O sistema de videomonitoramento Smart Sampa, implementado pela prefeitura de São Paulo com um custo mensal de R$ 9,8 milhões e abrangendo até 40 mil câmeras, está sob intenso escrutínio. Uma análise aprofundada, baseada no Relatório de Transparência da prefeitura e em dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), aponta sérias fragilidades estruturais e resultados questionáveis, levantando preocupações sobre sua eficácia e impacto nos direitos fundamentais dos cidadãos. O Smart Sampa, que utiliza tecnologia de reconhecimento facial, tem sido associado a falsos positivos, prisões indevidas e riscos significativos à privacidade, sem demonstrar, até o momento, resultados concretos para a segurança pública da capital paulista, o que intensifica o debate sobre a real necessidade e os altos gastos com o programa.

O sistema Smart Sampa sob escrutínio

Falhas operacionais e questões de transparência

A avaliação do programa Smart Sampa, que opera desde 2023, revela problemas significativos que vão além das expectativas iniciais de um sistema de vigilância de alta tecnologia. Conforme detalhado em uma nota técnica, o sistema apresenta resultados questionáveis e fragilidades estruturais que comprometem sua integridade e efetividade. A análise, que utilizou informações do Relatório de Transparência da prefeitura de junho de 2025 e dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), concluiu que o videomonitoramento e o reconhecimento facial no município têm gerado uma série de preocupações. Entre elas, destacam-se a ocorrência de falsos positivos no reconhecimento, prisões que são consideradas indevidas e riscos substanciais à privacidade dos cidadãos, sem que haja uma contrapartida clara em termos de melhoria da segurança pública.

Pedro Diogo, coordenador de um grupo de trabalho focado em vigilância, questiona abertamente a razão de ser do Smart Sampa. Ele enfatiza que “quanto mais se aprofunda a avaliação sobre o Smart Sampa, mais se questiona a razão de sua existência”. A reflexão se aprofunda na relação entre o alto gasto público – que chega a R$ 9,8 milhões mensais para operar até 40 mil câmeras – e a produção de resultados concretos, especialmente quando confrontado com os riscos impostos a direitos fundamentais. A falta de transparência na gestão de dados e nos números oficiais é outro ponto crítico apontado pela análise. As inconsistências na operação do sistema e a ausência de detalhamentos adequados sobre as ações e seus desfechos contribuem para uma atmosfera de opacidade, dificultando a fiscalização e a avaliação pública da ferramenta.

Desigualdades e prisões controversas

Perfil das prisões e o viés do sistema

A análise do Smart Sampa também aponta para um aprofundamento das desigualdades sociais existentes na capital paulista. Beatriz Lourenço, diretora de áreas e estratégia de um instituto de referência, avaliou que “o Smart Sampa aprofunda desigualdades raciais e geográficas, reforçando um modelo de segurança pública que criminaliza determinados corpos e territórios”. Essa perspectiva é corroborada pelos dados de abordagens e prisões geradas pelo sistema. Desde o início de sua operação, foram registradas 1.246 abordagens, que resultaram em 1.153 prisões. Destas, 540 foram classificadas pela própria prefeitura como “outros”, sem qualquer detalhamento sobre a motivação da detenção.

Os tipos penais mais frequentemente associados às prisões pelo Smart Sampa foram roubo (153 ocorrências), tráfico de drogas (137) e furto (17). Segundo a análise, esses números fortalecem a percepção de um “caráter patrimonialista” e a adesão a uma política criminal baseada na “guerra às drogas”, cujo alvo histórico e desproporcional é a população negra. Uma revelação ainda mais preocupante, obtida através de um pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI), indica que mais de 90% das prisões categorizadas como “outros” estavam relacionadas a mandados de pensão alimentícia. Para as entidades que realizaram a análise, este dado é crucial, pois evidencia que uma parcela significativa das prisões não tem relação direta com a segurança pública ou com crimes violentos.

Adicionalmente, dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública apontam um cenário preocupante na capital paulista entre 2024 e 2025, com registros recordes de feminicídios e alta nos índices de homicídios e estupros, sugerindo que o foco do Smart Sampa pode não estar alinhado com as necessidades mais urgentes da cidade. O perfil das pessoas presas também levanta bandeiras vermelhas. Predominam prisões de indivíduos do gênero masculino (93,58%), sem menção à categoria de pessoas trans. Quanto à raça, 25% dos detidos são negros (18,49% pardos e 6,60% pretos) e 16,01% são brancos. Preocupantemente, 58,9% dos registros não trazem qualquer informação sobre a raça do indivíduo, o que, segundo a avaliação, “invisibiliza as desigualdades raciais no policiamento”, impedindo uma análise completa e justa do impacto do sistema.

A concentração geográfica das prisões é outro ponto de atenção. A maioria das ocorrências se deu no centro da cidade e em bairros periféricos, com destaque para a região do Brás e as operações na Cracolândia. Esses dados sugerem um padrão que “reforça processos históricos de segregação racial, vigilância desigual e policiamento seletivo, articulados ao racismo e às desigualdades socioeconômicas”, conforme trecho do documento que detalha a análise.

Falhas técnicas e riscos à privacidade

Falsos positivos e incompatibilidades com a LGPD

Além das questões sociais e de transparência, a análise do Smart Sampa também destaca falhas técnicas inerentes ao sistema e os riscos que elas representam. O relatório aponta que ao menos 23 pessoas foram conduzidas indevidamente devido a inconsistências no reconhecimento facial, uma taxa de erro que, mesmo percentualmente baixa, impacta diretamente a vida de indivíduos inocentes. Outro dado alarmante é que 82 pessoas foram presas pelo sistema e, posteriormente, liberadas, indicando uma falha na validação prévia ou na robustez da identificação.

A utilização do Smart Sampa para a localização de pessoas desaparecidas também foi alvo de questionamentos. Enquanto a prefeitura declara que não armazena dados pessoais, essa afirmação se mostra incompatível com o uso de reconhecimento facial, uma tecnologia que, por sua natureza, exige o tratamento de informações biométricas e pessoais. Essa contradição levanta sérias dúvidas sobre quais bases de dados alimentam o sistema e, mais criticamente, como são tratadas as informações de crianças e adolescentes. As organizações que conduziram a análise alertam que a falta de clareza e a potencial incompatibilidade com a declaração de não armazenamento de dados colocam o sistema em desacordo com os preceitos da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que estabelece rigorosas regras para a coleta, armazenamento e uso de dados pessoais, especialmente de grupos vulneráveis.

A versão da prefeitura: redução de crimes e conformidade

Contra-argumentos e resultados oficiais

Em resposta às críticas, a prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Segurança Urbana, defendeu o Smart Sampa e seus resultados. A pasta informou que dados oficiais da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP) demonstram uma redução em crimes como roubos em geral, roubos de veículos e latrocínios na capital paulista no ano de 2025, atribuindo parte desses resultados à atuação do sistema de vigilância.

A Secretaria esclareceu que o contrato de operação do Smart Sampa tem vigência de agosto de 2023 a agosto de 2028, com um investimento mensal de até R$ 10 milhões. A prefeitura reafirmou que as câmeras são utilizadas “exclusivamente para fins de segurança pública”, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Além disso, a pasta destacou a alta precisão do sistema, afirmando que apresenta um “índice de assertividade de 99,5%”.

A gestão municipal reforça que a operação do Smart Sampa inclui uma etapa crucial de validação humana: “todos os alertas gerados pelo sistema são obrigatoriamente validados por agentes humanos”. Esse rigor, segundo a prefeitura, se reflete em um “dado objetivo: não houve registro de prisões injustas ou equivocadas decorrentes de abordagens iniciadas pelo sistema, conforme relatório de transparência”. A secretaria também divulgou resultados atualizados do programa, que incluem a prisão de 2.709 foragidos da Justiça, 3.650 prisões em flagrante, a localização de 153 pessoas desaparecidas e o atendimento de 2.017 ocorrências envolvendo veículos, buscando demonstrar a eficácia e os benefícios do Smart Sampa para a segurança da cidade.

Análise final e o futuro da vigilância em São Paulo

O debate em torno do Smart Sampa expõe a complexa intersecção entre tecnologia, segurança pública e direitos civis. De um lado, há um sistema de alto custo com a promessa de modernizar a vigilância e auxiliar na redução da criminalidade. De outro, uma análise crítica revela preocupações substanciais, como prisões indevidas, falta de transparência nos dados, falhas técnicas e um potencial aprofundamento das desigualdades raciais e geográficas. As discrepâncias entre os dados apresentados pela análise independente e os resultados oficiais da prefeitura ressaltam a necessidade urgente de um diálogo mais aprofundado e de maior abertura por parte das autoridades.

A ausência de informações detalhadas sobre a motivação de centenas de prisões, a predominância de detenções por pensão alimentícia, o viés de gênero e a lacuna de dados raciais nos registros são pontos que exigem esclarecimento e correção. A conformidade com a LGPD e a garantia da privacidade dos cidadãos, especialmente no que tange ao reconhecimento facial e ao tratamento de dados de menores, são requisitos inegociáveis. Para que o Smart Sampa possa de fato contribuir para uma segurança pública mais eficaz e justa, é fundamental que haja uma revisão abrangente de suas operações, com foco na transparência, na correção de falhas e na garantia de que o alto investimento público se traduza em benefícios reais para toda a população, sem reforçar práticas seletivas ou discriminatórias. O futuro da vigilância em São Paulo dependerá da capacidade de equilibrar a inovação tecnológica com o respeito inabalável aos direitos e liberdades individuais.

Perguntas frequentes sobre o Smart Sampa

O que é o sistema Smart Sampa?
O Smart Sampa é um sistema de videomonitoramento e reconhecimento facial implementado pela prefeitura de São Paulo em 2023, que utiliza até 40 mil câmeras para vigilância ostensiva e suporte às forças de segurança pública na capital paulista.

Quais são as principais críticas ao Smart Sampa?
As principais críticas incluem a ocorrência de falsos positivos, prisões indevidas (como por pensão alimentícia), falta de transparência na gestão de dados, inconsistências operacionais, riscos à privacidade dos cidadãos e o potencial de aprofundar desigualdades raciais e geográficas no policiamento, além de possíveis inconformidades com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Como a prefeitura de São Paulo responde às críticas?
A prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Segurança Urbana, afirma que o Smart Sampa está em conformidade com a LGPD, apresenta um índice de assertividade de 99,5%, e que todos os alertas são validados por agentes humanos, não havendo registro de prisões injustas. A pasta também destaca a contribuição do sistema para a redução de roubos e outros crimes, além de resultados como a prisão de foragidos e localização de desaparecidos.

O Smart Sampa realmente ajuda a reduzir a criminalidade?
A avaliação de sua eficácia é um ponto de debate. Enquanto a prefeitura aponta dados da SSP sobre a redução de certos tipos de crimes e resultados operacionais positivos, a análise independente questiona a relação custo-benefício e a falta de resultados concretos para a segurança pública em face dos riscos impostos a direitos fundamentais, além de evidenciar prisões por motivações não diretamente ligadas a crimes violentos.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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