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Suíça monitorou e perseguiu exilados brasileiros na ditadura militar

© Jean Marc Von der Weid/Arquivo pessoal

A história de Jean Marc von der Weid, um jovem estudante brasileiro-suíço, lança luz sobre os anos sombrios da ditadura militar no Brasil e a complexa relação da Suíça com o regime. Detido e brutalmente torturado entre 1969 e 1971, Jean Marc foi um dos 70 presos políticos libertados em troca do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, em um dos sequestros diplomáticos mais longos e notórios da história brasileira. Exilado na Europa, ele dedicou-se a denunciar as violações dos direitos humanos no Brasil, revelando a brutalidade dos métodos de tortura empregados pelo regime. Contudo, essa militância, crucial para expor a verdade, não foi bem vista pelo governo suíço. Em vez de apoiar as denúncias, a Suíça monitorou e perseguiu brasileiros contrários à ditadura, evidenciando uma política externa guiada por interesses econômicos e uma preocupante cumplicidade com o regime autoritário.

O testemunho de Jean Marc von der Weid e a denúncia no exílio

As memórias de Jean Marc von der Weid sobre seu cativeiro são um retrato vívido da crueldade institucionalizada pela ditadura brasileira. Em suas próprias palavras, ele descreveu sessões de tortura quase ininterruptas por quatro dias, sem sair da “câmara de tortura”. Essas confissões, inicialmente feitas à RTS, a empresa de rádio e TV pública da Suíça, eram apenas o começo de uma cruzada pessoal para expor a verdade por trás do “milagre econômico” brasileiro.

A barbárie da tortura no Brasil

Jean Marc detalhou as técnicas de tortura a que foi submetido, as quais se tornaram infelizmente conhecidas nos porões da ditadura. Ele mencionou o “pau de arara”, método em que a vítima era pendurada de cabeça para baixo pelos pés e mãos, recebendo choques elétricos e golpes de cassetete. O “telefone”, golpes simultâneos nas orelhas, causava dor excruciante e danos permanentes. A “tortura hidráulica”, com água forçada no nariz, e as queimaduras com cigarros completavam o repertório de atrocidades. O horror não se restringia a adultos; Jean Marc relembrou o caso de um menino de 14 anos com paralisia infantil, torturado para forçar a mãe a falar, evidenciando a desumanidade sem limites do regime.

O papel crucial do ativismo na Europa

Ao chegar à Europa, Jean Marc iniciou uma verdadeira maratona de palestras, debates e entrevistas. Seu objetivo era claro: desmascarar a propaganda do governo militar e alertar a opinião pública europeia sobre os crimes cometidos no Brasil. Sua atuação incansável foi fundamental para que a voz dos oprimidos alcançasse os centros de poder e a sociedade civil em um continente que, muitas vezes, tinha uma visão idealizada ou desinformada sobre o que realmente acontecia no país sul-americano. Contudo, essa exposição pública das violações incomodou profundamente o governo suíço, que mantinha laços econômicos robustos com a ditadura brasileira.

A vigilância suíça e os interesses econômicos

A movimentação dos ativistas brasileiros no exterior, notadamente na Suíça, não passou despercebida pelas autoridades locais. Pesquisas recentes revelam que o governo suíço, em sua busca por manter boas relações comerciais com o Brasil, optou por uma postura de vigilância e repressão contra aqueles que denunciavam o regime.

Monitoramento policial de ativistas

Gaelle Shclier, pesquisadora da Universidade de Lausanne, teve acesso a relatórios que comprovam a vigilância policial sobre os exilados brasileiros. Um documento de 9 de março de 1971, um relatório de 36 páginas em francês, destinado ao chefe da polícia de Lausanne, transcreve detalhadamente as palestras de ativistas na conferência “Brasil, a democratização da tortura”. O discurso de Jean Marc é o primeiro transcrito, indicando a importância que as autoridades suíças atribuíam ao seu depoimento. O relatório também identificava os organizadores do evento, os dizeres dos cartazes (“12.000 presos políticos”, “A tortura é indispensável ao poder militar”) e, crucialmente, os nomes de empresas suíças que lucravam com a política de proximidade entre os dois governos.

A defesa da imagem da ditadura brasileira

Enquanto ativistas como Jean Marc desmascaravam a realidade, a comunidade empresarial e o próprio governo suíço organizavam eventos para promover uma imagem positiva do Brasil. Jornadas culturais, econômicas e políticas eram realizadas com o intuito de “ganhar a opinião pública sobre a ditadura”, nas palavras de Gaelle Shclier. Personalidades como Roberto Campos, ex-ministro do Planejamento no governo de Castello Branco, frequentemente viajavam à Suíça para palestrar e endossar a narrativa oficial. Gabriella Lima, também pesquisadora da Universidade de Lausanne, enfatiza que os movimentos de solidariedade dos ativistas representavam uma ameaça direta aos interesses econômicos suíços no Brasil, pois poderiam levar a pedidos de boicote, como ocorrido na África do Sul.

A cumplicidade diplomática e o conhecimento das violações

A pesquisa revela que o governo suíço não apenas monitorava, mas também tinha pleno conhecimento das atrocidades cometidas no Brasil. Relatórios policiais e correspondências diplomáticas confirmam essa cumplicidade. Um documento intitulado “Tortura no Brasil”, de outubro de 1973, redigido pelo cônsul suíço no Rio de Janeiro, Marcel Guelat, para o Departamento de Política do Ministério das Relações Exteriores de seu país, é incisivo. Nele, Guelat confirma que o Estado brasileiro, através de unidades do exército e órgãos como o DOPS, recorria a métodos diversos de tortura, como maus-tratos físicos, queimaduras, choques elétricos e câmara fria. O cônsul alerta ainda que essa violência era de conhecimento das “altas esferas” do governo brasileiro, desmentindo qualquer alegação de ignorância.

A perseguição de exilados e a quebra da neutralidade

Apesar do vasto conhecimento sobre as violações, a Suíça não hesitou em priorizar suas relações econômicas com o regime militar, chegando ao ponto de perseguir ativistas brasileiros em seu próprio território. A dupla nacionalidade de Jean Marc von der Weid foi sua salvação, poupando-o da expulsão. Outros, contudo, não tiveram a mesma sorte.

Expulsões controversas e a celebração brasileira

Apolônio de Carvalho e Ladislau Dowbor, ambos ex-presos políticos e vítimas de tortura no Brasil, foram expulsos da Suíça e tiveram seus vistos cassados. O Estado suíço alegou “quebra da neutralidade” como justificativa, uma desculpa que parece frágil diante das evidências de que o país europeu estava, na verdade, alinhado com os interesses de um regime violento. A expulsão desses ativistas foi celebrada pelo governo brasileiro. Um informe de novembro de 1970 do Ministério das Relações Exteriores (MRE) para a Presidência da República atribuiu o “sucesso” da medida à firmeza com que o Brasil reclamou do comportamento suíço e indicou os “danos que causaria às nossas relações políticas e econômicas”. Essa nota diplomática é uma prova cabal da pressão exercida pelo Brasil e da eficácia das relações comerciais como instrumento de barganha política.

A resposta suíça atual e a busca por esclarecimento

Nunca houve uma ruptura política ou econômica entre a Suíça e a ditadura brasileira. Questionada sobre sua postura na época, a Embaixada da Suíça no Brasil respondeu, em nota, que “uma resposta detalhada exigiria análises que não são possíveis no âmbito da administração federal suíça, pois demandam pesquisas históricas aprofundadas”. A embaixada “saúda” a realização de estudos independentes para compreender o passado e promover o debate, um reconhecimento indireto da necessidade de maior escrutínio sobre o período.

A complexa teia de interesses e a memória histórica

A história do monitoramento e perseguição de exilados brasileiros pela Suíça durante a ditadura militar é um capítulo complexo da história internacional, revelando a intrincada teia de interesses econômicos e políticos que podem moldar a postura de um país diante de violações dos direitos humanos. O testemunho corajoso de Jean Marc von der Weid e as pesquisas de historiadores como Gaelle Shclier e Gabriella Lima são cruciais para desvendar as responsabilidades e reavaliar a imagem de neutralidade suíça. A necessidade de “pesquisas históricas aprofundadas”, como sugerido pela própria embaixada, sublinha a importância de continuar investigando e expondo as verdades incômodas para garantir que a memória histórica seja preservada e lições sejam aprendidas.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Quem foi Jean Marc von der Weid e qual sua importância histórica?
Jean Marc von der Weid foi um estudante brasileiro-suíço, torturado pela ditadura militar brasileira e libertado em troca do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. Ele se tornou um ativista incansável na Europa, denunciando as atrocidades do regime e a complexa relação da Suíça com o Brasil da época. Sua história é um testemunho da brutalidade da ditadura e da resiliência dos que lutaram por justiça.

2. Quais evidências comprovam o monitoramento suíço de ativistas brasileiros?
Pesquisas, especialmente de Gaelle Shclier, revelaram relatórios policiais suíços, como um documento de 36 páginas de março de 1971, que transcrevia palestras de ativistas. Além disso, correspondências diplomáticas, como a nota “Tortura no Brasil” de 1973 do cônsul suíço Marcel Guelat, confirmam que as autoridades suíças não só monitoravam os exilados, mas também tinham conhecimento detalhado das torturas praticadas no Brasil.

3. Por que a Suíça manteve relações com a ditadura brasileira mesmo sabendo das violações?
A Suíça mantinha fortes laços econômicos com o regime militar brasileiro. Interesses comerciais e financeiros eram priorizados, levando o governo suíço a tentar projetar uma imagem positiva do Brasil e a reprimir ativistas que ameaçavam esses interesses, temendo boicotes. Essa postura reflete uma política externa guiada pela economia em detrimento dos direitos humanos.

4. Quais exilados brasileiros foram expulsos da Suíça e qual foi a justificativa?
Apolônio de Carvalho e Ladislau Dowbor, ambos ex-presos políticos e vítimas de tortura, foram expulsos da Suíça e tiveram seus vistos cassados. O Estado suíço alegou “quebra da neutralidade” como justificativa para a expulsão, uma medida que o Ministério das Relações Exteriores do Brasil celebrou, atribuindo-a às pressões e aos interesses econômicos entre os dois países.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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