Duas renomadas instituições de ensino superior, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), emitiram pedidos de desculpas por terem utilizado cadáveres de pessoas confinadas em hospitais psiquiátricos em cursos de saúde. A UFJF divulgou uma nota sobre o assunto recentemente, seguindo o exemplo da UFMG, que se manifestou anteriormente.
A UFJF reconheceu em sua carta aberta à sociedade a conivência em um dos momentos mais sensíveis da história da saúde pública no Brasil. O texto ressalta que a segregação social em nome de uma suposta segurança coletiva resultou em isolamento e diversas formas de violência contra essas pessoas. A utilização dos cadáveres para aulas de anatomia foi um reflexo desse contexto de estigma e discriminação.
Desprezo e marginalização
A UFJF mencionou o Hospital Colônia de Barbacena como um símbolo dessa marginalização e invisibilização dos pacientes. Estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham falecido no local ao longo do século XX, muitas delas consideradas indigentes. A instituição recebeu 169 corpos entre os anos de 1962 e 1971 para estudo em aulas de anatomia. Como forma de reparação, comprometeu-se a promover ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental, além de buscar apoio para a criação de um memorial.
A UFMG, também ligada ao Hospital Colônia de Barbacena, emitiu um pedido de desculpas semelhante, reconhecendo sua responsabilidade pelas atrocidades cometidas. A universidade está realizando ações de memória em conjunto com grupos da luta antimanicomial e incluindo o tema em disciplinas de anatomia da Faculdade de Medicina.
Doação voluntária e conscientização
Ambas as instituições destacaram a importância da doação voluntária de corpos para estudo, respeitando a dignidade humana. Desde 1999, a UFMG mantém um programa de doação de corpos para estudo de anatomia, seguindo padrões éticos e legais.
O tema da luta antimanicomial ganha relevância nesse contexto, refletindo sobre a história de marginalização e estigma associada à saúde mental. É fundamental que a sociedade e as instituições de ensino se comprometam com ações que promovam a conscientização e o respeito à dignidade de todos os indivíduos, independentemente de sua condição de saúde mental.
