A Paraíba presenciou, nesta quinta-feira (5), a assinatura da portaria que estabelece o Assentamento Agroextrativista Elizabeth Teixeira, localizado na Fazenda Antas, uma área estratégica entre os municípios rurais de Sobrado e Sapé. Este marco representa o ponto final de um dos mais extensos e emblemáticos conflitos agrários da história brasileira, uma luta que se estendeu por mais de seis décadas. A medida, celebrada por sua profunda relevância social e histórica, não apenas regulariza a posse da terra para 21 famílias, mas também lhes concede acesso vital a uma gama de políticas públicas essenciais. Entre elas, destacam-se o crédito rural e os programas de apoio à agricultura familiar, elementos cruciais para o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida na região. A criação do assentamento é um testamento da resiliência e persistência das comunidades camponesas.
A concretização de uma batalha histórica
A oficialização do Assentamento Agroextrativista Elizabeth Teixeira, por meio da portaria assinada pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, simboliza a vitória de gerações na luta pelo direito à terra. O investimento do governo federal na desapropriação da área de 133,4889 hectares totalizou R$ 8.294.828,59, um montante que reflete a importância e a complexidade do processo. Para as 21 famílias beneficiadas, este não é apenas um título de propriedade; é a porta de entrada para a cidadania plena, permitindo-lhes cultivar, viver e planejar um futuro com dignidade e segurança jurídica. A garantia de acesso a políticas públicas de fomento à agricultura familiar é um pilar fundamental, promovendo a autonomia econômica e o desenvolvimento social em uma região marcada por décadas de incertezas.
Legado e martírio: a raiz da luta camponesa
A história da Fazenda Antas e da região de Barra das Antas, em Sapé, é indissociável do surgimento das Ligas Camponesas, um movimento seminal na reivindicação por reforma agrária no Brasil. Foi nesse solo que a luta de João Pedro Teixeira pela posse da terra ganhou força, confrontando o poder dos latifundiários. O engajamento de João Pedro custou-lhe a vida, sendo assassinado em 1962, um crime que ecoou por todo o país.
Após sua morte trágica, sua esposa, Elizabeth Teixeira, emergiu como um símbolo de resistência. Assumindo a presidência da Liga de Sapé, ela continuou a defesa intransigente dos trabalhadores rurais, mesmo sob a pesada repressão da ditadura militar. Elizabeth e seus filhos foram incessantemente perseguidos e vigiados pelos serviços de informação, sofrendo oito meses de prisão, o incêndio de sua casa e um período de 17 anos vivendo na clandestinidade. Sua história, de dor, coragem e perseverança, foi imortalizada no aclamado documentário “Cabra Marcado para Morrer”, do cineasta Eduardo Coutinho, que a reencontrou em 1981 durante as filmagens. Hoje, Elizabeth Teixeira, prestes a completar 101 anos, reside em João Pessoa, em uma casa que lhe foi presenteada por Coutinho, enquanto a antiga moradia de sua família se transformou no Memorial João Pedro Teixeira, um local que preserva a memória da luta.
Décadas de batalhas jurídicas e sociais
O caminho para a criação do assentamento foi longo e repleto de obstáculos legais e sociais. No início dos anos 2000, o processo de desapropriação foi reativado na Justiça. Em 2004, o proprietário da fazenda pleiteou a reintegração de posse junto ao Tribunal de Justiça da Paraíba (TJ-PB), obtendo uma liminar favorável que reconhecia o esbulho possessório. Contudo, a persistência dos movimentos sociais e a atuação de órgãos governamentais foram cruciais para reverter esse cenário.
Em 2006, após intensa mobilização, um decreto presidencial declarou a área da fazenda como de interesse social para fins de reforma agrária. No entanto, uma série de decisões judiciais e um mandado de segurança impetrado pelo proprietário dificultaram significativamente o processo de desapropriação. A luta alcançou um novo patamar em 17 de abril de 2012, quando cerca de 500 pessoas, lideradas pelo MST da Paraíba, ocuparam o prédio do Incra em João Pessoa, em um ato de protesto pela celeridade na regularização da terra. A reviravolta decisiva veio em fevereiro de 2014, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) negou o mandado de segurança do proprietário e votou pela manutenção do decreto presidencial, após ação protocolada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
A persistência na busca pela regularização fundiária
A fase final do processo foi marcada pela articulação política e pelo consenso comunitário. Em 25 de março do ano passado, uma audiência pública na Câmara Municipal de Sobrado reuniu aproximadamente 70 pessoas, incluindo autoridades, agricultores familiares e representantes de movimentos sociais. Neste evento, foi aprovada a proposta de aquisição de parte da Fazenda Antas, representando um passo gigantesco na concretização do assentamento.
Com a aprovação unânime dos participantes da audiência pública, o Incra pôde dar prosseguimento ao processo administrativo de aquisição do imóvel rural. Este trâmite foi realizado por meio do Decreto Nº 433/92, que regulamenta a compra e venda de imóveis rurais para fins de reforma agrária. A formalização, agora concluída com a portaria, não apenas encerra um conflito secular, mas também reafirma a importância da reforma agrária como instrumento de justiça social e desenvolvimento no país, honrando a memória de figuras como João Pedro e Elizabeth Teixeira e garantindo um futuro para as novas gerações de camponeses da Paraíba.
Um novo horizonte para as famílias da Paraíba
O fim do mais longo conflito agrário do Brasil, com a criação do Assentamento Agroextrativista Elizabeth Teixeira, representa um triunfo significativo para a justiça social e a reforma agrária. Mais do que a simples desapropriação de terras, este é um reconhecimento da história de luta e sacrifício de famílias camponesas, que por mais de seis décadas persistiram na defesa de seu direito à terra. A garantia de acesso a políticas públicas e crédito rural empodera essas 21 famílias, proporcionando-lhes as ferramentas necessárias para construir uma vida digna e produtiva, longe das incertezas e perseguições do passado. O legado de João Pedro e Elizabeth Teixeira, símbolos de resistência, materializa-se agora em um território de esperança e oportunidade, um farol para futuras gerações sobre a importância da luta pela terra e da busca incessante por um Brasil mais justo e igualitário. Este assentamento não é apenas um pedaço de terra; é a materialização de um sonho de liberdade e autonomia.
Perguntas frequentes
1. O que é o Assentamento Agroextrativista Elizabeth Teixeira?
É um novo assentamento rural criado na Paraíba, na Fazenda Antas, abrangendo os municípios de Sobrado e Sapé. Ele foi estabelecido para regularizar a posse da terra para 21 famílias, encerrando um conflito agrário que durou mais de 60 anos, e recebeu o nome de Elizabeth Teixeira em homenagem à histórica líder camponesa.
2. Quem foi Elizabeth Teixeira e qual sua importância para este assentamento?
Elizabeth Teixeira foi uma líder camponesa que assumiu a presidência da Liga de Sapé após o assassinato de seu marido, João Pedro Teixeira, em 1962. Ela lutou incansavelmente pela reforma agrária e pelos direitos dos trabalhadores rurais, sendo perseguida e presa durante a ditadura militar. Sua história de resistência e sua conexão com a Fazenda Antas a tornaram um símbolo, e o assentamento foi nomeado em sua homenagem.
3. Quais são os benefícios para as famílias assentadas?
As 21 famílias beneficiadas pelo assentamento terão a posse regularizada da terra, garantindo segurança jurídica. Além disso, passarão a ter acesso a importantes políticas públicas, como crédito rural, programas de apoio à agricultura familiar e assistência técnica, essenciais para o desenvolvimento de suas atividades produtivas e melhoria de sua qualidade de vida.
Para se aprofundar nas políticas de reforma agrária e no impacto de movimentos sociais na luta pela terra, procure por publicações e estudos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e de organizações não governamentais que atuam na defesa dos direitos dos trabalhadores rurais.



