Líderes governamentais de diversos países da América Latina, juntamente com representantes de organizações da sociedade civil e proeminentes acadêmicos da área de educação, reuniram-se em Brasília para um encontro crucial. O objetivo central é forjar uma rede permanente de cooperação técnica latino-americana pela alfabetização na idade certa, assegurando que todas as crianças do continente sejam plenamente alfabetizadas por volta dos sete anos de idade. Esta iniciativa, vista como um pilar fundamental para o desenvolvimento individual e regional, busca fomentar a troca de experiências e a implementação de políticas eficazes. O evento ressaltou a alfabetização na idade certa como um direito inalienável e um motor potente para a superação de desigualdades históricas, prometendo um futuro mais próspero e equitativo para milhões de crianças e para toda a América Latina.
A visão regional para a alfabetização
Importância estratégica da alfabetização
Durante a abertura do Encontro Internacional Alfabetização, Equidade e Futuro, o secretário-executivo do Ministério da Educação no Brasil, Leonardo Barchini, que atua como ministro interino da pasta, enfatizou a alfabetização como a ferramenta essencial para superar as “cicatrizes profundas da história da colonização” e a “tragédia do analfabetismo que amarra o futuro ao passado”. Em seu discurso, Barchini destacou que o direito à alfabetização constitui um pilar estruturante do desenvolvimento integral de cada criança que vive no continente. Mais do que isso, é um elemento crucial para o desenvolvimento social e econômico sustentável, contribuindo significativamente para a construção de um futuro mais próspero, justo, equitativo e soberano para toda a América Latina.
A perspectiva de avanço regional foi reforçada por David Saad, diretor-presidente do Instituto Natura, um dos apoiadores do evento. Saad salientou que o encontro representa uma oportunidade ímpar para a região progredir no tema da alfabetização, que pode, por sua vez, solucionar uma série de problemas persistentes, desde a melhoria da trajetória escolar dos alunos até o impulsionamento do desenvolvimento dos países latino-americanos. Ele expressou otimismo, afirmando que, se a região mantiver o nível de atenção e prioridade a esse tema nos próximos cinco a sete anos, será possível resolver um dos problemas mais graves da educação, destravando os resultados de toda a trajetória escolar e gerando um impacto positivo no desenvolvimento dos países.
O modelo brasileiro e seus desafios
Compromisso Nacional Criança Alfabetizada
O ministro interino Barchini apresentou o modelo brasileiro de enfrentamento aos índices de analfabetismo como um exemplo de abordagem. O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA) é uma iniciativa que articula os esforços da União, estados e municípios na garantia do direito à alfabetização das crianças brasileiras até o fim do 2º ano do ensino fundamental, estabelecendo metas específicas para cada ente federativo. Em 2024, o índice nacional de alfabetização de crianças registrou um avanço, atingindo 59,2% dos alunos ao término desta etapa letiva, percentual que ficou ligeiramente abaixo da meta de 60% definida pelo CNCA para aquele ano. Para 2030, o objetivo ambicioso é elevar este patamar para pelo menos 80% dos alunos alfabetizados ao final do 2º ano do ensino fundamental.
Mapeamento e desafios internos
Para monitorar e avaliar o progresso, Barchini também mencionou a relevância do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Ele explicou que o Saeb permite mensurar com precisão o nível de alfabetização em todo o país, possibilitando um mapeamento detalhado das desigualdades e deficiências. “Podemos ver exatamente onde estão essas desigualdades, onde estão essas deficiências, onde estão essas fraquezas. Qual escola, qual município, qual região, determinada etnia, quais as diferenças por raça, diferença para a educação quilombola, para a educação indígena, enfim. A gente tem tudo isso muito bem mapeado”, detalhou o ministro interino.
Apesar do acesso à escola no Brasil ser praticamente universal, o país ainda se depara com significativos desafios para elevar a qualidade do aprendizado. Barchini apontou carências na infraestrutura educacional, destacando a existência de escolas sem bibliotecas e a necessidade premente de mais creches. O maior desafio, segundo ele, reside em oferecer aos professores alfabetizadores uma formação adequada e continuada, essencial para que possam aprimorar suas práticas pedagógicas diariamente. Aos presentes, o ministro interino enfatizou que uma trajetória escolar qualificada não apenas amplia as possibilidades de uma vida adulta mais digna, saudável e produtiva, mas também fortalece a democracia. Cidadãos que leem, escrevem e compreendem o mundo participam mais plenamente da vida social, econômica e política de suas nações.
Experiências e avanços no continente
Argentina: O Plano da Jurisdição da Alfabetização
Durante o encontro internacional em Brasília, lideranças de outras nações da América Latina compartilharam suas próprias experiências e os avanços relacionados à alfabetização na idade certa. Sofia Naidenoff, ministra da Educação da província de Chaco, no Norte da Argentina, discorreu sobre a implementação do Plano da Jurisdição da Alfabetização e seu impacto positivo na educação de milhares de crianças argentinas. Ela relembrou a situação anterior, na qual “o Chaco estava no pior lugar. Era uma situação que nos deixou muito tristes, porque havia gerações inteiras que não sabiam ler”. A transformação foi alcançada através de medidas concretas: “um livro para cada aluno; um manual por escola, do primeiro ao terceiro grau; e dias de trabalho com livros, inclusive para o lar”. Essas ações reverteram a realidade de aproximadamente 77 mil crianças em 1.283 escolas, do primeiro ao terceiro grau.
México: Nova Escola Mexicana e diversidade linguística
No México, as experiências apresentadas destacaram a Nova Escola Mexicana, que foca em práticas sociais e na valorização da diversidade de línguas indígenas originárias do território, ao lado da língua espanhola. Xóchitl Leticia Moreno Fernández, diretora-geral de Desenvolvimento Curricular e Política de Educação Inicial no México, explicou que o Plano de Estudos de 2022 colocou a comunidade no centro da solução. “Temos uma grande quantidade de línguas indígenas e originárias. São aproximadamente 68 línguas, e um dos grandes desafios da nova escola mexicana é que os processos de alfabetização sejam feitos também considerando a língua materna das meninas e dos meninos”, afirmou. Para atender a essa diversidade de línguas, culturas e formas de apropriação da língua oral e escrita, foram produzidos materiais adequados para todas as crianças e para os próprios docentes.
Peru: Avaliações censitárias e política de estado
Os avanços no Peru, por sua vez, são impulsionados pelo uso de avaliações censitárias e pelo foco na resolução de problemas de saúde e violência no ambiente escolar. Luis Guillermo Lescano Sáenz, integrante do Conselho Nacional de Educação do Peru, enfatizou a crucial necessidade de que a educação seja estabelecida como uma política de Estado, capaz de transcender a frequente rotatividade de ministros. Ele mencionou que o país teve 26 ministros da educação nos últimos 10 anos, uma instabilidade que acarreta custos elevadíssimos para as políticas educacionais. A mudança constante de autoridades em um setor tão vital como a educação influencia negativamente, aprofundando as “brechas instaladas há muito tempo”. Lescano Sáenz reforçou que o direito à educação está consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na maioria das Constituições dos países latino-americanos.
Uruguai: Acordo social e desafios orçamentários
Sebastián Valdez, secretário técnico do Ministério de Educação e Cultura do Uruguai, compartilhou que a meta de seu país é aprimorar as políticas e práticas educacionais. Ele relembrou que, no início do século XX, houve um acordo social no Uruguai para oferecer educação a todas as crianças em todo o território nacional. Apesar do desafio de alcançar todos os cantos do país, especialmente por questões orçamentárias de uma nação de menor porte, o compromisso com a educação universal permanece central na agenda uruguaia.
O futuro da alfabetização: digital e além
Alfabetização digital como complemento
Além dos aspectos tradicionais da alfabetização, o ministro interino Leonardo Barchini acrescentou que um dos principais desafios para a região é aprimorar a alfabetização digital de professores e alunos, em conjunto com a alfabetização clássica das crianças. “Estamos aprendendo que a alfabetização digital precisa ser um processo contínuo ao longo da vida, e não apenas algo que acontece nos primeiros anos de educação. Portanto, acreditamos que a alfabetização digital precisa ser combinada com a alfabetização tradicional”, pontuou. Esta visão expande o conceito de alfabetização para incluir as competências necessárias para navegar e prosperar na era digital, preparando as futuras gerações para os desafios de um mundo cada vez mais conectado.
Conclusão
O Encontro Internacional Alfabetização, Equidade e Futuro em Brasília reafirmou o compromisso da América Latina com a erradicação do analfabetismo infantil. A articulação de uma rede permanente de cooperação entre governos, sociedade civil e academia é vista como um passo fundamental para compartilhar soluções e enfrentar os desafios comuns. A experiência brasileira, as iniciativas da Argentina, México, Peru e Uruguai, somadas à crescente importância da alfabetização digital, apontam para um caminho de colaboração e inovação. A busca pela alfabetização na idade certa é um investimento direto na dignidade, no desenvolvimento social e na consolidação de democracias mais robustas em todo o continente.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. Qual o principal objetivo do Encontro Internacional Alfabetização, Equidade e Futuro?
O objetivo central do encontro é debater e fomentar a criação de uma rede permanente de cooperação técnica latino-americana para garantir a alfabetização de crianças na idade certa, geralmente aos sete anos, fortalecendo o desenvolvimento educacional e social da região.
2. Quais são as principais iniciativas brasileiras para a alfabetização mencionadas no evento?
O Brasil destacou o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), que busca alfabetizar crianças até o fim do 2º ano do ensino fundamental, e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), utilizado para mapear o nível e as desigualdades na alfabetização em todo o país.
3. Que desafios a América Latina enfrenta na área de alfabetização, segundo os participantes?
Os desafios incluem a necessidade de superar desigualdades históricas e sociais, melhorar a infraestrutura educacional (como a falta de bibliotecas e creches), garantir formação continuada para professores alfabetizadores e integrar a alfabetização digital como um processo contínuo e complementar.
4. Como outros países latino-americanos, como Argentina e México, estão abordando a alfabetização?
A Argentina implementou o Plano da Jurisdição da Alfabetização na província de Chaco, focando em materiais didáticos e trabalho com livros. O México, através da Nova Escola Mexicana, prioriza práticas sociais e a diversidade de 68 línguas indígenas, desenvolvendo materiais adequados para cada língua materna.
Acompanhe as próximas etapas desta iniciativa vital e contribua para um futuro onde a alfabetização na idade certa seja uma realidade para cada criança latino-americana.



