Vizinha de Itapevi e localizada a cerca de 60 quilômetros da capital paulista, São Roque construiu, ao longo das décadas, uma identidade fortemente ligada ao vinho. Por muito tempo, porém, essa história veio acompanhada de um rótulo difícil de remover: o de terra do vinho doce, simples, muitas vezes associado a garrafões e ao turismo rápido de bate-volta. Esse cenário, no entanto, mudou — e mudou de forma consistente.

Hoje, São Roque vive um novo momento, marcado pela profissionalização do setor, pela diversificação dos rótulos e pela consolidação do vinho como experiência completa. “Mais profissional, mais diversa e, sobretudo, mais consciente de que o vinho pode ser experiência, e não apenas produto”, resume Claudio Góes, CEO da Vinícola Góes, uma das mais importantes do país.

Pandemia, mudança de hábitos e retomada do turismo

O processo de transformação passou diretamente pelo turismo. Durante a pandemia, o setor sofreu impactos evidentes: portas fechadas, visitas suspensas e festas tradicionais interrompidas. Paradoxalmente, foi nesse período que o vinho ganhou mais espaço dentro dos lares brasileiros. O consumo doméstico cresceu e formou uma nova base de consumidores, mais curiosos e abertos a experimentar estilos diferentes.

Com a retomada gradual da vida social e do trabalho presencial, o enoturismo voltou a respirar. Não de forma explosiva, mas constante. Esse novo ritmo alterou o perfil do visitante e elevou o nível do turismo local. O ticket médio aumentou, impulsionando melhorias no atendimento, na estrutura das vinícolas e até na logística de vendas.

Do vinho de mesa à experiência sensorial

Antes associada quase exclusivamente aos vinhos de mesa, São Roque passou a dialogar com um público interessado em rótulos mais secos, técnicas de produção, gastronomia e vivência no campo. Hoje, o peso do turismo varia conforme o porte das vinícolas: nas maiores, representa cerca de 10% do faturamento; nas menores, pode chegar a 40% ou até 50%, mostrando a relevância econômica do enoturismo.

A cidade segue produzindo vinhos de mesa — que ainda respondem por cerca de 80% do mercado brasileiro —, mas não se resume mais a eles. Técnicas modernas, como a dupla poda adaptada ao Sudeste, o plantio de variedades de origem europeia e o cuidado com o terroir elevaram o padrão da produção local.

Um novo perfil de turista e a força da proximidade

São Roque ainda carrega a herança do turismo de um dia só, com ônibus que chegam, visitantes que degustam e retornam rapidamente. Contudo, esse comportamento vem mudando. No cenário pós-pandemia, uma noite fora já é considerada viagem; duas, férias. A proximidade com São Paulo, antes vista como limitação, tornou-se vantagem competitiva.

A busca agora é por experiências completas, que incluem hospedagem, gastronomia e contato direto com a natureza. A hotelaria surge como a “bola da vez”, acompanhando avanços já consolidados no vinho, na culinária e nas experiências sensoriais.

Cidade preparada para receber

O poder público e a iniciativa privada também fizeram sua parte. Houve reorganização urbana voltada ao turismo, melhorias de acesso, chegada de outlets e investimentos privados de maior porte. O antigo modelo centrado apenas em festas populares deu lugar a um turismo mais profissionalizado, focado no bem-estar e na experiência do visitante.

Em São Roque, hoje, a experiência começa antes da taça: no visual dos parreirais, nos piqueniques entre as videiras, no contato com a uva e no entendimento do processo produtivo. Para quem ainda acredita que a cidade se resume ao vinho doce, talvez seja hora de voltar, provar novamente e redescobrir um destino que já conquistou reconhecimento muito além das fronteiras paulistas.

fonte: Nossa Uol

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