Milhares de foliões despertaram cedo em um dos vibrantes domingos de carnaval para mergulhar na energia contagiante do bloco Divinas Tretas. A agremiação, que se concentrou no emblemático Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, é um dos cinquenta e cinco coletivos que contribuem para a inebriante atmosfera de alegria sob o sol escaldante carioca. Reconhecido por sua abordagem inclusiva e ambiente livre de preconceitos, o bloco Divinas Tretas firmou-se como um verdadeiro refúgio para quem busca celebrar a liberdade carnavalesca em sua plenitude. Derivado do histórico Toco-Xona, o primeiro bloco LGBTQIA+ da cidade, fundado em 2007 e rebatizado em 2022 após a pandemia, ele mantém viva a chama da diversidade e do respeito, elementos que o tornam um pilar essencial do carnaval carioca contemporâneo.
Um oásis de inclusão no Aterro do Flamengo
O Divinas Tretas se estabeleceu como um epicentro de celebração onde a diversidade é o principal estandarte. No Aterro do Flamengo, o bloco atrai um público vasto e plural, que encontra no espaço um ambiente de aceitação e acolhimento incondicional. A proposta vai além da música e da dança, materializando um conceito de carnaval que abraça todas as identidades e expressões, oferecendo uma experiência verdadeiramente libertadora aos seus participantes. Este espírito é o que impulsiona o coletivo e o diferencia em meio à profusão de blocos que animam a cidade maravilhosa.
A evolução do Divinas Tretas: de Toco-Xona a ícone LGBTQIA+
A história do Divinas Tretas é intrinsecamente ligada à trajetória do Toco-Xona, um marco na cena carnavalesca do Rio de Janeiro. Fundado em 2007, o Toco-Xona foi pioneiro ao se estabelecer como o primeiro bloco abertamente LGBTQIA+ da cidade, abrindo caminhos para uma folia mais inclusiva e representativa. Após um período de interrupção devido à pandemia de covid-19, o coletivo renasceu em 2022, adotando o nome Divinas Tretas. Essa transição simbolizou não apenas uma nova fase, mas a reafirmação de seus valores originais de acolhimento e celebração da diversidade. A memória do Toco-Xona vive na essência do Divinas Tretas, que continua a ser um farol para a comunidade LGBTQIA+ e seus aliados, consolidando-se como um ícone de resistência e alegria no carnaval carioca. Sua evolução representa um avanço na luta por espaços mais seguros e respeitosos dentro da maior festa popular do Brasil.
A trilha sonora da diversidade: ritmos e divas
A programação musical do Divinas Tretas é um reflexo fiel de sua proposta de pluralidade. Com apresentações ao vivo e sets de DJ, o repertório abraça a riqueza dos ritmos brasileiros e internacionais, garantindo que todos os gostos sejam contemplados. Samba, axé, piseiro e pitadas de rock se mesclam à cena pop, criando uma atmosfera vibrante e democrática. Karol Gomes, cantora e multi-instrumentista da banda, explica que o objetivo é “tocar músicas que levantam a galera”. Complementando a visão, a produtora executiva Thaissa Zin destaca a inclusão de “músicas que o público gosta, de divas internacionais e divas brasileiras, em que vestimos a roupinha da gente”. Nos intervalos e momentos de transição, a DJ Laís Conti assume o comando, com uma seleção que busca criar “um set democrático e quente”, garantindo que a energia nunca diminua. Essa cuidadosa curadoria musical é fundamental para que o Divinas Tretas se mantenha como um ambiente acolhedor, agradável e, acima de tudo, diverso, refletindo o ideal de um carnaval para todas as pessoas.
Segurança e liberdade: a experiência dos foliões
Um dos pilares que sustenta o sucesso e a relevância do Divinas Tretas é a sensação de segurança e liberdade que proporciona aos seus frequentadores. Em um cenário onde o assédio e o preconceito ainda são realidades em muitos espaços públicos, o bloco emerge como um porto seguro, onde os foliões podem expressar sua identidade e alegria sem receios ou julgamentos. Esse compromisso com um ambiente respeitoso é reiterado constantemente, transformando a experiência carnavalesca em algo verdadeiramente libertador e empoderador para todos que participam.
Testemunhos que inspiram: carnaval para todos
A atmosfera de acolhimento e ausência de julgamentos é um dos pontos mais elogiados pelos foliões do Divinas Tretas. Letícia de Almeida Lopes, enfermeira de 26 anos, compartilha sua experiência, afirmando que o bloco é um lugar onde “consigo me sentir bem como mulher hétero ou como uma pessoa gay ou uma pessoa fora dos padrões”. Para ela, o Divinas Tretas é “um lugar em que eu consigo me sentir completamente à vontade para exercer minha liberdade carnavalesca. De botar a roupa que eu estou com vontade, seja mais ou menos coberta. Onde posso dançar o que eu tenho vontade e ouvir músicas que eu gosto”. Letícia enfatiza que as pessoas vêm ao bloco “para serem felizes” e “não para fazer julgamentos”, o que contribui para uma “sensação de segurança” generalizada. Esses testemunhos ressaltam o sucesso do bloco em criar um espaço onde a individualidade é celebrada e a diversidade, valorizada.
Ambiente livre de assédio: um diferencial fundamental
A percepção de segurança e bem-estar é confirmada por outros frequentadores. A vendedora Thaísa Galvão, de 28 anos, reforça as impressões de Letícia: “Me sinto muito bem. Dá para a gente se descontrair com os nossos amigos. Não tem nenhum tipo de briga. Todo mundo se dá bem. Por isso, eu sempre venho aqui”. Um dos aspectos mais destacados, e que realmente faz do Divinas Tretas um diferencial no carnaval carioca, é a ausência de assédio. Jennifer de Oliveira, analista de operações, também com 28 anos, complementa de forma enfática: “É o bloco que a gente se sente acolhida. Não tem homem assediando a gente, o que é libertador”. Essa característica é crucial para um carnaval verdadeiramente inclusivo, onde as mulheres e a comunidade LGBTQIA+ podem desfrutar da festa sem as preocupações e o desconforto frequentemente associados a outros ambientes. A garantia de um espaço livre de assédio transforma o Divinas Tretas em um modelo para as celebrações carnavalescas do futuro.
Ecoando vozes: a causa Marielle Franco no carnaval
Além da celebração da diversidade e da liberdade, o Divinas Tretas utiliza sua plataforma para ecoar importantes causas sociais. Em meio à folia e à alegria contagiante, o bloco demonstrou seu engajamento cívico ao trazer à tona a memória de Marielle Franco e a urgência de justiça para seu caso, conectando a festa popular com pautas de direitos humanos e política.
Memória e justiça: a pauta política em meio à folia
A concentração do Divinas Tretas foi também um momento de conscientização e mobilização. O bloco aproveitou a grande aglomeração de pessoas para lembrar do iminente julgamento relacionado ao assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A questão da justiça para Marielle, que continua a ser uma ferida aberta na democracia brasileira, foi abordada através de chamadas no microfone do palco e da distribuição de leques contendo a agenda do julgamento. Essa iniciativa ressalta o papel do carnaval como um espaço não apenas de celebração, mas também de manifestação e engajamento social, onde a cultura popular se encontra com a pauta política e a busca por justiça. A capacidade do bloco de integrar pautas tão sérias à leveza da festa demonstra a maturidade e o propósito de suas lideranças e foliões.
Detalhes do julgamento e os envolvidos
O julgamento, previsto para ocorrer em dias após o carnaval, nos dias 24 e 25, no Supremo Tribunal Federal (STF), foca nos supostos executores, mandantes, comparsas e cúmplices dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Entre os nomes que a Corte de Justiça analisa estão Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ); Chiquinho Brazão, ex-deputado federal e irmão de Domingos; Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro; Ronald Alves de Paula, major da Polícia Militar; e Robson Calixto, ex-policial militar e assessor de Domingos Brazão. Todos esses indivíduos estão presos preventivamente, sob suspeita de participação nos crimes ocorridos em março de 2018. A menção e a distribuição de informações sobre o julgamento no Divinas Tretas evidenciam o compromisso do bloco em manter viva a memória das vítimas e a pressão por um desfecho justo e transparente para este caso que chocou o país.
Conclusão
O bloco Divinas Tretas transcende a definição tradicional de uma agremiação carnavalesca, consolidando-se como um vibrante movimento de inclusão, celebração e engajamento social no coração do carnaval carioca. Ao oferecer um ambiente seguro, livre de assédio e preconceito, ele não apenas proporciona alegria e liberdade, mas também estabelece um novo padrão para as festividades. Sua rica programação musical, que abraça a diversidade de ritmos, aliada à sua postura ativa em pautas importantes como a justiça para Marielle Franco, demonstra que o carnaval pode ser, ao mesmo tempo, um espaço de pura celebração e um palco para a conscientização cívica. O Divinas Tretas é a prova de que a folia pode e deve ser um catalisador para a mudança, um espelho da sociedade que almejamos: plural, respeitosa e justa.
FAQ
O que é o bloco Divinas Tretas?
O Divinas Tretas é um bloco de carnaval do Rio de Janeiro, sucessor do histórico Toco-Xona (o primeiro bloco LGBTQIA+ da cidade). Ele é conhecido por promover um carnaval inclusivo, livre de assédio e preconceito, com uma programação musical diversificada.
O que torna o Divinas Tretas único?
Sua singularidade reside na criação de um ambiente de total acolhimento e segurança para todos os foliões, especialmente a comunidade LGBTQIA+ e as mulheres. A ausência de assédio e julgamentos, aliada à celebração da diversidade de identidades, faz dele um espaço verdadeiramente libertador.
O bloco Divinas Tretas aborda questões sociais e políticas?
Sim, o bloco utiliza sua plataforma para o engajamento cívico. Em um domingo de carnaval, por exemplo, distribuiu informações e fez chamadas no palco para lembrar o julgamento dos envolvidos no assassinato da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes, demonstrando seu compromisso com a justiça social.
Qual tipo de música é tocada no Divinas Tretas?
A programação musical é plural e democrática, incluindo samba, axé, piseiro, rock e sucessos pop, com foco em “divas internacionais e brasileiras”. A seleção visa levantar a galera e garantir que todos os gostos sejam contemplados, reforçando a atmosfera de diversidade do bloco.
Quer saber mais sobre blocos de carnaval que fazem a diferença e promovem a inclusão? Acompanhe nossas próximas reportagens e descubra como a folia pode ser um veículo para a transformação social!



