Antes da grandiosidade dos desfiles do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo tomar conta da Marquês de Sapucaí, um momento peculiar e carregado de simbolismo marcou os bastidores da Colorado do Brás. Carlos Roberto, conhecido artisticamente como Beto, reuniu os bailarinos de sua Comissão de Frente para um ritual de incentivo. O ator, encarregado de dar vida à mítica bruxa Baba Yaga, desejava não apenas boa sorte, mas um tradicional e sonoro “merda”, jargão teatral para sucesso. Esta figura enigmática, que prometia transformar a avenida em um grande sabá, carrega consigo uma história de vida tão fascinante quanto a personagem que interpreta. A jornada de Beto, de um “monstro” de parques de diversão a um dos destaques mais esperados do sambódromo paulistano, revela a paixão e a dedicação por trás do espetáculo, mesclando arte, história e a efervescência do carnaval de São Paulo.

A metamorfose carnavalesca: de parques a passarela

Carlos Roberto, amplamente conhecido como Beto, não é um novato nos palcos da arte e da performance. Sua trajetória é um mosaico de experiências que o moldaram para o grandioso papel que desempenha no Carnaval de São Paulo. Antes de se consagrar como a figura central da Baba Yaga na Colorado do Brás, Beto trilhou um caminho singular, que o levou das sombras dos parques de diversão aos holofotes da Marquês de Sapucaí. Maquiador e dançarino por ofício, ele passou muitos anos imerso no universo do entretenimento, onde sua habilidade em transformar-se e encarnar diferentes personagens já se destacava.

Raízes artísticas: o caminho até a Baba Yaga

Durante um período significativo de sua carreira, Beto dedicou-se a dar vida a “monstros” em parques temáticos renomados, como o Hopi Hari. Essa vivência foi crucial para o desenvolvimento de sua expressividade corporal e teatral. Manipulando próteses, maquiagens elaboradas e figurinos intimidadores, ele aprimorou a arte de instigar emoções no público, seja o medo ou a fascinação. Foi nesse ambiente, longe das luzes da ribalta carnavalesca, que Beto começou a ser reconhecido por sua performance intensa e singular. A experiência em criar atmosferas e interagir com as pessoas de forma imersiva nos parques de diversão serviu como um laboratório valioso, preparando-o para a complexidade e a visibilidade de um desfile de samba. Cada susto, cada grito, cada reação que ele provocava nos visitantes do parque, era um ensaio para o grande espetáculo que viria, culminando em sua notável presença na avenida.

O convite que mudou tudo

O ponto de virada para Beto aconteceu há treze anos, de uma maneira quase predestinada. Em um parque, enquanto interpretava uma bruxa – um prenúncio do que se tornaria –, sua performance capturou a atenção do carnavalesco da Colorado do Brás. O impacto foi imediato e marcante. “Ele se encantou e sempre falou: ‘eu vou colocar você qualquer dia, qualquer carnaval, em evidência com uma bruxa'”, recorda Beto, a demonstração de um reconhecimento precoce de seu talento e a visão de um futuro promissor. A promessa, que por anos pairou como um sonho distante, materializou-se no ano anterior ao desfile. Em um encontro casual na casa de um amigo, o carnavalesco revelou a Beto o plano para o carnaval: a bruxa Baba Yaga seria o grande destaque. “Ele falou: ‘eu tenho uma coisa pra te mostrar’. E apresentou esse carro. Foi uma emoção pura”, descreve o ator, revivendo o momento de euforia e a concretização de um desejo antigo de brilhar em um posto tão almejado. O convite para ser o destaque em um carro alegórico representou a realização de um sonho, coroando anos de dedicação à arte da transformação.

A simbologia da bruxa Baba Yaga na avenida

A escolha da figura da bruxa Baba Yaga como destaque da Colorado do Brás transcende o mero espetáculo visual, transformando-se em um poderoso statement social e cultural. Através da interpretação de Beto, a personagem ganha profundidade e relevância, servindo como um veículo para discutir temas históricos e contemporâneos. Antes de pisar na avenida, já incorporado à sua persona enigmática, o ator expressou sua visão: a expectativa era converter o sambódromo em um autêntico “sabá”, um encontro místico e simbólico para as bruxas do mundo, onde a arte se une à mensagem.

Um grito de liberdade e empoderamento feminino

Para Beto, a bruxa Baba Yaga é muito mais do que um ícone de folclore; ela personifica a resistência e a reivindicação da liberdade, especialmente no contexto da luta feminina. “A expectativa é chamar todas as bruxas e reivindicar nossa liberdade”, afirma o ator, sublinhando o caráter político e social de sua performance na passarela do samba. Ele ressalta que a figura da bruxa, ao longo da história, foi um símbolo da perseguição e do massacre sofrido pelas mulheres, que eram estigmatizadas por sua individualidade ou sabedoria. “As mulheres foram muito massacradas. Se tivesse uma verruga, era chamada de bruxa. Ou se fosse uma vidente, também era chamada de bruxa. Mas hoje, faremos o grande sabá para mostrar que todas as mulheres têm o seu direito”, explica Beto, transformando a alegoria em um manifesto por igualdade e reconhecimento. A sua bruxa, portanto, surge na avenida não para amedrontar, mas para empoderar, para recontar uma história de estigmatização sob a ótica da força e da resiliência. É um convite à reflexão sobre a demonização da mulher e a celebração de sua essência autêntica e inabalável.

Elementos cênicos: corvos, igreja e o discurso

A composição visual do carro alegórico que transporta a Baba Yaga de Beto é meticulosamente pensada para reforçar essa narrativa de misticismo e reivindicação. A bruxa aparece majestosamente, ladeada por corvos, que não são meros adornos, mas elementos com profundo significado em sua representação. “A bruxa tem os corvos dela. Os corvos são os mensageiros das bruxas. Eles que levam a carta, eles que vão ver as pessoas que as bruxas pedem pra ir atrás”, detalha o ator, adicionando uma camada de misticismo e propósito aos elementos da cena. A presença dos corvos, portanto, eleva a personagem de Beto a uma figura de poder, sabedoria e comunicação, capaz de transcender barreiras. Na parte traseira do carro, uma igreja imponente compõe o cenário, servindo como um contraponto sombrio e historicamente relevante. Essa estrutura não é aleatória; ela remete diretamente ao período da Inquisição e à perseguição religiosa, quando muitas mulheres foram acusadas de feitiçaria e submetidas a julgamentos cruéis, culminando em sua marginalização e, muitas vezes, morte. “Ali é a igreja onde os cristãos apedrejavam muitas mulheres. A gente, na verdade, tirava os demônios que falavam que tinha. E a minha bruxa representa isso: a demonização da mulher”, conclui Beto, explicitando o forte discurso que a Colorado do Brás leva para a avenida, utilizando o carnaval como plataforma para a memória e a denúncia. A igreja no carro alegórico é, assim, um lembrete vívido das injustiças passadas, confrontadas pela presença altiva e libertária da Baba Yaga.

Conclusão

A performance de Carlos Roberto como a bruxa Baba Yaga na Colorado do Brás transcende a esfera do entretenimento carnavalesco, elevando-se a um ato de profundo significado artístico e social. Sua jornada, que o levou dos parques de diversão aos holofotes do Sambódromo do Anhembi, é um testemunho da paixão pela arte e da capacidade de transformar experiências pessoais em uma expressão potente. Ao encarnar a Baba Yaga, Beto não apenas realiza um sonho pessoal de reconhecimento e visibilidade, mas também empresta sua voz e seu corpo a uma narrativa maior: a da reivindicação da liberdade feminina e o combate à histórica demonização da mulher. O desfile da Colorado do Brás, com seus elementos cênicos cuidadosamente elaborados – da bruxa com seus corvos à igreja que simboliza a perseguição – serve como um poderoso palco para a reflexão. O carnaval, em sua essência festiva e transformadora, reafirma-se como um espaço vital para a arte que provoca, questiona e celebra, deixando uma marca indelével na memória dos espectadores e na rica tapeçaria da cultura brasileira.

FAQ

Qual o nome do ator que interpreta a bruxa Baba Yaga na Colorado do Brás?
O ator é Carlos Roberto, também conhecido como Beto. Ele é o responsável por dar vida à icônica personagem Baba Yaga no desfile da Colorado do Brás no Carnaval de São Paulo, sendo um dos principais destaques da escola.

Qual a trajetória profissional de Carlos Roberto antes do carnaval?
Carlos Roberto possui uma longa trajetória na área artística, atuando como maquiador e dançarino. Ele trabalhou por muitos anos como “monstro” em parques de diversões, como o Hopi Hari, experiência que o ajudou a desenvolver suas habilidades de performance e a ganhar reconhecimento no meio artístico.

Qual a simbologia da bruxa Baba Yaga na interpretação de Beto?
Na visão de Beto, a bruxa Baba Yaga simboliza a perseguição histórica às mulheres e a luta pela liberdade e empoderamento feminino. Ele a vê como um grito contra a demonização da mulher ao longo dos séculos, transformando a figura da bruxa em um ícone de resistência e reivindicação de direitos fundamentais.

Descubra mais histórias inspiradoras do Carnaval de São Paulo e mergulhe nos bastidores que fazem a magia acontecer!

Fonte: https://g1.globo.com

Compartilhar.
Deixe Uma Resposta

Olá vamos conversar!