O ouro, tradicionalmente visto como um porto seguro em tempos de instabilidade, tem alcançado recordes históricos em sua cotação internacional, superando a marca de US$ 5.000 pela primeira vez e atingindo picos de US$ 5.326 por onça troy. Essa escalada vertiginosa, que representa uma valorização de mais de 90% nos últimos 12 meses e cerca de 22% somente neste ano de 2026, reflete uma complexa teia de fatores geopolíticos e econômicos. Especialistas apontam que a busca crescente por estabilidade e proteção patrimonial em meio a um cenário global de incertezas, impulsionado por políticas protecionistas e tensões internacionais, tem direcionado investidores e bancos centrais para o metal precioso, alterando dinâmicas de mercado e impactando a confiança em moedas fiduciárias.
Ouro em ascensão: um panorama dos novos recordes
A escalada histórica e a demanda aquecida
No meio da tarde desta quarta-feira (28), a cotação do ouro no mercado internacional seguia uma trajetória de alta impressionante, alcançando valorizações recordes. A onça troy, unidade de medida padrão para metais preciosos equivalente a 31,1035 gramas, foi negociada em torno de US$ 5.280 e chegou a atingir o pico de US$ 5.326, marcando a maior cotação já alcançada pelo ouro à vista. Este recorde é mais uma demonstração da forte escalada do preço do metal, que experimentou uma valorização superior a 90% nos últimos 12 meses. Pela primeira vez na história, o preço do ouro superou o marco de US$ 5.000, e somente em 2026, a valorização já se aproxima de 22%.
Um comportamento semelhante de valorização é notado no preço da prata. No período de um ano, a onça troy do metal saltou de US$ 30 para o recorde de US$ 115. Na tarde desta terça-feira (27), a prata era negociada próxima a US$ 112. A disparada nos preços de ambos os metais é um indicativo claro de uma intensa busca por esses ativos. Segundo a lei da oferta e procura, quanto maior o interesse dos agentes econômicos por um produto ou ativo, maior tende a ser seu preço de negociação, evidenciando o crescente apetite do mercado por metais preciosos em um contexto de turbulência global.
O cenário de incertezas e o “efeito Trump”
Políticas protecionistas e instabilidade global
A escalada do ouro tornou-se particularmente notável a partir de janeiro de 2025, mês em que Donald Trump assumiu novamente a presidência dos Estados Unidos. Naquela época, a onça troy do ouro era vendida a US$ 2,7 mil, e de lá para cá, o preço quase dobrou. Especialistas convergem na análise de que a valorização dos metais é um reflexo direto de uma conjuntura global “recheada de incertezas”. O ouro, mais proeminentemente, e a prata, são historicamente reconhecidos como reservas de valor, ativos que preservam o poder de compra ao longo do tempo.
Um dos principais gatilhos para essa incerteza global é atribuído à política econômica do presidente Donald Trump. As tarifas e o protecionismo, que se assemelham a um mercantilismo moderno, representam um rompimento com a tradição de livre comércio que os EUA sempre defenderam. Além disso, as “truculências externas”, incluindo ameaças a países e até mesmo a parceiros comerciais, ampliam a desconfiança na figura de Trump. Sua agenda, sob a alegação de proteger interesses americanos, tem imposto tarifas a parceiros, gerando o que ficou conhecido como “tarifaço”, abalando a confiança e gerando receio de novas guerras comerciais.
Conflitos geopolíticos e a busca por segurança
A turbulência geopolítica é outro fator crucial que impulsiona a demanda por ouro. A cobiça de Trump pela Groenlândia, por exemplo, que o levou a pressionar e ameaçar a Dinamarca e outros países europeus para obter controle sobre a ilha no Ártico, abalou significativamente a confiança entre os Estados Unidos e a Europa. Essa situação gerou um receio palpável de novas tensões e conflitos comerciais.
Adicionalmente, o conflito entre a Ucrânia e a Rússia, que se estende para o sexto ano, agrava ainda mais o cenário de instabilidade. O mercado financeiro começa a precificar um risco geopolítico real e imediato, e, nesse contexto, a busca por ativos de segurança como o ouro e a prata se intensifica naturalmente. Esses metais oferecem um refúgio contra a volatilidade e a desvalorização de outros ativos em tempos de crises e incertezas políticas.
A corrida por um porto seguro: investidores e bancos centrais
O papel das reservas de valor
Nesse pano de fundo de crescentes incertezas, o ouro e a prata vivenciam uma corrida por parte de investidores e governos em busca da segurança de seus patrimônios. Muitos buscam se proteger em metais, que são vistos não apenas como um tipo de investimento, mas principalmente como uma forma de trazer menos volatilidade para as carteiras. Nesse cenário, o ouro se configura como uma proteção robusta contra os choques do mercado.
O ouro e a prata possuem valor intrínseco, o que os distingue de moedas fiduciárias, que dependem da confiança em um governo para garantir sua viabilidade e potência econômica. Essa característica os torna um “porto seguro” por excelência, funcionando como uma apólice de seguro contra qualquer colapso do sistema financeiro ou cenários inflacionários severos. Eles representam uma alternativa de valor que transcende a dependência de políticas monetárias e fiscais.
A estratégia dos bancos centrais, incluindo o Brasil
Embora figurem como compradores de ouro, ao lado de grandes investidores profissionais, os bancos centrais não são apontados como os únicos responsáveis pela disparada do preço do ouro. É verdade que bancos centrais ao redor do globo, incluindo o brasileiro, têm ampliado suas reservas em ouro. Todavia, a principal força motriz por trás da “explosão” do preço é derivada do mercado de investidores, que busca diversificar seus ativos e fugir dos riscos da conjuntura atual.
A mudança de postura dos bancos centrais, embora extremamente relevante em termos de economia política, não seria suficiente para inflacionar o preço do ouro sozinha. A demanda por ouro aumentou significativamente também por parte dos investidores individuais e institucionais. Os governos, representados por seus bancos centrais, aumentam o apetite por metais para diversificar suas reservas com o propósito de reduzir a dependência de moedas fiduciárias, fortalecendo sua posição frente a volatilidades cambiais e financeiras globais.
Aqui no Brasil, o Banco Central (BC) tem seguido essa tendência e aumentou substancialmente a quantidade de ouro em suas reservas internacionais, um tipo de colchão de segurança contra crises e choques externos. Em janeiro de 2025, o BC possuía 129,7 toneladas de ouro, quantidade que saltou para 172,4 toneladas em dezembro do mesmo ano, segundo o dado mais recente, representando um crescimento de 33%. Em valores financeiros, o país tinha US$ 11,7 bilhões em ouro em janeiro de 2025, valor que subiu para US$ 23,9 bilhões em dezembro, mais do que dobrando. Essa valorização reflete tanto o aumento no volume de toneladas quanto a apreciação da cotação do ouro no mercado internacional. Dessa forma, o ouro, que respondia por 3,6% das reservas em janeiro de 2025, passou a representar 6,7% dos mais de US$ 358 bilhões que o país tinha em dezembro.
Impactos além do metal: rentabilidade e desconfiança no dólar
Ouro como componente de rentabilidade
A pressão de alta do ouro não se limita apenas à segurança do patrimônio. Quando o metal rompe a barreira histórica dos US$ 5 mil, ele se transforma em um componente de rentabilidade extremamente agressivo nas carteiras de investimento, especialmente em um cenário de incerteza global. A valorização acentuada permite que investidores não apenas protejam seus ativos, mas também obtenham lucros significativos, tornando-o um atrativo para aqueles que buscam retornos elevados em períodos de turbulência.
O dólar sob pressão
Ao mesmo tempo em que as turbulências geopolíticas elevam a procura pelo ouro, a moeda americana, o dólar, passa por um período de desconfiança. O preço do ouro acaba funcionando como um termômetro da saúde do dólar: quando o ouro sobe, isso sinaliza uma desconfiança na moeda americana. Para ilustrar a perda de força do dólar, o DXY, um indicador que mede o desempenho da moeda perante uma cesta de outras moedas estrangeiras (o real brasileiro não está incluído), beirava 110 pontos quando Donald Trump assumiu em janeiro de 2025. Atualmente, esse índice ronda os 96 pontos.
Embora seja cedo para pontuar uma “desdolarização” ou uma perda de hegemonia da moeda, a desconfiança é um fato. No Brasil, essa desvalorização foi sentida no mercado de câmbio. Nos últimos 12 meses, o dólar recuou 11%, e somente em 2026, a desvalorização está em cerca de 5,5%. Na terça-feira, a moeda fechou negociada a R$ 5,20, o menor patamar em 20 meses, evidenciando o impacto da conjuntura global na economia doméstica.
Fatores adicionais e a visão de longo prazo
Dívidas elevadas e o risco de bolhas de mercado
Além dos fatores conjunturais que impulsionaram a escalada do ouro, há também um fator estrutural relevante. Muitos países ao redor do mundo apresentam dívidas públicas bastante elevadas, o que pode influenciar a percepção dos agentes econômicos sobre a sustentabilidade dessas dívidas. Consequentemente, tem ocorrido uma diversificação no destino de investimentos para além das moedas fiduciárias, direcionando capital para metais preciosos, que têm se valorizado recentemente como reflexo dessa busca por alternativas.
Outro ponto de preocupação que contribui para a busca por ativos seguros é o receio de uma possível correção (queda) no mercado de capitais, como as bolsas de valores. Existe a preocupação com uma possível “bolha de inteligência artificial (IA)”, que já começou a gerar estresses no início deste ano de 2026. Há o temor de que empresas de IA estejam supervalorizadas, na iminência de sofrerem uma queda abrupta no preço de suas ações, o que levaria investidores a procurar refúgio em ativos mais estáveis como o ouro.
Conclusão
A valorização recorde do ouro no mercado internacional é um fenômeno multifacetado, impulsionado por uma complexa interação de incertezas geopolíticas, políticas econômicas protecionistas e uma busca generalizada por segurança patrimonial. As políticas de Donald Trump, as tensões globais e a desconfiança na estabilidade de moedas fiduciárias e mercados de capitais instáveis têm direcionado investidores e bancos centrais para o metal precioso. Essa corrida pelo ouro não apenas reafirma seu papel histórico como reserva de valor, mas também o consolida como um ativo de rentabilidade expressiva em tempos de crise, enquanto serve como um indicador da saúde de outras moedas globais, como o dólar. O cenário atual sugere que o ouro continuará a ser um elemento crucial nas estratégias de proteção e diversificação de patrimônio em um mundo cada vez mais volátil.
Perguntas frequentes sobre o ouro
Por que o ouro é considerado um porto seguro?
O ouro é considerado um porto seguro por possuir valor intrínseco e ser um ativo tangível, não dependendo da confiança em uma moeda fiduciária ou governo para manter seu poder de compra. Em tempos de instabilidade econômica, inflação ou crises geopolíticas, ele tende a preservar seu valor, protegendo o patrimônio dos investidores.
Como as políticas de Donald Trump influenciam o preço do ouro?
As políticas de Donald Trump, como as tarifas e o protecionismo comercial, criam um cenário de incerteza global. Essas medidas rompem com o livre comércio tradicional e geram tensões com parceiros comerciais, aumentando a percepção de risco. A busca por segurança nesse ambiente volátil leva investidores a direcionar seus recursos para o ouro, impulsionando sua cotação.
Qual a relação entre a valorização do ouro e a desvalorização do dólar?
A valorização do ouro muitas vezes funciona como um termômetro da desconfiança no dólar. Quando o ouro sobe, isso pode indicar que os investidores estão perdendo a confiança na estabilidade ou no poder de compra da moeda americana. A busca por ouro como alternativa ao dólar contribui para a desvalorização da moeda dos EUA e reflete uma mudança nas percepções de risco global.
O que é uma onça troy?
A onça troy é uma unidade de medida de massa utilizada tradicionalmente para pesar metais preciosos, como ouro, prata e platina. Uma onça troy equivale a aproximadamente 31,1035 gramas. É a medida padrão global para a cotação e negociação desses metais nos mercados internacionais.
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