Um dos grupos de teatro mais emblemáticos do Brasil, o Grupo Galpão, fundado em Minas Gerais em 1982, trouxe à cena paulistana uma adaptação instigante de uma das maiores obras do Nobel de Literatura José Saramago: “(Um) Ensaio sobre a Cegueira”. A temporada no Sesc 24 de Maio, que cativou o público, destacou não apenas a maestria da companhia em transpor um romance complexo para o palco, mas também a atemporalidade da narrativa de Saramago. Com uma trama que expõe a fragilidade humana diante de uma crise sanitária, o espetáculo provocou reflexões profundas sobre moral, ética e a própria essência da vida em comunidade, ressoando intensamente com os desafios do mundo contemporâneo.

A encenação de uma obra atemporal

Da literatura ao palco: o universo de Saramago

O romance “Ensaio sobre a Cegueira”, publicado por José Saramago em 1995, apresenta uma distopia perturbadora onde uma epidemia inexplicável priva a população de uma cidade de sua visão, mergulhando-a em um caos social e moral. A obra é uma poderosa alegoria sobre a condição humana, a barbárie que emerge em situações extremas e a capacidade de resistência de alguns indivíduos. O Grupo Galpão, reconhecido por sua linguagem teatral única que mistura elementos populares, pesquisa corporal e dramaturgia autoral, abraçou o desafio de materializar essa complexidade no palco.

Eduardo Moreira, um dos fundadores do Grupo Galpão, enfatiza a relevância inquestionável da obra. “É uma obra que tem uma relevância enorme, dos principais romances do Saramago, e que traz uma questão fundamental para os dias de hoje, essa questão da cegueira”, afirma. Moreira destaca como a narrativa, escrita há quase trinta anos, se tornou ainda mais premente com o advento das redes sociais, a proliferação de notícias falsas (fake news) e a ascensão de líderes autocráticos em diversas partes do mundo. Segundo o ator, “com as redes sociais, vivemos uma espécie de apagamento do debate público”, uma metáfora direta à cegueira que Saramago tão perspicazmente descreveu, mas que hoje se manifesta como uma incapacidade de discernir a verdade e de engajar-se em discussões construtivas. A adaptação teatral, portanto, não apenas homenageia o texto original, mas também o revitaliza com uma leitura contemporânea e crítica.

Imersão teatral e a reação do público

A singularidade da adaptação e a interação cênica

A transposição do aclamado romance de Saramago para a linguagem teatral foi um processo meticuloso e inovador. O projeto de adaptação, impulsionado pela proposta do diretor convidado Rodrigo Portela, resultou em um exercício dramatúrgico “muito bem elaborado” que serviu de alicerce para todo o trabalho do Grupo Galpão. A genialidade da encenação reside na forma como os elementos cênicos se tornam extensões da narrativa e da performance dos atores.

No palco, os artistas do Galpão assumem múltiplos papéis: não apenas interpretam seus personagens, mas também manipulam a iluminação, movem os cenários e os figurinos, e executam a música ao vivo. Essa interatividade constante com os elementos técnicos e artísticos faz com que “o teatro seja um lugar dessa evocação daquilo que está sendo narrado”, como explica Eduardo Moreira. O jogo teatral é deliberadamente revelado, expondo a construção da ilusão e estabelecendo um encontro mais íntido e visceral entre as subjetividades dos atores e a experiência do espectador. Essa abordagem não só enriquece a experiência estética, mas também reforça a metáfora da cegueira coletiva, convidando o público a “ver” além da superfície e a questionar suas próprias percepções. A temporada em São Paulo, que já havia passado por outras cidades, confirmou o poder de engajamento da peça. “É um espetáculo que tem causado uma curiosidade muito grande, são diversos fatores que acentuam ainda mais essa metáfora da cegueira coletiva que o Saramago traz em sua obra”, comenta Moreira, destacando a “reação muito forte” da plateia.

Legado e engajamento: o impacto cultural do Galpão

A montagem de “(Um) Ensaio sobre a Cegueira” pelo Grupo Galpão no Sesc 24 de Maio não foi apenas mais uma apresentação teatral; foi um evento cultural que reforçou a relevância do teatro como espaço de reflexão e debate social. Ao trazer à tona a atemporalidade da obra de Saramago e conectá-la aos desafios atuais da desinformação e da polarização, o grupo mineiro reafirmou seu papel como um dos pilares da cena artística brasileira. A capacidade de emocionar, provocar e fazer pensar é a marca registrada do Galpão, e esta peça é um testamento vibrante dessa missão contínua, deixando uma marca duradoura na memória cultural de São Paulo e de todos os que a presenciaram.

Perguntas frequentes sobre “(Um) Ensaio sobre a Cegueira”

Onde e quando o espetáculo foi apresentado em São Paulo?
O Grupo Galpão apresentou “(Um) Ensaio sobre a Cegueira” no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, com temporada que se estendeu até o dia 14 de maio, oferecendo ao público paulistano a oportunidade de vivenciar essa adaptação marcante.

Qual a relevância da obra de Saramago nos dias atuais, segundo o Grupo Galpão?
De acordo com o ator Eduardo Moreira, a obra de Saramago se mantém extremamente atual, especialmente no contexto das redes sociais, notícias falsas e ascensão de líderes autocráticos. A metáfora da cegueira se reflete hoje no “apagamento do debate público”, tornando a peça um poderoso espelho da realidade contemporânea.

Como o Grupo Galpão adapta o romance para a linguagem teatral?
A adaptação, idealizada pelo diretor Rodrigo Portela, é um “exercício dramatúrgico muito bem elaborado”. Ela se caracteriza pela interatividade dos atores, que não só interpretam, mas também manipulam a iluminação, cenários, figurinos e executam a música ao vivo, revelando o jogo teatral e intensificando a imersão do público na narrativa.

Houve atividades extras durante a temporada?
Sim, durante a temporada em São Paulo, o Grupo Galpão promoveu quatro oficinas gratuitas, abordando diferentes dimensões do fazer teatral. Essas atividades complementaram a experiência do espetáculo, oferecendo ao público a chance de aprofundar-se nos processos criativos do grupo.

Não perca a chance de acompanhar as próximas produções e workshops do Grupo Galpão, uma companhia que continua a nos fazer enxergar o mundo de novas perspectivas.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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