A recente divulgação de dados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado de São Paulo revela um aumento preocupante no número de feminicídios registrados em janeiro deste ano. Com 27 mulheres assassinadas no primeiro mês, o estado observou um acréscimo de cinco vítimas em comparação ao mesmo período do ano anterior. Esse cenário alarmante não apenas expõe a persistência da violência de gênero, mas também ressalta a urgência de fortalecer estratégias de combate e prevenção. Especialistas apontam que o feminicídio não é um evento isolado, mas o desfecho trágico de um ciclo de abusos muitas vezes negligenciado, influenciado por fatores sociais profundos como machismo e misoginia, que demandam uma resposta coletiva e eficaz de toda a sociedade. A situação exige uma análise aprofundada das causas e a implementação de políticas públicas mais robustas.
Aumento alarmante em São Paulo: os números de janeiro
O estado de São Paulo registrou um expressivo aumento de casos de feminicídio em janeiro, consolidando uma tendência preocupante de crescimento da violência fatal contra mulheres. Foram 27 vítimas no primeiro mês deste ano, superando as 22 mortes computadas em janeiro do ano anterior, representando um acréscimo de 22,7%. A análise desses números destaca não apenas a gravidade do problema, mas a necessidade premente de intervenções mais eficazes por parte das autoridades e da sociedade civil. A elevação de cinco vidas perdidas em tão curto espaço de tempo serve como um lembrete sombrio das fragilidades na proteção das mulheres.
Detalhes regionais e o impacto da violência
Os dados detalhados pela Secretaria da Segurança Pública revelam que a violência se manifesta de forma heterogênea pelo território paulista. Nas cidades do interior, foram contabilizadas 20 das 27 mortes por feminicídio em janeiro, evidenciando uma concentração da violência nessas regiões. Nesses 20 casos, a ação policial resultou na prisão em flagrante de 12 agressores, um índice que aponta para a resposta das forças de segurança, mas que não minimiza a tragédia. As vítimas restantes foram mortas na capital paulista e em diferentes municípios da região metropolitana. No total, em 15 das 27 ocorrências, os autores dos crimes foram detidos em flagrante, demonstrando uma pronta resposta em mais da metade dos casos, contudo, a efetividade dessa medida na prevenção de futuros crimes ainda é um desafio.
O ciclo da violência: sinais ignorados e falhas na proteção
A pesquisadora Daiane Bertasso, do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), da Universidade Estadual de Londrina (Uel), oferece uma perspectiva crucial sobre a natureza do feminicídio. Segundo ela, este não é um crime inesperado, mas o ponto culminante de um prolongado ciclo de violências que ocorre frequentemente em relações familiares e íntimas. A Lei Maria da Penha, ao tipificar diversas formas de agressão – psicológica, emocional, patrimonial, sexual e física – ilustra como esse ciclo pode se agravar progressivamente até alcançar seu desfecho mais trágico. A compreensão de que o feminicídio é o ápice de um processo, e não um evento isolado, é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de prevenção verdadeiramente eficazes.
Machismo, misoginia e a cultura da indiferença
Bertasso enfatiza que o machismo estrutural, a misoginia arraigada e uma sociedade historicamente voltada para valores masculinos contribuem significativamente para a negligência dos sinais de violência que precedem os feminicídios. Em muitas situações, a mulher agredida sente-se intimidada e envergonhada, o que a impede de compartilhar sua experiência com a família ou amigos. Quando decide fazê-lo, frequentemente encontra uma resposta de minimização ou descredibilidade, com parentes ou conhecidos sugerindo que a situação é apenas “um momento” ou “uma fase”. Essa falta de acolhimento e o estigma social impedem que a vítima busque ajuda externa, perpetuando o ciclo de abuso e tornando-a ainda mais vulnerável.
A fragilidade das medidas protetivas e a necessidade de amparo
A discussão sobre a eficácia das medidas protetivas ganha destaque diante de casos recentes que chocaram a imprensa. Mulheres que possuíam ordens judiciais de proteção contra seus agressores acabaram sendo mortas por eles, expondo uma lacuna crítica na efetividade da proteção estatal. A existência da medida protetiva, por si só, não garante a segurança da vítima se não houver um sistema de fiscalização e apoio robusto. É imperativo que o Estado desenvolva e implemente políticas públicas mais eficazes, garantindo que essas mulheres se sintam de fato acolhidas, seguras e amparadas. Isso inclui desde o monitoramento ativo dos agressores até o oferecimento de abrigos seguros, suporte psicológico e jurídico contínuo, e a capacitação das forças policiais para lidar com essas situações complexas.
A influência da masculinidade tóxica e a importância da educação
Outro elemento crucial que fomenta a violência contra as mulheres no país é a masculinidade tóxica. A cultura que impõe padrões rígidos de comportamento masculino, muitas vezes associados à dominância, à agressividade e à ausência de expressão emocional, alimenta comportamentos abusivos e desumaniza a mulher.
O impacto das redes digitais na formação de jovens
A pesquisadora Bertasso aponta para a emergência de um fenômeno preocupante: o crescimento da “machosfera”, um conjunto de redes e comunidades online que fortalecem ideais machistas e misóginos. Esses espaços digitais, muitas vezes sem controle efetivo, estão cooptando jovens e crianças, moldando suas perspectivas e perpetuando pensamentos que justificam e normalizam a violência de gênero. A facilidade de acesso a esses conteúdos e a ausência de contraponto em ambientes educacionais e familiares tornam as novas gerações particularmente suscetíveis a essas ideologias.
Educação de gênero como ferramenta preventiva
Diante do avanço dessas ideologias nas plataformas digitais, a educação assume um papel central na prevenção da violência. Bertasso defende a inclusão obrigatória de uma educação voltada para as relações de gênero nas escolas. Essa medida visa munir crianças e jovens com ferramentas críticas para desconstruir preconceitos, promover o respeito à diversidade e construir relações mais equitativas e saudáveis desde cedo. A escola, como espaço de formação integral, tem o potencial de atuar como um contraponto aos discursos de ódio e misoginia que proliferam no ambiente digital.
Cenário nacional: um recorde persistente de violência
A situação em São Paulo reflete um panorama nacional alarmante. O Brasil tem enfrentado recordes sucessivos de feminicídios nos últimos anos, indicando que a violência contra a mulher é uma epidemia que se agrava.
O preocupante panorama do Brasil e São Paulo
Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil atingiu um número recorde de 1.518 vítimas de feminicídios em 2025, o que equivale a quatro mulheres assassinadas por dia. Esse número representa um aumento em relação ao ano anterior, 2024, quando o país já havia registrado um recorde de 1.458 vítimas.
O estado de São Paulo, em particular, também acompanhou essa tendência ascendente. Em 2025, registrou o maior número de feminicídios desde o início da série histórica em 2018, com um total de 270 vítimas. Isso representa um aumento de 6,7% em comparação com as 253 vítimas contabilizadas em 2024. Esses dados sublinham a persistência e a expansão do problema, exigindo uma reavaliação urgente das políticas de segurança e proteção à mulher em todo o país.
A urgência de uma resposta social e estatal coordenada
Os dados recentes sobre o aumento de feminicídios em São Paulo e o cenário nacional de recordes sucessivos exigem uma resposta imediata e multifacetada. A compreensão de que o feminicídio é a culminação de um ciclo de violência, e não um ato isolado, deve guiar a formulação de políticas públicas mais eficazes. É fundamental que haja um reforço na fiscalização das medidas protetivas, o acolhimento integral das vítimas e o combate às raízes culturais do machismo e da misoginia, inclusive por meio da educação em gênero. Somente com o engajamento conjunto do Estado, da sociedade civil e de cada cidadão será possível reverter essa triste realidade e construir um ambiente seguro e equitativo para todas as mulheres.
FAQ
1. O que é feminicídio e como ele se diferencia de outros homicídios?
Feminicídio é o assassinato de uma mulher em razão de sua condição de mulher, ou seja, motivado por violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição feminina. Ele se diferencia de outros homicídios por ter essa motivação específica de gênero, sendo tipificado como crime hediondo no Brasil.
2. Qual o papel da Lei Maria da Penha na prevenção do feminicídio?
A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) é fundamental, pois tipifica diversas formas de violência contra a mulher (física, psicológica, sexual, patrimonial e moral), estabelece medidas de proteção urgentes para as vítimas e prevê a criação de juizados e delegacias especializadas. Ela busca coibir a violência doméstica e familiar, sendo um marco legal essencial para interromper o ciclo de violência que pode levar ao feminicídio.
3. Como a sociedade pode contribuir para combater o feminicídio?
A sociedade pode contribuir de diversas formas: denunciando casos de violência contra a mulher (Disque 100, Ligue 180, Polícia Militar 190); não minimizando os sinais de abuso; oferecendo apoio e acolhimento às vítimas; promovendo a educação para a igualdade de gênero desde a infância; e combatendo o machismo e a misoginia em todas as suas manifestações, inclusive nas redes sociais.
Denuncie a violência! Não seja cúmplice. Se você ou alguém que conhece precisa de ajuda, ligue para o 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou 190 (Polícia Militar) imediatamente.



