A eleição geral peruana, realizada recentemente, marcou mais um capítulo na prolongada crise política que assola o país andino, evidenciando uma instabilidade crônica que o levou a escolher seu décimo presidente em apenas uma década. Esse cenário de sucessivas renúncias e processos de impeachment tem mantido a nação em constante turbulência. Com um total impressionante de 35 candidatos presidenciais na disputa, o resultado inicial da eleição peruana é permeado por uma incerteza sem precedentes, gerando expectativas e apreensão em todo o território nacional. Os primeiros resultados parciais, aguardados desde a meia-noite do dia da votação, são cruciais para começar a delinear o futuro político do Peru, um país que busca desesperadamente por estabilidade.
Cenário eleitoral fragmentado e a busca por liderança
A complexidade da votação deste pleito presidencial é amplificada pelo número recorde de candidatos. Os 27 milhões de eleitores peruanos não apenas foram às urnas para eleger um presidente e um vice-presidente, mas também para definir a composição de seu Poder Legislativo, com 130 deputados e 60 senadores para os próximos cinco anos. Uma das grandes novidades desta eleição foi a reabertura do Senado peruano após 33 anos, marcando o retorno ao sistema bicameral, uma medida controversa que havia sido rejeitada pela população em um plebiscito realizado em 2018, mas que foi retomada pelo Congresso em 2024.
A disputa presidencial e os principais nomes
No meio da vasta lista de 35 postulantes à presidência, a figura de Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, emerge como a líder nas pesquisas de intenção de voto, com aproximadamente 15%. Apesar de sua liderança, o teto de votos e a alta rejeição popular têm sido obstáculos significativos em suas campanhas anteriores. Keiko já disputou e perdeu o segundo turno das últimas três eleições presidenciais (em 2011, 2016 e 2021), o que adiciona uma camada de mistério sobre sua capacidade de, finalmente, romper essa barreira. O segundo turno está previsto para 7 de junho, e a grande incógnita reside em quem a acompanhará nesta fase decisiva, uma vez que as pesquisas indicam um enorme empate técnico entre os demais candidatos, sem um favorito claro para a segunda vaga. Houve, inclusive, um 36º candidato que faleceu em um acidente de carro durante a campanha, sublinhando a intensidade e, por vezes, a tragédia da corrida eleitoral.
Repercussões geopolíticas: China, EUA e o futuro do Peru
Além das questões domésticas, a eleição peruana carrega implicações significativas no cenário geopolítico global, especialmente no que tange à disputa comercial e de influência entre a China e os Estados Unidos na América Latina. Especialistas apontam que o resultado pode inclinar a balança para um dos lados, afetando as alianças e o fluxo comercial da região.
O impacto da eleição na dinâmica global
Gustavo Menon, professor de pós-graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Católica de Brasília (UCB), destaca a relevância estratégica da eleição. Segundo Menon, “essa eleição é decisiva do ponto de vista das correntes políticas da direita para conter esse avanço chinês no fluxo comercial com diferentes países na América do Sul”. O professor ressalta que o comércio chinês, em particular através do porto de Chancay, no Peru, tem fortalecido cada vez mais as conexões do país andino com as correntes comerciais da Ásia e do Pacífico. Ao mesmo tempo, Menon observa as sinalizações de Keiko Fujimori para uma maior aproximação com os Estados Unidos, ecoando a política de Washington de entender a América Latina como uma região de sua histórica influência. Essa dinâmica se insere na estratégia americana de firmar acordos militares e comerciais com países latino-americanos alinhados, na tentativa de mitigar a crescente presença comercial chinesa.
Outros candidatos em destaque
No espectro da direita, além de Keiko Fujimori, o empresário Rafael López Aliaga, conhecido como “Porky”, ganhou notoriedade. Ex-prefeito de Lima, Aliaga é frequentemente comparado a figuras como Donald Trump ou o presidente argentino Javier Milei, por sua retórica ultraconservadora e sua defesa radical do livre mercado. Outro nome que se destaca nesse campo é o humorista Carlos Álvarez. O campo da esquerda, por sua vez, apresenta-se ainda mais fragmentado, com os candidatos pontuando em torno de 5% das intenções de voto. Entre eles, Roberto Sánchez, deputado que recebeu o apoio do ex-presidente Pedro Castillo e foi seu ministro do Comércio Exterior e Turismo, é um dos nomes. O partido que elegeu Castillo, o Peru Livre, apresentou Vladimir Cerrón, que rompeu com o ex-presidente no início de seu mandato. Outras figuras proeminentes nesse campo incluem Ricardo Belmont, que foi prefeito de Lima entre 1990 e 1995, e o economista Alfonso López-Chau, ex-diretor do Banco Central entre 2006 e 2012. Dada a margem de erro das pesquisas, o resultado final da eleição presidencial permanece uma grande incógnita, o que, conforme avalia o professor Gustavo Menon, “o risco é que essa fragmentação política inviabilize, em grande medida, a governabilidade do novo presidente que está para ser eleito. Podemos apenas cravar que, para o segundo turno, pode ir qualquer um.”
A persistente crise política e seus desdobramentos
A eleição de 2021, que alçou Pedro Castillo, um professor rural de centro-esquerda, à presidência, foi uma surpresa eleitoral, pois ele não figurava entre os favoritos. Contudo, seu mandato foi curto e tumultuado. Castillo acabou afastado e preso após uma tentativa de dissolver o Parlamento, sendo posteriormente condenado, em novembro de 2025, a mais de 11 anos de prisão por “rebelião”. Em seu lugar, assumiu a vice-presidente Dina Boluarte, cujo governo foi marcado pela violenta repressão às manifestações contra a destituição de Castillo, resultando na morte de 49 pessoas, conforme dados da Anistia Internacional. Com baixíssima aprovação popular, Boluarte foi, por sua vez, destituída pelo Congresso em 10 de outubro de 2025.
A sucessão de líderes interinos continuou com a assunção de José Jerí, então presidente do Parlamento peruano, cuja gestão também foi breve. Em 17 de fevereiro do mesmo ano, o Congresso destituiu Jerí, e o cargo foi ocupado interinamente por José María Balcázar Zelada, eleito indiretamente pelo poderoso Parlamento peruano, frequentemente apontado como o verdadeiro poder de fato no país andino. Essa sucessão vertiginosa de presidentes reflete a profunda instabilidade e a polarização que fragmentam a política peruana, tornando a governabilidade um desafio hercúleo para qualquer que seja o próximo líder eleito. O novo presidente enfrentará o árduo trabalho de unificar um país profundamente dividido, reconstruir a confiança nas instituições democráticas e estabilizar a economia, tudo isso sob o olhar atento de uma população exausta pela crise. A capacidade de um governo de coalizão, ou mesmo de um governo minoritário, de obter apoio suficiente para implementar reformas e lidar com as demandas sociais e econômicas será crucial para determinar se o Peru conseguirá, finalmente, encontrar um caminho para a estabilidade.
Perguntas frequentes sobre a eleição peruana
Quantos presidentes o Peru teve nos últimos 10 anos?
O Peru teve dez presidentes nos últimos dez anos, um reflexo da intensa crise política marcada por renúncias e processos de impeachment que têm afetado a estabilidade institucional do país andino.
Qual a importância do porto de Chancay no contexto geopolítico?
O porto de Chancay é strategicamente vital porque fortalece as conexões comerciais do Peru com a Ásia e o Pacífico, inserindo o país mais profundamente na rede de comércio chinesa. Sua expansão tem sido observada de perto pelos Estados Unidos, que veem a crescente influência da China na América Latina como um ponto de contenção em sua própria política externa.
Quem são os principais candidatos no segundo turno?
Keiko Fujimori lidera as pesquisas e é a candidata mais provável a alcançar o segundo turno. No entanto, o segundo nome que a acompanharia é uma grande incógnita, dada a fragmentação do voto e o empate técnico entre os demais candidatos, tanto da direita quanto da esquerda.
Acompanhe os desdobramentos desta eleição crucial para entender o futuro político e econômico do Peru e suas implicações para a América Latina.
