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Sociólogo revela: Samba-enredo é um grande enunciado político

© Gilberto Costa/Agência Brasil

A trajetória da democracia no Brasil, especialmente ao longo do Século XX, foi marcada por avanços e recuos, distanciando-se de uma evolução linear. Nesse cenário complexo, escolas de samba, seus compositores e carnavalescos frequentemente se viram no epicentro de tensões políticas, enfrentando vigilância, censura e até prisões por parte de regimes repressivos que se estenderam para além da redemocratização. O racismo, profundamente enraizado na sociedade brasileira, impôs um fardo adicional aos indivíduos negros que historicamente moldaram o carnaval carioca. Contrária à narrativa simplista que por vezes minimiza seu papel, a pesquisa do sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino lança luz sobre o samba-enredo como uma poderosa ferramenta de contestação e um verdadeiro enunciado político. Seu trabalho desvela a profunda ligação entre o carnaval e a luta pela liberdade.

A subversão disfarçada: samba como voz da resistência democrática

O apagamento histórico e a voz silenciada

Ao analisar a resistência cultural durante a ditadura militar no Brasil, a atenção tende a se voltar quase que exclusivamente para a Música Popular Brasileira (MPB), frequentemente ignorando ou subestimando o papel crucial das escolas de samba. Rodrigo Antonio Reduzino, em sua tese de doutorado “Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia”, defende que essa omissão reflete uma dimensão do racismo estrutural que historicamente silencia e apaga a intelectualidade e a humanidade da população negra. Para o sociólogo, as escolas de samba, através do samba-enredo, funcionaram como um palco potente para manifestações e provocações políticas.

A criação de um samba-enredo não era um processo trivial ou instantâneo; envolvia meses, por vezes um ano inteiro, de intensa colaboração e debate dentro da comunidade. Assim, quando se observam enredos dos anos 1980 que sutilmente ou abertamente criticavam a ditadura, exigiam liberdade ou denunciavam a tortura, não se trata apenas de uma performance de pouco mais de uma hora na avenida. Por trás de cada verso e melodia, havia um processo político complexo e alargado, gestado nas comunidades e carregado de um profundo anseio por democracia. Esse esforço coletivo transformava o desfile em um ato de resistência cultural e política, um grito pela liberdade que reverberava muito além da Marquês de Sapucaí, desafiando o regime ditatorial.

Repressão, racismo e o mito da democracia racial

A violência do estado contra o carnaval popular

A repressão estatal contra as escolas de samba adicionou uma camada particular de violência contra as camadas populares, a população negra e periférica envolvida com o samba. O sociólogo Reduzino ressalta que o samba, sendo uma expressão fundamental da cultura negra brasileira, sempre foi alvo de um Estado que historicamente reproduz e mantém uma estrutura racista. Essa repressão não era um fato isolado, mas uma continuidade de processos históricos, como o tristemente célebre Código de Vadiagem do Decreto-Lei 3.688/1941. Este código foi frequentemente utilizado para criminalizar a presença de pessoas negras com instrumentos musicais, associando-as à vadiagem e à contravenção, resultando em detenções para aqueles que não possuíam carteira de trabalho ou outra forma de comprovação de ocupação.

A associação das escolas de samba com a criminalidade, muitas vezes vinculada aos banqueiros do jogo do bicho, também é um ponto de análise crucial. Reduzino explica que a presença dos “mecenas” do jogo do bicho, com sua visibilidade empresarial, intensificou-se justamente durante a ditadura militar, um fenômeno que não foi acidental. Esses bicheiros não operavam à margem da sociedade, mas dialogavam diretamente com o poder público, circulando em gabinetes de generais e palácios governamentais. A responsabilidade pela contravenção, portanto, não podia ser unilateralmente atribuída às escolas de samba, como se elas tivessem inventado esses personagens, mas sim a uma complexa teia de relações que envolvia esferas do poder. Seu documentário “Enredos da Liberdade”, disponível em cinco episódios em plataformas de streaming, corrobora essas ligações, mostrando imagens de políticos e bicheiros, e revelando a presença de ex-militares entre os contraventores.

Desvendando o mito da democracia racial no ritmo do samba

O ideário do Brasil como uma “democracia racial”, uma construção intelectual forjada por parte da elite brasileira, é identificado por Reduzino como um dos pilares da estrutura racista do país. Para o pesquisador, não há violência maior do que negar a própria realidade, especialmente quando dados sociais contundentes mostram as profundas desigualdades raciais, como a alta taxa de mortalidade de jovens negros por armas de fogo ou a desproporcionalidade de mulheres negras que sofrem violência obstétrica em hospitais públicos. Reforçar o mito da democracia racial é, em essência, ignorar essas contradições, perpetuando uma ilusão de harmonia que existe à custa da dignidade e da vida do outro.

Embora o mito da democracia racial tenha sido, em alguns momentos, romantizado e cantado em sambas que exaltavam um “grande Brasil”, o sociólogo pontua que o próprio aparato repressivo do Estado, através de órgãos como o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), fichava indivíduos que ousavam discutir as relações raciais criticamente. Figuras proeminentes como a filósofa Lélia González e o sociólogo Clóvis Moura foram alvo dessa vigilância, assim como movimentos culturais de expressão negra e escolas de samba que questionavam abertamente essa ideia de harmonia racial. A crítica de que muitos enredos do passado teriam contribuído para uma “alienação” histórica, por se basearem na historiografia oficial, é refutada por Reduzino como uma forma de estigmatização. Ele argumenta que essa “história oficial” também é uma construção de uma elite acadêmica, incorporada e financiada pelo Estado. Longe de serem meros instrumentos de alienação, um mapeamento dos enredos da década de 1970, por exemplo, revelou que apenas quatro de um total de 140 sambas poderiam ser classificados como ufanistas ou de apoio ao regime, e esses estavam circunscritos a apenas três escolas. Essa acusação de “adesão” é, portanto, uma forma de diminuir e marginalizar a produção cultural do samba.

O legado político do samba-enredo

A análise aprofundada do sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino revela que o samba-enredo transcende seu status de mero espetáculo cultural para se firmar como um poderoso enunciado político e um agente ativo na luta pela democracia brasileira. Ao desmistificar a narrativa que apaga a contribuição das escolas de samba, o estudo resgata a memória de uma resistência vibrante e engajada que, mesmo sob forte repressão e racismo estrutural, soube utilizar a arte e a cultura como trincheira. O carnaval, nesse contexto, surge não apenas como um palco de celebração, mas como um espaço de contestação, crítica social e reafirmação da identidade e da dignidade de um povo. A relevância da pesquisa de Reduzino reside em recontextualizar a história do samba, evidenciando seu papel fundamental na construção da cidadania e na defesa dos valores democráticos no Brasil, um legado que ressoa até os dias atuais.

Perguntas frequentes

Qual a principal tese do sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino?
A tese principal de Rodrigo Antonio Reduzino, apresentada em seu doutorado “Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia”, é que o samba-enredo se constitui como um grande enunciado político, atuando como ferramenta de resistência e crítica social, especialmente durante o período da ditadura militar no Brasil.

Como as escolas de samba resistiram à ditadura militar?
As escolas de samba resistiram à ditadura militar através da elaboração de sambas-enredo que, de forma direta ou sutil, criticavam a repressão, denunciavam a tortura e clamavam por liberdade. Esse processo de criação, gestado nas comunidades ao longo de meses, transformava o desfile em um ato político e uma plataforma para expressar o anseio por democracia, apesar da vigilância e censura estatal.

Qual a relação entre o samba e o mito da democracia racial?
A relação é complexa: enquanto alguns sambas podem ter inadvertidamente reforçado o mito da democracia racial (a ideia de que o Brasil não tem racismo), muitos outros, e o movimento cultural do samba em si, criticaram abertamente essa falácia. O sociólogo Reduzino argumenta que o mito é uma construção de elites que nega a realidade das desigualdades raciais, e que o Dops chegou a vigiar intelectuais e movimentos culturais negros que questionavam essa narrativa.

Para aprofundar-se nesta rica interseção entre cultura e política, explore mais sobre o documentário “Enredos da Liberdade” e outras análises que celebram a resistência cultural brasileira.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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