A cena de corpos alinhados na Praça São Lucas, no Complexo da Penha, chocou o país. Familiares, em sua maioria mulheres, cercavam os corpos de dezenas de homens mortos durante a Operação Contenção, realizada pelas polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro. Entre lágrimas, mães, irmãs e esposas questionavam a ação do Estado.
Elieci Santana, 58 anos, relatou que seu filho, Fábio Francisco Santana, 36 anos, enviou uma mensagem informando que estava se entregando e compartilhando sua localização. “Meu filho se entregou, saiu algemado. E arrancaram o braço dele no lugar da algema”, lamentou.
O relato de mortes após rendição era comum entre os familiares presentes. Moradores trouxeram os corpos na caçamba de carros durante a madrugada. A confeiteira Tauã Brito, cujo filho Wellington morreu na operação, afirmou que muitos ainda estavam vivos na mata, mesmo baleados. “Ontem eu fui lá no Getúlio [Hospital Getúlio Vargas] pedir para subirem com a gente, para gente poder salvar esses meninos. Ninguém podia subir. Eles estavam vivos”, disse. Segundo ela, a busca por feridos começou somente à noite, após a retirada da polícia. “Ficamos lá, cada um caçando seus filhos, seus parentes. Isso aí está certo para o governo?”, questionou.
Emocionada, Tauã desabafou: “Não vai dar em nada. A verdade é essa. Porque aqui tem um montão de gente chorando, mas lá fora tem um montão de gente aplaudindo. Isso que eles fizeram foi uma chacina”.
O advogado Albino Pereira, que representa algumas famílias, acompanhou a movimentação e apontou sinais de tortura, execução e violações de direitos. “Você não precisa nem ser perito para ver que tem marca de queimadura [na pele]. Os disparos foram feitos com a arma encostada. Chegou um corpo aqui sem cabeça. A cabeça chegou dentro de um saco, foi decapitado. Então isso aqui foi um extermínio”, afirmou.
Os corpos foram recolhidos pela Defesa Civil e encaminhados para o IML. Antonio Carlos Costa, da ONG Rio da Paz, criticou a letalidade da operação: “Não há uma invasão aqui do Estado na sua plenitude, trazendo saneamento básico, moradia digna, acesso à educação de qualidade, hospitais decentes. Por que historicamente a resposta tem que ser essa? E por que a sociedade não se revolta?”.
A Operação Contenção resultou em 119 mortos, sendo 115 civis e quatro policiais. O governo do estado considerou a operação “um sucesso”, alegando que as vítimas reagiram com violência e que os que se entregaram foram presos. No total, 113 prisões foram efetuadas.
Especialistas criticaram a ação, afirmando que não atingiu o objetivo de conter o crime organizado. Jacqueline Muniz, professora da UFF, classificou a operação como amadora e “uma lambança político-operacional”. Movimentos populares e de favelas condenaram a ação, afirmando que “segurança não se faz com sangue”. Ativistas classificaram a ação policial como um “massacre”. A operação, que mobilizou 2,5 mil policiais, é a maior realizada no estado em 15 anos. Os confrontos e as ações de criminosos geraram pânico na cidade, com tiroteios, fechamento de vias, escolas e comércios.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br



