A grave crise na Venezuela, que se aprofundou na última década, tem ressoado dolorosamente na vida de milhares de seus cidadãos que buscaram refúgio e oportunidades no Brasil. Longe de sua terra natal, produtores audiovisuais, acadêmicos e empreendedores veem, com uma mistura de tristeza e apreensão, os desdobramentos políticos e sociais que assolam o país vizinho. Para muitos, a migração que inicialmente representava a busca por melhores condições de vida transformou-se em uma travessia permanente, marcada pela saudade, pela preocupação com familiares e por um sentimento profundo de incerteza em relação ao futuro de uma nação outrora próspera. As divisões internas e as pressões externas criam um cenário complexo, onde a esperança por um renascimento convive com o medo de uma escalada de violência e a perda da soberania nacional.
Caminhos da migração: busca por novas oportunidades
A migração de venezuelanos para o Brasil ganhou força a partir de 2017, com um fluxo diário crescente, especialmente pela fronteira de Roraima. No entanto, alguns pioneiros já haviam chegado anos antes, antecipando o agravamento da crise econômica. As motivações para essa saída são variadas, indo da busca por melhores condições de trabalho e vida à necessidade premente de escapar da fome e da escassez que assolavam o país.
Benjamin Mast: entre a dor da invasão e a vida em Roraima
Benjamin Mast, produtor audiovisual de 44 anos, chegou ao Brasil em 2016, quando a onda migratória ainda era incipiente. Sua vinda foi impulsionada pela escassez de trabalho em sua área na Venezuela, em contraste com as oportunidades que vislumbrava no cenário brasileiro. Atualmente estabelecido em Roraima, ele gerencia uma produtora com sua esposa e é pai de uma menina de um ano. Diferente de muitos de seus compatriotas que enfrentavam a fome, Mast buscava, naquele momento, um avanço profissional.
Apesar de ter encontrado estabilidade no Brasil, o coração de Benjamin está partido pela situação de sua nação. Ele se opõe veementemente a qualquer intervenção militar estrangeira, especialmente a dos Estados Unidos, que, segundo ele, não possui estatuto legal internacional. A imagem de militares lançando bombas, somada à reação de parte da população que celebra a invasão como a única saída, causa-lhe profunda dor e desilusão. Para Mast, tal atitude seria o caminho para a Venezuela se tornar uma colônia, sem o amor-próprio necessário para promover mudanças internas. Ele prevê um país extremamente polarizado e instável politicamente, dado o que considera um vazio de poder. O produtor também critica a ação de tentar indiciar Nicolás Maduro nos Estados Unidos, classificando-a como “muito forte”. Mast acredita que o futuro com uma intervenção externa não é promissor, pois as políticas prometidas beneficiarão principalmente oligarquias petrolíferas e econômicas estrangeiras, e não trarão mudanças sociais efetivas para a Venezuela. A perda de soberania, para ele, terá um preço alto não apenas para a Venezuela, mas para toda a América Latina.
Desafios acadêmicos e familiares: a jornada de Lívia Vargas
Para a acadêmica Lívia Esmeralda Vargas González, a migração representou a continuidade de seus estudos e a necessidade de se afastar de uma realidade cada vez mais hostil em seu país. Hoje professora na Universidade Federal de Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu, Lívia chegou ao Brasil em 2016 com uma bolsa de doutorado em história. O que seria uma estadia temporária para concluir seus estudos transformou-se em uma travessia migratória, culminando em dois doutorados (história e filosofia) em cinco anos.
Dores da distância e o repúdio à intervenção externa
Apesar das conquistas acadêmicas, incluindo pesquisas sobre a história de seu próprio país que seriam inviáveis na Venezuela, o processo migratório de Lívia é marcado por uma ferida aberta: a distância da família que permanece na crise. Lidar com a dor e acompanhar de longe a situação crítica em termos econômicos, sociais, políticos e afetivos tem sido um percurso que oscila entre a gratidão pelo acolhimento brasileiro e a angústia pela família distante. No último ano, um alívio veio com a chegada de seu filho, Aquiles Léon, de 21 anos, que conseguiu uma vaga na Unila. Lívia relata as condições precárias de seus ex-colegas professores na Venezuela, que, apesar de serem referências acadêmicas, agora precisam se desdobrar em bicos para sobreviver, sem tempo para pesquisa. As oportunidades que encontrou no Brasil como professora, pesquisadora e escritora seriam impossíveis em sua terra natal.
Assim como Benjamin, Lívia repudia veementemente a invasão e classifica a situação como estarrecedora, aprofundando os traumas da população venezuelana e gerando um precedente perigoso para a América Latina. Para ela, a intervenção estrangeira significa a materialização de um ato de recolonização. A dor de não poder abraçar sua família, que vive em um ambiente de incertezas, sem acesso a itens básicos e temendo novos bombardeios, é quase indescritível, reforçando a catástrofe de anos de fraturas políticas e sociais.
Reinvenção profissional e incertezas políticas: a trajetória de Maria Elias
Em 2015, a técnica de informática Maria Elias deixou sua cidade, Güigüe, com o marido e dois filhos. A família possuía uma loja e se mantinha até que a crise econômica na Venezuela se aprofundou de forma insustentável. A vinda para o Brasil foi uma decisão difícil, mas necessária, buscando 50% de chance de dar certo. A parte positiva imediata foi conseguir vagas em escolas públicas no Rio de Janeiro para os filhos. No entanto, Maria e seu marido enfrentaram desafios significativos com a língua portuguesa, a cultura brasileira e a inserção no mercado de trabalho.
Do setor de tecnologia à culinária: a esperança de um renascimento
A solução para o sustento familiar veio da culinária, uma área que Maria descobriu ter ligação com sua ascendência. A dificuldade inicial foi superada ao diferenciar sua culinária como libanesa, conquistando o primeiro pedido em uma lanchonete. O sucesso levou a convites para jantares em residências e, em 2017, a ampliação do cardápio para cozinha árabe e mediterrânea, que, segundo ela, trouxe “mais trabalho, graças a Deus”.
Com familiares ainda na Venezuela, Maria Elias também expressa profunda preocupação com a situação política. Embora tenha visto com bons olhos a saída de Maduro do poder, ela considera a condição política local muito confusa. Em meio a tanta desinformação e divisão, ela defende a manutenção do governo chavista por um período de transição, seguido por eleições livres e limpas. A incerteza sobre as intenções de atores externos como Donald Trump adiciona mais uma camada de complexidade ao cenário. Sua maior esperança é ver a Venezuela renascer e voltar a ser produtiva, como sempre foi.
O futuro em meio à dor e à resiliência
As histórias de Benjamin, Lívia e Maria, embora distintas em seus percursos, convergem na dor compartilhada pela situação de sua terra natal e na resiliência em reconstruir suas vidas no Brasil. Todos enfrentam o desafio de manter os laços com a Venezuela enquanto se adaptam a uma nova cultura, idioma e mercado de trabalho. A polarização política, as intervenções externas e a perda de soberania são temas que ecoam em suas preocupações, revelando um profundo anseio por paz, estabilidade e a capacidade de seu país determinar seu próprio destino. O futuro da Venezuela, segundo esses relatos, está envolto em incertezas, mas a esperança por um renascimento permanece, mesmo que tênue, no coração daqueles que, longe, continuam a amar sua pátria.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. Quais são os principais motivos para a migração venezuelana para o Brasil?
A migração venezuelana é motivada principalmente pela busca de melhores oportunidades de trabalho e condições de vida, além da fuga da escassez de alimentos, medicamentos e da violência que se agravaram com a crise econômica e política na Venezuela a partir de 2016-2017. Muitos buscam estabilidade e segurança que não encontram em seu país de origem.
2. Como os venezuelanos no Brasil veem a situação política e as intervenções externas em seu país?
As opiniões são diversas, mas muitos expressam tristeza e preocupação. Há um forte repúdio à intervenção militar estrangeira, vista como uma ameaça à soberania e um caminho para a colonização. Alguns reconhecem a má gestão interna, mas criticam as sanções econômicas. Outros veem com esperança a saída de líderes, mas permanecem céticos quanto à transparência de futuras eleições e a estabilidade política.
3. Quais são os maiores desafios enfrentados pelos venezuelanos ao se estabelecerem no Brasil?
Os principais desafios incluem a barreira do idioma (português), a adaptação à cultura brasileira, a reinserção no mercado de trabalho – muitas vezes em áreas diferentes de suas formações originais – e a distância da família, que ainda vive a crise na Venezuela. Questões como a obtenção de documentos e o acesso a serviços básicos também representam obstáculos.
4. Como a crise na Venezuela impacta a vida familiar dos imigrantes?
A crise tem um impacto profundo na vida familiar dos imigrantes. Muitos sentem a dor da distância, a preocupação constante com a segurança e o bem-estar dos parentes que permaneceram na Venezuela. A dificuldade em manter contato, a ausência de recursos básicos no país e a impossibilidade de visitas geram um sofrimento emocional significativo, mesmo para aqueles que conseguiram estabilidade no Brasil.
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