Avenida Adelmo Perdizza, um eixo vital na zona sul de Ribeirão Preto (SP), tem sido palco de alagamentos frequentes, transformando trechos da via em rios intransitáveis a cada chuva intensa. Recentemente, o entroncamento com o Anel Viário Sul ficou submerso duas vezes em uma única semana, paralisando o trânsito e expondo a vulnerabilidade da infraestrutura local. Este cenário alarmante não é novo; há anos, fatores como o acúmulo de sujeira, a deficiência do sistema de drenagem e o avanço da impermeabilização do solo, impulsionado pela expansão imobiliária, contribuem para a recorrência dessas inundações. A gravidade da situação mobilizou o Ministério Público, que investiga o problema desde 2019 e busca soluções urgentes e estruturais para a segurança e mobilidade dos cidadãos.

A complexidade dos alagamentos e a ação do Ministério Público

Causas multifatoriais e a análise especializada
Os constantes alagamentos na avenida Adelmo Perdizza, uma das principais artérias de tráfego na zona sul de Ribeirão Preto, são resultado de uma combinação de fatores interligados. Engenheiros civis apontam que as águas pluviais, provenientes das ruas e galerias, encontram dificuldades para escoar. A impermeabilização crescente do solo, decorrente da expansão imobiliária na região, reduz drasticamente a capacidade de absorção natural do terreno. Menos áreas permeáveis significam mais volume de água escorrendo pela superfície, sobrecarregando um sistema de drenagem já comprometido.

Além disso, a ineficiência das galerias pluviais, muitas vezes entupidas por detritos e assoreamento, impede o fluxo adequado da água. Essa conjunção de fatores cria um ciclo vicioso: chuvas intensas, que se tornaram mais volumosas em períodos recentes – com volumes superando a média mensal em 34% em fevereiro, por exemplo – encontram uma infraestrutura urbana despreparada para lidar com o volume de escoamento. O resultado são vias inundadas, com sérios riscos à segurança de motoristas e pedestres, e prejuízos materiais.

A atuação do Gaema e a busca por soluções
Diante da recorrência e da gravidade dos alagamentos, o Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema), parte do Ministério Público, acompanha a situação através de um inquérito que remonta a 2019. A preocupação da instituição culminou na convocação de uma reunião para discutir medidas imediatas e de longo prazo. O Gaema sustenta que a resolução do problema exige intervenções estruturais complexas, que demandam um esforço conjunto entre o município, a Defesa Civil e a concessionária responsável pela rodovia.

Promotores de Justiça enfatizam a existência de deficiências no sistema de drenagem e a necessidade de se estabelecer uma responsabilidade compartilhada. A contribuição tanto do sistema de drenagem municipal quanto daquele relacionado à rodovia são vistas como elementos cruciais para a origem e a solução dos problemas. Essa visão ressalta a importância de uma abordagem integrada, superando disputas de competência e focando na segurança e bem-estar da população de Ribeirão Preto.

Desafios estruturais: barragens e urbanização

Ineficácia das barragens e propostas de engenharia
O sistema de barragens, implementado para controle da vazão de água na região, tem se mostrado aquém das necessidades. A Prefeitura de Ribeirão Preto construiu três estruturas nos últimos anos: a maior, no distrito de Bonfim Paulista, com capacidade para 500 milhões de litros, projetada para conter o volume da região sul antes do centro; uma barragem na Mata de Santa Tereza, com 210 milhões de litros; e outra próxima a condomínios da Vila Virgínia.

No entanto, a eficácia dessas barragens é questionada por especialistas. A estrutura de Bonfim Paulista, por exemplo, consegue reter apenas parte do volume previsto. A barragem da Vila Virgínia sofre com vertedouros rompidos, e a de Santa Tereza está severamente comprometida pelo acúmulo de sujeira e sedimentos. Um engenheiro civil sugere a construção de uma barragem intermediária e o desassoreamento periódico das estruturas existentes, inclusive em períodos de estiagem, para restaurar sua capacidade original. Ele aponta que a barragem de Bonfim Paulista, se estivesse devidamente limpa, seria capaz de lidar com eventos pluviométricos de grande escala, como uma “chuva de 100 anos”, conforme cálculos técnicos.

Adicionalmente, um ponto crítico é a ausência de diques de contenção que faziam parte do projeto original da barragem de Santa Tereza, mas nunca foram construídos. Esses diques teriam a função de reter as águas a jusante, antes da barragem, prevenindo que chegassem à avenida. Seriam reguladores de vazão essenciais para proteger a área.

O impacto da expansão imobiliária e a visão para o futuro
A expansão imobiliária na zona sul de Ribeirão Preto, embora traga desenvolvimento econômico, tem sido um agravante para os alagamentos. O crescimento urbano levou a uma maior impermeabilização do solo, com a construção de condomínios, edificações e a pavimentação de novas áreas, diminuindo drasticamente as superfícies permeáveis que naturalmente absorveriam a água da chuva. Essa alteração na paisagem urbana impede a infiltração da água no solo, canalizando-a diretamente para o sistema de drenagem, que não foi dimensionado para tal volume.

Especialistas defendem a adoção de técnicas de engenharia que integrem o desenvolvimento urbano com a gestão hídrica. Isso inclui a implementação de postos de captação de água em condomínios, que não só mitigam os alagamentos, mas também auxiliam na recarga do Aquífero Guarani. A utilização de pavimentações permeáveis em calçadas e estacionamentos é outra solução viável, permitindo que a água retorne ao solo de forma controlada. A evolução nessas práticas construtivas é vista como fundamental para criar uma cidade mais resiliente e adaptada aos desafios climáticos, minimizando o impacto das chuvas em áreas urbanas como a avenida Adelmo Perdizza.

Em busca de uma Ribeirão Preto mais resiliente
A persistência dos alagamentos na avenida Adelmo Perdizza é um sintoma claro da necessidade de uma abordagem integrada e proativa para a gestão urbana em Ribeirão Preto. Enquanto a Prefeitura aponta para limpezas constantes nas barragens e responsabiliza a concessionária pelo trecho, e esta, por sua vez, atribui a ineficiência ao programa antienchentes municipal, a população continua a enfrentar os transtornos. A atuação do Ministério Público, cobrando soluções estruturais e uma responsabilidade conjunta, sublinha que o problema transcende a disputa de competências. A resolução definitiva exigirá um planejamento urbano que incorpore resiliência climática, investimentos em infraestrutura de drenagem, manutenção rigorosa das barragens e a implementação de soluções sustentáveis que integrem o crescimento imobiliário com a preservação ambiental. Somente com o engajamento de todas as partes interessadas – poder público, iniciativa privada e sociedade civil – será possível transformar o cenário atual e garantir a segurança e a fluidez do trânsito na avenida Adelmo Perdizza e em toda a cidade.

Perguntas frequentes

Por que os alagamentos são tão frequentes na avenida Adelmo Perdizza?
Os alagamentos são frequentes devido a uma combinação de fatores, incluindo o acúmulo de sujeira e lixo no sistema de drenagem, falhas e assoreamento nas barragens de contenção, e o aumento da impermeabilização do solo provocado pela expansão imobiliária na zona sul de Ribeirão Preto.

Quais são as principais falhas no sistema de drenagem da região?
As falhas incluem galerias entupidas, a ineficácia das três barragens existentes – com uma delas parcialmente funcional, outra com vertedouros rompidos e a terceira assoreada –, e a ausência de diques de contenção que estavam previstos em projetos originais.

Quem é o responsável por solucionar os problemas de alagamento?
A responsabilidade é vista como conjunta. O Ministério Público aponta para a deficiência do sistema de drenagem municipal e também para a possível contribuição do sistema de drenagem da rodovia, sob responsabilidade da concessionária. Há uma disputa entre a Prefeitura de Ribeirão Preto e a concessionária sobre a responsabilidade primária.

Que soluções foram propostas para conter os alagamentos?
Especialistas sugerem o desassoreamento urgente das barragens, a construção de uma barragem intermediária, a implementação dos diques de contenção que nunca foram construídos, e a adoção de práticas de engenharia urbana mais sustentáveis, como pavimentação permeável e postos de captação de água em condomínios.

Para aprofundar seu conhecimento sobre as iniciativas de engenharia e gestão urbana que buscam solucionar esses desafios, explore outras notícias e artigos sobre infraestrutura e sustentabilidade em cidades brasileiras.

Fonte: https://g1.globo.com

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