O Paço Imperial, no coração do Rio de Janeiro, se torna palco de um evento cultural de grande relevância: a exposição “Geometria Visceral”, do renomado artista plástico Gilberto Salvador. A mostra, que estará disponível ao público até 1º de março do próximo ano, assinala o tão aguardado retorno de Gilberto Salvador à capital fluminense após um hiato de 17 anos desde sua última exposição local. Apresentando cerca de 40 obras – incluindo pinturas, esculturas e vídeos – a exposição oferece um panorama abrangente de mais de seis décadas de uma carreira prolífica, repleta de fases distintas que refletem os momentos vividos pelo autor. A “Geometria Visceral” não apenas celebra a trajetória de um dos nomes mais influentes da arte brasileira, mas também convida o público a mergulhar na profundidade e na evolução de sua linguagem artística.
A exposição ‘Geometria Visceral’: um panorama da carreira de Gilberto Salvador
Retorno ao Rio e a pluralidade de sua obra
A exposição “Geometria Visceral” no Paço Imperial é um marco para a cena cultural carioca, representando o reencontro de Gilberto Salvador com a cidade que tanto admira. Após 17 anos de ausência nas galerias locais, o artista traz um conjunto expressivo de aproximadamente 40 obras, que compreendem pinturas, esculturas e vídeos. Essas peças são um testemunho de mais de seis décadas de criação, revelando a constante experimentação e a capacidade de Gilberto Salvador de transitar por diferentes técnicas e linguagens. Embora a mostra priorize a produção mais recente, ela também revisita trabalhos emblemáticos das décadas de 1960 e 1970, oferecendo ao visitante uma visão completa de sua evolução artística. Cada fase de sua jornada é intrinsecamente ligada aos seus momentos de vida, tornando a exposição uma experiência que vai além da estética, mergulhando na biografia e nas convicções do artista.
A inspiração tropical e a arquitetura
A relação de Gilberto Salvador com o Rio de Janeiro é profunda e multifacetada. Apaixonado pela topografia da cidade – com seus morros imponentes como o Pão de Açúcar e o Dois Irmãos, que inclusive foram retratados em algumas de suas obras – o artista vê na paisagem carioca uma fonte inesgotável de inspiração. Sua convivência com a natureza brasileira, descrita por ele como “difusa, maravilhosa e múltipla”, e a amizade com figuras como o paisagista Roberto Burle Marx e o arquiteto Oscar Niemeyer na década de 1970, influenciaram uma guinada em sua abordagem artística, incorporando cores vibrantes e uma paleta assumidamente tropicalista. Gilberto Salvador explica essa escolha como uma “questão existencial”, não meramente conceitual, refletindo sua vivência e identidade com o ambiente. Sua formação em arquitetura e urbanismo, iniciada desde a fabricação de suas próprias tintas com o avô, revelou-se fundamental. Essa base lhe proporcionou uma leitura crítica e construtiva do espaço, que ele soube aplicar com maestria em suas obras, moldando sua compreensão da tridimensionalidade e da interação entre forma e ambiente.
Arte e resistência: o engajamento político e existencial de Gilberto Salvador
Do protesto à ecologia: fases marcantes da produção
A trajetória artística de Gilberto Salvador é inseparável de seu engajamento com as questões sociais e políticas de seu tempo. Em períodos de opressão, como a ditadura militar no Brasil, sua arte assumiu uma identidade marcadamente política. O trabalho “Viu…!”, de 1968, é um exemplo notável dessa fase, onde a resistência se manifestava através de uma linguagem plástica inspirada em cartazes de cinema e histórias em quadrinhos, transmitindo mensagens contestatórias em um cenário de censura e coerção. Gilberto Salvador, que se declara antifascista, relembrou sua participação em Bienais de São Paulo com obras desafiadoras, usando sua arte como uma afirmação de ideias. Na década de 1970, sua linguagem artística evoluiu para um discurso mais alinhado à ecologia, impulsionado por suas conexões com personalidades como Burle Marx e Niemeyer. Essa mudança de foco, no entanto, manteve a essência de sua paixão pela natureza e pela vida, expressa na vibrante paleta de cores que se tornou uma marca de seu trabalho.
A acessibilidade como um pilar de sua expressão artística
A vida de Gilberto Salvador é marcada por uma resiliência notável. Diagnosticado com paralisia infantil aos nove meses de idade, o artista superou barreiras físicas, transformando os desafios em uma força motriz para sua criação. Apesar de ser cadeirante hoje e ter limitações em atividades que antes amava, como nadar e velejar, isso nunca o impediu de desenvolver sua arte. Sua disposição para a criação se manifestou na pintura, desenho e escultura, levando-o a inúmeras exposições e bienais no Brasil e no exterior. A arte, para ele, é uma forma de expressar sentimentos e conectar-se com o mundo. Essa sensibilidade se estende à preocupação com a acessibilidade em suas mostras. Com a curadora Denise Mattar, ele integrou à exposição “Geometria Visceral” duas pequenas esculturas pensadas especificamente para serem tocadas. Gilberto Salvador manifesta o desejo de que todas as obras pudessem ser manuseadas, acreditando que a experiência tátil proporciona uma compreensão mais profunda da tridimensionalidade e do espaço, mesmo reconhecendo os riscos de danos.
O legado e a curadoria: a visão de Denise Mattar sobre Gilberto Salvador
O papel de Gilberto Salvador na arte brasileira contemporânea
A crítica de arte e curadora Denise Mattar, uma das mais respeitadas do país e responsável pela “Geometria Visceral”, descreve Gilberto Salvador como uma pessoa admirável, cuja condição física nunca o vitimizou ou limitou. Para Denise, o trabalho de Gilberto Salvador ocupa um lugar fundamental na arte brasileira, especialmente por sua inserção em uma geração de artistas dos anos 1970 que revolucionou a forma de se fazer arte. Ao lado de nomes como Rubens Gerchman, Carlos Vergara e Cildo Meireles, Gilberto Salvador contribuiu para a abertura de novas possibilidades artísticas. Essa geração foi pioneira na criação de objetos e na libertação da escultura das paredes, explorando novos caminhos e expandindo os limites da expressão. A curadora enfatiza que esse grupo é extraordinário e que Gilberto Salvador se encaixa perfeitamente nesse seleto time de inovadores. Sua obra, portanto, não é apenas um registro pessoal, mas um capítulo importante na história da arte contemporânea brasileira.
A escolha do título e a liberdade criativa
A curadora Denise Mattar expressou sua satisfação em ser convidada para a curadoria da exposição de Gilberto Salvador, um artista cujo trabalho ela acompanha há muito tempo. Recebendo total liberdade na seleção das obras, Denise optou por focar principalmente na produção contemporânea, mas fez um recorte que incluísse trabalhos de outras fases, dada a longa ausência do artista no Rio de Janeiro. A mostra também apresenta obras em acrílico, representativas de sua fase mais atual. Ao revisar o vasto conjunto da obra de Gilberto Salvador, a curadora percebeu uma constante dialética entre o geométrico e o orgânico, uma tensão que permeia toda a sua produção. Foi dessa constatação que surgiu o título da exposição: “Geometria Visceral”. Ao apresentar a ideia ao artista, ele imediatamente reconheceu a pertinência, afirmando que o título não era apenas um nome, mas um resumo conciso de toda a sua jornada artística e de sua linguagem única. A exposição, assim, se estrutura como uma conversa fluida entre esses conjuntos de trabalhos, sem módulos rígidos, permitindo uma imersão na mente criativa de Gilberto Salvador.
Conclusão
Gilberto Salvador, com sua “Geometria Visceral”, oferece uma imersão profunda em uma trajetória de seis décadas, marcada por inovação, resistência e uma conexão visceral com a vida e a natureza. A mostra no Paço Imperial não apenas celebra o retorno de um dos grandes nomes da arte brasileira ao Rio de Janeiro, mas também reafirma seu papel como um artista que transcendeu barreiras físicas e ideológicas. Sua obra, que dialoga entre o geométrico e o orgânico, o político e o existencial, continua a inspirar e a provocar reflexão. Esta exposição é um convite imperdível para experienciar a riqueza de um legado que moldou e segue enriquecendo o panorama cultural do Brasil, convidando à contemplação de sua pluralidade e profundidade.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. Qual o título da exposição de Gilberto Salvador no Rio de Janeiro?
A exposição de Gilberto Salvador no Paço Imperial intitula-se “Geometria Visceral”.
2. Até quando a exposição ‘Geometria Visceral’ estará aberta ao público?
A mostra estará disponível para visitação até o dia 1º de março do próximo ano.
3. Quantas obras estão expostas e qual o período que abrangem?
A exposição conta com cerca de 40 obras, entre pinturas, esculturas e vídeos, que representam mais de 60 anos de carreira do artista, incluindo trabalhos das décadas de 1960 e 1970 até a produção mais recente.
4. Qual a importância da formação em arquitetura para o trabalho de Gilberto Salvador?
Sua formação em arquitetura e urbanismo foi fundamental, proporcionando-lhe uma leitura crítica e construtiva do espaço, o que influenciou profundamente sua compreensão da tridimensionalidade e a concepção de suas obras.
Não perca a chance de vivenciar a “Geometria Visceral” de Gilberto Salvador. Visite o Paço Imperial no Rio de Janeiro e mergulhe na obra de um mestre que, com sua arte, desafia percepções e emociona.



