A população das favelas do Rio de Janeiro vive sob o constante impacto da violência, resultando em sérios problemas de saúde física e mental. O professor José Claudio Sousa Alves, da UFRRJ, descreve a situação como uma “bomba invisível”, referindo-se às consequências das operações policiais.
A Operação Contenção, realizada recentemente nos complexos do Alemão e da Penha, exemplifica essa realidade. Com um alto número de mortos, a ação paralisou a região, interrompendo o comércio, fechando escolas e postos de saúde, e alterando rotas de transporte. O trauma gerado por essa violência tem efeitos duradouros na saúde dos moradores.
Um estudo do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) revelou que moradores de favelas expostas a frequentes tiroteios têm um risco significativamente maior de desenvolver depressão, ansiedade, insônia e hipertensão. Muitos também relatam sintomas como sudorese, tremores e falta de ar durante os confrontos.
Raimunda de Jesus, dirigente sindical e moradora, expressou sua indignação durante um protesto contra a Operação Contenção, afirmando que a população periférica é frequentemente discriminada e vista como inimiga pelo Estado, que deveria, em vez disso, oferecer cuidado e proteção.
Liliane Santos Rodrigues, que perdeu o filho em uma ação policial, compartilhou sua dor e solidariedade com outras mães que enfrentam a perda de seus filhos.
Os complexos do Alemão e da Penha são considerados pontos estratégicos do Comando Vermelho. Carolina Grillo, da UFF, explica que esses locais abrigam lideranças do tráfico, mas também são lares de milhares de pessoas que sofrem as consequências das operações policiais. Ela argumenta que, embora as operações possam resultar em prisões e apreensões, elas não desmantelam a estrutura do crime organizado, mas traumatizam profundamente a população local.
O Comando Vermelho, originado no sistema prisional, expandiu suas atividades para além do tráfico de drogas, adotando práticas semelhantes às das milícias, como a exploração econômica dos moradores. O secretário de Polícia Civil reconheceu que a droga representa apenas uma parte do faturamento das facções, que também lucram com a exploração de serviços e a extorsão.
Especialistas defendem que as operações policiais não são a solução para combater o crime organizado, pois não resultaram em perda de território para as facções. Carolina Grillo sugere que o foco deveria ser em desmantelar as estruturas financeiras do crime de forma não violenta, como demonstrado em operações anteriores.
Uma alternativa seria investir em oportunidades para jovens em áreas vulneráveis, para que não sejam atraídos pelo crime organizado. Nesse sentido, programas como o Pronasci Juventude, que oferece apoio para estudos, capacitação e inserção no mercado de trabalho, são considerados importantes.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
