Com uma saudação à ancestralidade, a escritora Ana Maria Gonçalves iniciou seu discurso de posse na cadeira número 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro. A cerimônia, realizada na noite de sexta-feira (7), foi marcada por emoção e homenagens às suas raízes.
Ana Maria Gonçalves, autora do aclamado romance histórico Um Defeito de Cor, se tornou a 13ª mulher a ocupar uma cadeira na instituição desde sua fundação, em 1897. É a primeira mulher negra a ser eleita para o seleto grupo de imortais. Em seu discurso, a escritora celebrou sua chegada à ABL e dedicou o momento à memória daqueles que a precederam.
Gonçalves relembrou a trajetória dos ocupantes anteriores da cadeira 33, destacando o fundador Domício da Gama e o linguista Evanildo Bechara. De Domício da Gama, ressaltou sua versatilidade como jornalista, diplomata, contista e cronista, lembrando que a data marcava o centenário de sua morte. Sobre Bechara, enfatizou o legado intelectual e o amor à língua portuguesa, mencionando sua importância na elaboração do novo acordo ortográfico.
A escritora também abordou a história da exclusão feminina na Academia, lembrando que, inicialmente, a não admissão de mulheres era baseada em um “acordo entre cavalheiros”, já que o estatuto não continha nenhuma proibição explícita. Ela citou as pioneiras que abriram caminho após a mudança do estatuto, incluindo Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Zélia Gattai e Ana Maria Machado.
Com emoção, Ana Maria refletiu sobre a presença negra na ABL e a importância de ampliar as vozes dentro da instituição. Ela mencionou Domício Proença como um dos poucos negros a ocupar uma cadeira na Academia e ressaltou que a negritude de Machado de Assis foi, por muito tempo, negada.
A escritora reconheceu o papel das candidaturas de Conceição Evaristo e Ailton Krenak no debate sobre diversidade, afirmando que a discussão em torno da candidatura de Evaristo, em 2018, contribuiu para que ela estivesse ali naquele dia.
Encerrando seu discurso, Ana Maria Gonçalves assumiu o compromisso de promover a diversidade na ABL, abrindo suas portas ao público e ampliando o empenho na divulgação e promoção da literatura brasileira. Ao citar pensadoras negras como Neusa Santos e Chimamanda Adichie, reafirmou o papel da literatura na reconstrução de identidades.
A apresentação da nova imortal foi feita por Lilia Schwarcz, que destacou o impacto de Um Defeito de Cor e fez um paralelo entre o passado e o presente, lembrando as recentes operações policiais nas comunidades do Rio de Janeiro.
A cerimônia contou com a presença de Ana Maria Machado, que entregou o colar acadêmico, e Gilberto Gil, que entregou o diploma.
A posse de Ana Maria Gonçalves foi marcada como um dia histórico, representando um passo importante para a diversidade e representatividade na Academia Brasileira de Letras.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br



