Iniciativas inovadoras desenvolvidas em cidades brasileiras estão sendo apresentadas como modelos para o desenvolvimento urbano sustentável em países do Sul Global. Esta colaboração entre o governo brasileiro e o Programa da Organização das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) visa impulsionar a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com foco especial no ODS 11, que trata de cidades e comunidades sustentáveis. Através do Programa Simetria Urbana, uma série de soluções urbanas brasileiras de sucesso é sistematizada, transformando boas práticas locais em ferramentas concretas de cooperação internacional, inspirando outras nações a enfrentar desafios urbanos complexos com abordagens criativas e eficazes.
Projetos inovadores em destaque
O Brasil, com sua diversidade geográfica e social, tem se tornado um laboratório de inovação em desenvolvimento urbano. Diversos projetos, concebidos para enfrentar realidades específicas, demonstram como é possível conciliar crescimento com sustentabilidade e inclusão social. Estas iniciativas, selecionadas por seu impacto e potencial de replicação, ilustram a capacidade brasileira de gerar respostas eficazes para desafios contemporâneos.
Ilha de Maré: Desenvolvimento quilombola e sustentabilidade
Na Baía de Todos-os-Santos, em Salvador, um projeto de desenvolvimento sustentável na Ilha de Maré beneficiou aproximadamente 4 mil moradores em 12 comunidades, seis das quais são quilombolas. O projeto, nomeado Planos de Bairro, liderado pela prefeitura local, integrou líderes comunitários, poder público, universidades e organizações locais em um processo colaborativo de diagnóstico e planejamento. O foco era combater desigualdades sociais e propor soluções adaptadas à realidade local. Marizélia Lopes, pescadora quilombola e moradora da ilha, ressalta a profunda conexão entre a comunidade e o meio ambiente: “Não enxergamos a natureza apenas como um espaço de exploração; temos uma relação íntima. Não conseguimos desassociar o que é natureza da nossa vida. Somos a natureza.” Essa visão holística é fundamental para o sucesso do projeto, que valoriza o conhecimento tradicional e a participação ativa da população na gestão do seu território.
Jardins Filtrantes em Recife: Natureza como solução urbana
No Recife, outra iniciativa de destaque utiliza a natureza como aliada para aprimorar a infraestrutura urbana. Os Jardins Filtrantes no Parque do Caiara, implementados pela Agência Recife para Inovação e Estratégia (Aries), representam uma solução baseada na natureza para o tratamento de água. Em uma área de cerca de 7 mil metros quadrados na foz do Riacho do Cavouco, foram plantadas 7,5 mil plantas aquáticas nativas, criando um sistema natural de filtragem que melhora a qualidade da água antes de sua chegada ao Rio Capibaribe. Além do benefício ambiental direto, a intervenção teve um impacto positivo na percepção dos moradores sobre o parque. Gabriela Machado, residente da região, expressou sua satisfação: “O Jardim do Caiara, inaugurado e renovado, é um espaço que posso desfrutar ao lado da minha casa, um lugar que valoriza minha região.” Este projeto demonstra como intervenções ecológicas podem não apenas resolver problemas ambientais, mas também revitalizar espaços públicos e fortalecer o senso de comunidade.
Empoderamento e replicação de modelos
A essência do Programa Simetria Urbana reside em identificar, documentar e compartilhar essas boas práticas, transformando-as em referências adaptáveis para outras localidades que enfrentam desafios semelhantes. Ao empoderar comunidades e governos locais com conhecimento e ferramentas, o programa busca catalisar o desenvolvimento sustentável em escala global.
Marias na Construção: Gênero e qualificação profissional
A capital baiana se destaca novamente com o programa Marias na Construção, da prefeitura de Salvador. Esta iniciativa multifacetada aborda a igualdade de gênero, oferecendo qualificação profissional e geração de renda para mulheres em situação de violência doméstica, familiar ou outras vulnerabilidades sociais. Em apenas dois anos, mais de 600 mulheres foram formadas em diversos cursos, capacitando-as para o mercado de trabalho e promovendo sua autonomia econômica. Janaína dos Santos, uma das alunas, projeta um futuro promissor: “Já terminei um curso e vou começar outros dois. Aprendi muito e quero crescer na área. Futuramente, desejo fazer um curso técnico, quem sabe uma faculdade, e me tornar uma grande mulher na construção.” O programa não só oferece habilidades técnicas, mas também resgata a dignidade e a autoestima, pavimentando o caminho para um futuro mais equitativo.
Simetria Urbana: A cooperação sul-sul fortalecida
O trabalho de seleção e disseminação dessas soluções é coordenado pelo Programa Simetria Urbana, lançado em 2023. A parceria entre o Brasil e o ONU-Habitat é intermediada pela Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores (ABC/MRE), representando o governo brasileiro. Uma chamada pública permitiu que governos locais, instituições públicas, organizações da sociedade civil e comunidades de todo o país inscrevessem suas iniciativas. As áreas de intervenção são alinhadas com o ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis –, abrangendo temas como habitação, juventude, mobilidade urbana, planejamento participativo e igualdade de gênero. A meta dessa colaboração é que desafios comuns entre países do Sul Global sirvam de motivação para a exportação de soluções brasileiras já testadas e aprovadas. Laura Lacastagneratte de Figueiredo, arquiteta urbanista e analista de programas do ONU-Habitat, explica que a publicação Simetria Urbana busca transformar boas práticas em ferramentas concretas de cooperação. “Ao sistematizar soluções que já apresentaram resultados, ampliamos o potencial dessas experiências como referências para a cooperação e como modelos adaptáveis e inspiradores de políticas públicas, capazes de dialogar com realidades semelhantes,” afirma. “O objetivo é estimular intercâmbios, projetos conjuntos e o fortalecimento de capacidades locais, contribuindo para acelerar a implementação de ações efetivas de desenvolvimento urbano sustentável em diferentes contextos.”
Conclusão
A iniciativa brasileira, em parceria com o ONU-Habitat, representa um marco significativo na cooperação Sul-Sul, evidenciando o potencial do Brasil como um polo de inovação para o desenvolvimento urbano sustentável. Os projetos da Ilha de Maré, os Jardins Filtrantes de Recife e o programa Marias na Construção de Salvador são exemplos tangíveis de como abordagens participativas, baseadas na natureza e focadas no empoderamento social, podem gerar transformações profundas e duradouras. Ao compartilhar essas soluções, o Programa Simetria Urbana não apenas oferece um valioso banco de ideias para países com desafios análogos, mas também reforça a capacidade coletiva de construir cidades mais resilientes, inclusivas e sustentáveis para todos.
FAQ
1. O que é o Programa Simetria Urbana?
O Programa Simetria Urbana é uma iniciativa conjunta do governo brasileiro, por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC/MRE), e o Programa da ONU para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat). Lançado em 2023, ele visa identificar, sistematizar e promover soluções urbanas inovadoras desenvolvidas no Brasil para inspirar e serem replicadas em outros países do Sul Global, contribuindo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o ODS 11.
2. Quais tipos de soluções urbanas brasileiras estão sendo destacados?
As soluções destacadas são diversas e abrangem áreas como desenvolvimento sustentável em comunidades quilombolas (Ilha de Maré, Salvador), soluções baseadas na natureza para tratamento de água (Jardins Filtrantes, Recife), programas de qualificação profissional e empoderamento feminino (Marias na Construção, Salvador), formação de jovens para projetos socioambientais, e inovações em mobilidade urbana (ônibus híbrido elétrico-hidrogênio, Maricá/RJ), entre outros. Todas estão alinhadas com o ODS 11.
3. Qual o objetivo principal de compartilhar essas iniciativas com o Sul Global?
O objetivo principal é estimular a cooperação Sul-Sul, transformando boas práticas brasileiras em ferramentas concretas para a implementação de políticas públicas adaptáveis em países que enfrentam desafios urbanos semelhantes. A intenção é fomentar intercâmbios, projetos conjuntos e o fortalecimento de capacidades locais, acelerando o desenvolvimento urbano sustentável em diferentes contextos e promovendo a troca de conhecimentos e experiências entre nações em desenvolvimento.
4. Como o programa Marias na Construção contribui para o desenvolvimento sustentável?
O programa Marias na Construção de Salvador contribui para o desenvolvimento sustentável ao abordar múltiplos aspectos do ODS 5 (Igualdade de Gênero) e ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis). Ele oferece qualificação profissional e geração de renda para mulheres em situação de vulnerabilidade, promovendo sua autonomia econômica e social, combatendo a violência doméstica e reduzindo desigualdades. Ao empoderar mulheres, o programa fortalece as famílias e comunidades, contribuindo para cidades mais inclusivas e resilientes.
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