. Essa realidade é ainda mais severa nas províncias do interior da ilha, onde os apagões podem estender-se por quase um dia inteiro. A falta de eletricidade afeta diretamente a conservação de alimentos, forçando as pessoas a comprar o consumo do dia e dificultando a estocagem.

Preços disparados e serviços comprometidos

Os apagões repercutem em todos os serviços essenciais. A interrupção do fornecimento de energia paralisa bombas d’água, sistemas de telefonia e internet, caixas eletrônicos e cartórios, impedindo a realização de procedimentos legais e financeiros. “É muito difícil”, afirma Ivón. Além da energia, a população enfrenta uma escalada de preços de produtos básicos. Segundo a arquiteta, itens como arroz, óleo e carne de frango, pilares da dieta cubana, encareceram em um ritmo muito mais acelerado nas últimas semanas. Essa inflação galopante, somada à redução da oferta da cesta básica subsidiada pelo Estado, coloca uma pressão insustentável sobre o poder de compra das famílias, muitas das quais já vivem com orçamentos apertados.

As raízes de uma crise sem precedentes

A atual situação de Cuba não é um evento isolado, mas sim o resultado de um acúmulo de fatores, com o endurecimento do bloqueio econômico exercido pelos Estados Unidos desempenhando um papel central.

O peso do bloqueio econômico e sanções

O endurecimento do bloqueio energético pelos EUA, iniciado no final de janeiro, é a principal força motriz por trás da crise atual. O governo Donald Trump, na época, ameaçou com tarifas países que vendessem petróleo à nação caribenha, classificando Cuba como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos EUA, citando alinhamentos políticos com Rússia, China e Irã. Como cerca de 80% da energia do país é gerada por termelétricas movidas a combustíveis, a restrição de compra de petróleo no mercado global se tornou um golpe devastador. Medidas de pressão sobre a Venezuela também complicam a situação de forma significativa, embora o bloqueio naval com impacto direto esteja previsto para se intensificar a partir de 2025. O bloqueio econômico contra a ilha, que já dura 66 anos, tem sido intensificado por centenas de novas sanções, inclusive no governo Biden, e por medidas que limitam a exportação de serviços médicos cubanos, uma das principais fontes de receita do país. A população cubana sente que, apesar do discurso de “ajudar o povo”, a política americana “estranguila” e “sufoca” a população.

Mais difícil que o “período especial”

Félix Jorge Thompson Brown, economista aposentado de 71 anos e tio de Ivón, que vivenciou a Revolução de 1959, avalia que o momento atual é o mais difícil que Cuba já enfrentou, superando até mesmo a chamada “período especial” da década de 1990. Naquele tempo, a queda do bloco socialista e da União Soviética privou Cuba de seus principais parceiros comerciais. No entanto, Feliz Jorge pondera que, no “período especial”, havia uma juventude que conhecia os avanços sociais da Cuba revolucionária, o que facilitava a compreensão e o enfrentamento das dificuldades. “Hoje, há alguma incerteza porque muitos não vivenciaram plenamente os primeiros anos da Revolução”, comenta o economista. Ele também aponta que a capacidade do Estado de fornecer a cesta básica de alimentos subsidiada diminuiu consideravelmente em comparação com a década de 1990, tornando a situação ainda mais complexa e angustiante para os cidadãos.

Desafios em setores essenciais

A crise energética e econômica de Cuba se ramifica por todos os aspectos da vida social, testando a resiliência das instituições e da população.

Colapso do transporte e mobilidade reduzida

A falta de combustível tem um impacto direto e devastador sobre o transporte. A oferta de transporte público em Havana diminuiu drasticamente, enquanto o transporte privado se tornou inacessível para muitos devido aos preços elevados. Ivón relata que as linhas regulares da cidade oferecem apenas uma viagem pela manhã e outra à tarde, e algumas sequer garantem isso. Mesmo os veículos elétricos, introduzidos como alternativa, enfrentam limitações para recarga. Félix Jorge, que viaja entre províncias para seu novo trabalho de consultoria contábil, observa que trens que circulavam a cada quatro dias agora levam oito, e os ônibus nacionais oferecem apenas duas viagens semanais diretas para as capitais provinciais, reduzindo a mobilidade em pelo menos metade.

Saúde e medicamentos em xeque

O setor de saúde pública também sofre severamente. A dificuldade de locomoção dos profissionais de saúde, somada à escassez de medicamentos, compromete o atendimento. Muitas consultas são canceladas, e o foco recai sobre emergências. A falta de fármacos atinge toda a sociedade, incluindo pacientes com condições de saúde mental, cuja interrupção do tratamento pode gerar consequências graves para as famílias e a comunidade. Embora os hospitais continuem funcionando, a obtenção de medicamentos muitas vezes depende do mercado paralelo ou da ajuda de familiares no exterior, já que o Estado não possui mais recursos para cobrir todos os remédios gratuitamente como em épocas mais prósperas.

Educação e cultura resistem

Apesar das adversidades, os entrevistados indicam que os pilares da educação e da cultura têm conseguido ser mantidos. A proximidade das escolas para crianças menores e adolescentes minimiza o impacto da falta de transporte. O filho de Ivón, Robin, de nove anos, continua frequentando aulas gratuitas de música perto de casa, oferecidas pelos centros culturais estatais. Essa persistência desses serviços públicos gratuitos é um ponto de resiliência, proporcionando diversão e interação social, elementos vitais para o bem-estar da população em meio à crise.

Perspectivas e resiliência cubana

A política externa dos EUA busca uma “mudança de regime” em Cuba, uma meta que, segundo Ivón Rivas, parece distante. A arquiteta observa que o povo cubano está mais focado em garantir o sustento diário e que os jovens insatisfeitos tendem a aspirar à emigração, em vez de protestar nas ruas. Para Félix Jorge Thompson, a persistência de Cuba em desenvolver um modelo político e econômico alternativo a Washington, com conquistas sociais notáveis para seus vizinhos caribenhos, é o que realmente incomoda os Estados Unidos. Ele reforça a visão de que “o bloqueio e a política de bloqueio contra Cuba são verdadeiramente desumanos e cruéis e que restringem e maltratam o povo cubano”. Apesar das dificuldades, Félix acredita que “Cuba não está sozinha e continuará avançando”, ecoando um sentimento de perseverança que permeia a ilha. A população cubana, diante da pior crise de sua história recente, demonstra uma notável capacidade de adaptação e luta diária, mesmo sob o peso de um cenário econômico e social cada vez mais complexo e desafiador.

Perguntas Frequentes sobre a Crise em Cuba

Qual a principal causa da atual crise econômica em Cuba?
A crise é atribuída principalmente ao endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos desde o final de janeiro, que restringe a compra de petróleo e, consequentemente, a geração de energia. A pandemia de COVID-19 e sanções anteriores também contribuíram para a deterioração econômica.

Como os apagões afetam o dia a dia dos cubanos em Havana?
Os apagões se tornaram imprevisíveis e mais longos, durando até 12 horas, e afetam serviços essenciais como o fornecimento de água, telefonia, internet, funcionamento de caixas eletrônicos e cartórios, paralisando a rotina e dificultando tarefas básicas.

Esta crise é comparável a outros períodos difíceis da história cubana, como o “Período Especial”?
Sim, cubanos que vivenciaram ambos os períodos consideram a crise atual mais grave do que o “Período Especial” da década de 1990, que seguiu o colapso da União Soviética. A situação energética é mais severa, e a capacidade do Estado de fornecer bens básicos diminuiu, criando desafios materiais e espirituais ainda maiores.

Qual o impacto da crise no transporte e na saúde pública?
No transporte, há uma drástica redução na oferta de ônibus e trens, com linhas urbanas funcionando de forma limitada e viagens interprovinciais raras, tornando a mobilidade extremamente difícil. Na saúde, médicos têm dificuldade de locomoção, consultas são canceladas, e a escassez de medicamentos afeta o tratamento de diversas condições, inclusive de saúde mental.

Quais são as perspectivas da população cubana diante da crise?
A população se foca na sobrevivência diária e na busca por soluções individuais. Enquanto o governo mantém sua postura de resiliência, muitos jovens veem a emigração como a principal alternativa, e há pouca expectativa de protestos em massa.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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