Em um esforço colaborativo internacional, três universidades brasileiras, em parceria com a Universidade de Glasgow, no Reino Unido, iniciaram uma pesquisa ambiciosa para mitigar os impactos das mudanças climáticas nas favelas do Brasil. O projeto visa desenvolver estratégias de adaptação e resiliência que sejam pertinentes e eficazes para as comunidades mais vulneráveis aos eventos extremos. A iniciativa, que se estenderá até 2027, focará inicialmente em áreas de Natal (RN), Curitiba (PR) e Niterói (RJ), com a particularidade de integrar ativamente os moradores das comunidades ao processo de investigação. Essa abordagem inovadora busca construir um banco de dados robusto e representativo, que reflita a realidade das favelas, muitas vezes sub-representada nos levantamentos oficiais, essenciais para enfrentar a crise climática.
Uma parceria estratégica para a resiliência climática
A colaboração entre instituições de ensino superior no Brasil e no Reino Unido representa um marco significativo na pesquisa sobre adaptação climática em contextos urbanos desfavorecidos. A Universidade de Glasgow lidera a iniciativa com seu centro de dados e expertise em grandes bases de dados, complementada pela vivência e conhecimento territorial das universidades brasileiras.
O projeto Pacha e seu escopo inovador
Denominado Pacha, sigla em inglês para “Análise Participativa para Adaptação Climática e Saúde em Comunidades Urbanas Desfavorecidas no Brasil”, o projeto é coordenado-geralmente pelo cientista brasileiro João Porto de Albuquerque, diretor do Urban Big Data Centre da Universidade de Glasgow. A essência do Pacha reside na premissa de que os planos de adaptação e mitigação das mudanças climáticas, embora cruciais, muitas vezes são elaborados com base em dados que espelham mais a cidade formal do que as realidades complexas e dinâmicas das favelas.
O coordenador de um dos programas parceiros no Brasil, Paulo Nascimento, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), ressalta a importância de preencher essa lacuna. “Nosso esforço é construir uma base de dados produzida coletivamente com os moradores dessas comunidades e, a partir disso, gerar evidências que vão ajudar a revisar ou a olhar de outra forma esses planos de ação climática”, explica. A escolha das três cidades – Natal, Curitiba e Niterói – foi estratégica para abranger diferentes contextos climáticos e socioeconômicos, permitindo uma análise abrangente dos desafios e das capacidades locais.
Financiamento e instituições envolvidas
Com um financiamento substancial, superior a R$ 14 milhões, o projeto Pacha é viabilizado pela fundação britânica Wellcome Trust, uma entidade sem fins lucrativos que direciona recursos para pesquisas nas áreas de saúde e mudanças climáticas. Essa injeção de recursos possibilita a amplitude e a profundidade necessárias para o estudo.
No Brasil, as instituições parceiras da Universidade de Glasgow incluem a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), através do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU); a Fundação Getulio Vargas (FGV), por meio do Departamento de Tecnologia e Ciência de Dados da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP); e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Além delas, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com seu Centro de Integração de Dados em Saúde (CIDACS), também colabora, utilizando a base de dados do CadÚnico com recortes de raça, renda, gênero e idade para entender as exposições diferenciadas aos riscos climáticos dentro das comunidades.
A metodologia participativa e o papel das comunidades
Um dos pilares do projeto Pacha é a sua metodologia participativa, que busca ir além da visão tradicional das favelas como locais de precariedade. A pesquisa pretende valorizar o conhecimento e as experiências dos moradores, elevando-os ao status de cocriadores do saber.
Construção de dados e indicadores locais
A pesquisa buscará criar indicadores de adaptação climática que sejam construídos e validados pelos próprios moradores. Esta abordagem “de baixo para cima” visa identificar não apenas os problemas mais relevantes para as comunidades, mas também as capacidades e as soluções que já estão sendo desenvolvidas internamente. Ao invés de impor soluções externas, o projeto se propõe a aprender com as favelas, fortalecendo a autonomia e o conhecimento local. Essa perspectiva de cocriação é fundamental para garantir que os resultados sejam verdadeiramente relevantes e sustentáveis para cada comunidade.
Os dados produzidos coletivamente serão cruciais para subsidiar políticas públicas que considerem de forma mais eficaz as profundas desigualdades sociais e ambientais presentes nesses territórios. Espera-se que o diagnóstico e os indicadores desenvolvidos em conjunto com as comunidades ajudem a criar um retrato fiel das necessidades e prioridades locais.
Pesquisadores comunitários: agentes de transformação
Para reforçar a abordagem participativa, o projeto Pacha prevê a concessão de bolsas de doutorado e pós-doutorado, além de bolsas vinculadas especificamente a moradores das comunidades envolvidas. Esses “pesquisadores comunitários” serão financiados pelo agente britânico, garantindo sua integração plena ao trabalho de pesquisa.
O professor Paulo Nascimento enfatiza que esses pesquisadores terão a capacidade de engajar as comunidades e de atuar como replicadores do conhecimento gerado, mesmo após o término do projeto. A ideia é que a capacidade local seja fortalecida, permanecendo com o conhecimento do contexto e das soluções, garantindo um legado duradouro para as favelas. Um edital para a seleção desses pesquisadores comunitários em Curitiba, Natal e Niterói deverá ser lançado entre o final de janeiro e o início de fevereiro de 2026.
Impacto e perspectivas futuras
As favelas brasileiras, com suas características sociais e ambientais únicas, são particularmente vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. Este projeto busca oferecer um caminho para a construção de resiliência e adaptação.
Desafios das favelas frente à crise climática
Em 2022, o Brasil contava com mais de 12 mil favelas, abrigando 16,39 milhões de pessoas, o que representa 8,1% da população total do país. Essas populações frequentemente vivem em moradias precárias e em áreas com infraestrutura inadequada, tornando-as altamente suscetíveis a eventos como chuvas intensas, deslizamentos de terra, enchentes e ondas de calor. A falta de saneamento básico, a ausência de áreas verdes e a alta densidade populacional agravam ainda mais esses riscos.
O trabalho do Pacha, ao integrar dados do CadÚnico e realizar recortes específicos (raça, renda, gênero, idade), permitirá uma compreensão aprofundada de como diferentes grupos dentro dessas comunidades são expostos aos diversos tipos de riscos climáticos. Essa análise detalhada é crucial para o desenvolvimento de intervenções e políticas mais direcionadas e eficazes.
Lançamento e próximos passos
O lançamento oficial do projeto Pacha ocorreu em Natal, na primeira semana de dezembro, com a reunião de pesquisadores das universidades brasileiras e da Universidade de Glasgow. O evento contou também com a participação de representantes da Secretaria Nacional de Periferias, do Ministério das Cidades, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e, fundamentalmente, de representantes das comunidades potiguares envolvidas na pesquisa.
Esses encontros servirão para discutir o desenho da pesquisa e garantir a participação efetiva das comunidades desde o início. Está prevista a realização de eventos semestrais em cada uma das três cidades participantes, para apresentar os resultados parciais e manter o diálogo constante com as comunidades locais, fortalecendo a transparência e a cocriação ao longo de todo o processo. Os resultados conclusivos do projeto deverão ser divulgados no final de 2027.
Conclusão
A iniciativa Pacha se destaca como um modelo inovador de pesquisa e engajamento comunitário no enfrentamento da crise climática. Ao reconhecer e valorizar o conhecimento das comunidades das favelas, o projeto não apenas busca desenvolver soluções de adaptação mais eficazes e equitativas, mas também promove a autonomia e o fortalecimento local. A abordagem “de baixo para cima” e a inclusão de pesquisadores comunitários garantem que as soluções propostas estejam profundamente enraizadas nas realidades e necessidades dos moradores, transformando a vulnerabilidade em resiliência sustentável.
Perguntas frequentes
1. O que é o projeto Pacha?
O Pacha é um projeto de pesquisa internacional que busca reduzir o impacto das mudanças climáticas em favelas brasileiras, desenvolvendo estratégias de adaptação participativas com a colaboração ativa dos moradores das comunidades.
2. Quais cidades brasileiras estão envolvidas na pesquisa?
As cidades inicialmente selecionadas para o estudo são Natal (Rio Grande do Norte), Curitiba (Paraná) e Niterói (Rio de Janeiro).
3. Como os moradores das favelas serão integrados ao projeto?
O projeto prevê a concessão de bolsas de pesquisa para doutorado e pós-doutorado, além de bolsas específicas para moradores das comunidades, que atuarão como “pesquisadores comunitários”, contribuindo ativamente na coleta de dados, análise e desenvolvimento de soluções. Um edital para seleção desses pesquisadores está previsto para 2026.
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