A aparente neutralidade da Suíça foi posta em xeque por análises que revelam um profundo envolvimento econômico com a ditadura militar brasileira (1964-1985). Um levantamento aprofundado evidenciou como empresas suíças prosperaram ao se beneficiar da repressão de direitos trabalhistas e da estabilidade autoritária do regime. Empresários da época, como Anton Von Salis, presidente da Câmara de Comércio Suíço-Brasileira (Swisscam), justificaram publicamente os baixos salários praticados no Brasil, atribuindo-os às “necessidades diferentes” dos trabalhadores locais. Essa perspectiva, que via o golpe militar como uma oportunidade de lucros e mão de obra barata, é agora detalhada por pesquisas acadêmicas. Tais estudos lançam luz sobre as intrincadas relações financeiras que moldaram a presença suíça no país, questionando a imagem de imparcialidade helvética diante de regimes autoritários e destacando o significativo apoio financeiro da Suíça ao regime.

Oportunidades econômicas sob a ditadura

Em dezembro de 1970, em meio a um cenário de instabilidade política no Brasil, Anton Von Salis, então presidente da Swisscam, concedeu uma entrevista que chocou a opinião pública suíça. Cercado por folhagens tropicais, o empresário suíço defendia que os trabalhadores brasileiros podiam receber salários significativamente menores que seus pares europeus. Segundo Von Salis, “as necessidades são totalmente diferentes. Aqui não faz frio. E eles têm casas. Podem ser casas relativamente simples, mas suficientes para a natureza do país. Mas certamente (…) é um valor bastante baixo”. Para ele, o golpe que instaurou 21 anos de ditadura militar no Brasil garantiu estabilidade, mão de obra barata e abriu caminho para o lucro do capital suíço. Essa declaração expôs a mentalidade pragmática de parte do setor empresarial suíço em relação ao regime autoritário.

Mão de obra barata e estabilidade forçada

Um estudo detalhado de Gabriella Lima, pesquisadora da Universidade de Lausanne, na Suíça, revelou a extensão dessa lucratividade. Sua pesquisa comparou os salários pagos por 14 das maiores multinacionais suíças operando no Brasil em 1971. Os resultados foram contundentes: trabalhadores sem qualificação no Brasil recebiam apenas um quinto do salário de um operário suíço na mesma função. Para a mão de obra profissionalizada, a diferença diminuía, mas ainda representava um patamar altamente vantajoso para o empregador, com salários brasileiros correspondendo a pouco mais da metade (57%) dos suíços.

A análise de Lima, que resultou no livro “Don’t Miss The Bus”, ainda sem tradução para o português, mostra que o capital suíço de fato não perdeu a oportunidade. Segundo a pesquisadora, as empresas suíças “aproveitaram tudo que a ditadura tinha a oferecer”. Isso incluía a isenção de impostos nos primeiros dez anos de instalação no Brasil e sobre a remessa de lucros. Além disso, a “paz social” imposta pelo regime, com o “congelamento” de salários, o enfraquecimento do movimento operário, e a criminalização de movimentos sociais, da oposição, da esquerda e dos sindicatos, proporcionou um ambiente de “confiança no parceiro brasileiro” para os investidores.

Marco Antônio Rocha, professor do Instituto de Economia da Unicamp, complementa essa visão, explicando que a política de valorização do salário mínimo foi um dos fatores que precederam o golpe de 1964. Uma das primeiras medidas dos militares foi alterar a política de reajuste salarial, modificando a indexação do salário mínimo frente à inflação. Essa mudança fez com que o salário mínimo perdesse rapidamente cerca de 50% de seu poder de compra em apenas um ou dois anos, em um cenário de inflação já elevada. Gabriella Lima estimou o impacto financeiro desse achatamento salarial: as 14 maiores multinacionais suíças no Brasil, em 1971, teriam faturado cerca de 80 milhões de francos suíços somente naquele ano devido à mão de obra da classe operária brasileira.

Suíça: um investidor-chave na era autoritária

A política de achatamento de salários e a “estabilidade” gerada pela opressão animaram consideravelmente o capital suíço. Entre 1964 e o final da década de 1970, a Suíça se consolidou como um dos quatro países que mais investiram no Brasil, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha, e revezando o terceiro lugar com o Japão. Contudo, quando analisado proporcionalmente, o país foi o maior investidor durante todo o período da ditadura.

Investimento estrangeiro direto e setores de atuação

O investimento suíço per capita no Brasil foi, em média, de 187,8 dólares, um montante oito vezes maior que o investimento per capita da Alemanha, o segundo maior parceiro comercial do Brasil na época. Considerando que, nos anos 1970, a Suíça tinha cerca de 7 milhões de habitantes, essa proporção demonstra a magnitude do engajamento helvético. “Se a gente dividir pelo número da população, o investimento suíço não é só o primeiro, mas o maior do que os nove outros maiores investidores”, aponta a pesquisa.

Em 1973, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) suíço no Brasil atingiu a marca de 1,1 bilhão de francos suíços, um valor que representava quase três vezes o PIB brasileiro daquele período. Apenas quatro anos depois, em 1977, esse montante mais do que dobrou, chegando a 2,3 bilhões de francos suíços. As empresas suíças atuavam em diversos setores cruciais da economia brasileira, incluindo alimentação, metalurgia, petroquímica, laboratórios farmacêuticos e, notoriamente, o sistema financeiro, com a presença de renomados bancos suíços. Questionado sobre as denúncias de prisões arbitrárias e torturas que garantiam a “estabilidade” celebrada pelas multinacionais, Anton Von Salis minimizou as violações de direitos humanos: “Parece que sim . Mas isso você tem em todos os países. Nesses casos.”

Contexto geopolítico e diplomático da época

A entrevista de Anton Von Salis em dezembro de 1970 ocorreu em um momento de grande atenção da opinião pública suíça sobre o Brasil. Naquele período, estava em curso o mais longo sequestro de um diplomata estrangeiro no país.

O sequestro de diplomatas e a pressão internacional

O embaixador da Suíça, Giovanni Enrico Bucher, havia sido sequestrado em 7 de dezembro de 1970. A ação foi comandada pelo ex-capitão do exército Carlos Lamarca, líder da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um movimento de guerrilha urbana de oposição ao regime militar. Bucher permaneceu em cativeiro por 40 dias, sendo libertado apenas em troca da liberdade de 70 presos políticos, que foram posteriormente exilados no Chile. A captura de diplomatas era uma estratégia comum dos movimentos de esquerda no Brasil e na América Latina. A região enfrentava uma série de golpes militares e governos ditatoriais alinhados aos Estados Unidos durante a Guerra Fria.

No Brasil, além de Giovanni Bucher, outros três diplomatas também foram sequestrados em ações semelhantes: o embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969; o embaixador da Alemanha, Ehrenfried von Holleben, em junho de 1970; e o cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi, em março de 1971. É notável que esses quatro diplomatas representavam justamente os países que eram os maiores parceiros comerciais do Brasil na época.

A visão atual e o legado

Diante das revelações sobre o envolvimento suíço com a ditadura brasileira, procurou-se o governo suíço, por meio de sua embaixada no Brasil, para entender a perspectiva atual do país sobre os acontecimentos do passado.

Respostas do governo suíço e da Câmara de Comércio

A Suíça respondeu por escrito que “uma resposta detalhada exigiria análises que não são possíveis no âmbito da administração federal suíça, pois demandam pesquisas históricas aprofundadas”. No entanto, o governo suíço declarou que “saúda” a realização de estudos independentes e que esse tipo de trabalho contribui para a compreensão do passado e para a promoção do debate.

A Câmara de Comércio Suíço-Brasileira (Swisscam) também foi procurada para comentar as informações históricas. Inicialmente, foi oferecida a oportunidade de consultar os arquivos da organização e prometida uma resposta às questões levantadas. Contudo, após o detalhamento das dúvidas por e-mail, a instituição informou por telefone que o presidente da Câmara de Comércio não havia sido localizado e, portanto, não autorizariam o acesso aos arquivos nem responderiam às perguntas. A dificuldade em obter respostas concretas por parte das instituições suíças sugere uma complexidade na abordagem de um período histórico que levanta questões sobre responsabilidade corporativa e diplomática em contextos autoritários.

Perguntas frequentes

1. Qual foi o principal benefício da ditadura militar brasileira para as empresas suíças?
As empresas suíças se beneficiaram principalmente da estabilidade política forçada pela ditadura, que garantia mão de obra barata, supressão de sindicatos e greves, e incentivos fiscais significativos, como isenção de impostos sobre instalação e remessa de lucros.

2. Como os salários brasileiros se comparavam aos suíços durante a ditadura militar?
Segundo pesquisas, em 1971, trabalhadores sem qualificação no Brasil recebiam um quinto do salário de um operário suíço na mesma função. Para mão de obra qualificada, a remuneração brasileira era pouco mais da metade da suíça.

3. Qual era a posição da Suíça em termos de investimento estrangeiro no Brasil no período?
A Suíça foi um dos quatro maiores investidores estrangeiros no Brasil entre 1964 e o final dos anos 1970. Proporcionalmente, considerando sua população, foi o maior investidor per capita no período, com montantes que alcançaram bilhões de francos suíços.

Para aprofundar seu conhecimento sobre as complexas interações econômicas e diplomáticas durante a ditadura militar brasileira, explore mais estudos e reportagens que investigam esse período crucial da história.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Compartilhar.
Deixe Uma Resposta

Olá vamos conversar!