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O bebê reborn e a ilusão de um amor sem falta: um olhar simbólico e psicanalítico

Em abril de 2025, uma influenciadora brasileira viralizou ao comemorar o “aniversário” de sua bebê reborn, Martina. Com direito a bolo, decoração e convidados, a festa parecia real — mas a bebê era uma boneca. Em outro caso, uma adolescente de 17 anos levou sua reborn ao hospital, simulando uma consulta. O vídeo no TikTok teve milhões de visualizações. Esses episódios, que à primeira vista podem parecer inofensivos ou até curiosos, revelam algo mais profundo: a tentativa de preencher vazios emocionais com uma presença que imita a vida.

Para Freud, o desejo humano nasce da falta. Desde a infância, vivemos o desamparo e passamos a vida buscando alguém que nos devolva a sensação de plenitude. O bebê reborn pode ocupar o lugar de algo perdido: um filho que não veio, um amor que se foi, um ideal de maternidade que não se realizou. E por ser uma boneca, ela não frustra, não exige, não rejeita. Representa um amor absoluto — mas só dentro da fantasia.
Lacan aprofunda essa leitura. Para ele, somos marcados pela linguagem e pela ausência. Há uma falta estrutural no sujeito que nenhum objeto ou pessoa pode preencher de forma definitiva. O bebê reborn pode funcionar como o que ele chama de “objeto a” — uma coisa que parece completar, mas que nunca de fato completa. Quando esse apego se intensifica, não é mais desejo: é gozo. E o gozo, em Lacan, é um prazer que ultrapassa o limite, que paralisa, que pode sufocar.
Jung também oferece um olhar simbólico. Para ele, o bebê representa o início da jornada, o Self em sua forma mais pura. Cuidar de uma reborn pode ser uma tentativa inconsciente de se reconectar com partes perdidas de si. Mas se isso se transforma em fixação, o símbolo se fecha sobre si mesmo. A imagem que deveria guiar à individuação passa a travar o processo.
É em O Banquete, de Platão, que encontramos uma chave para entender o drama do amor idealizado. Diotima ensina a Sócrates que o amor nasce da união entre Poros (recurso) e Penia (carência). Amar é desejar o que não se tem. Quando confundimos amor com posse — seja de um bebê real ou de um substituto — negamos a essência de Eros, que é movimento, elevação, transformação. O amor estagnado em um objeto fixo não nos impulsiona; apenas nos repete.
Nada disso deve servir para condenar quem vive esses vínculos. Ao contrário: são expressões legítimas de dor, de ausência, de histórias mal resolvidas. O que a psicanálise propõe não é tirar o boneco dos braços de quem o segura, mas escutar com seriedade o que esse silêncio representa. E talvez, a partir daí, transformar o objeto de apego em símbolo de algo que pode ser ressignificado — não como substituto do real, mas como ponto de partida para o desejo.

Porque, no fim, não é o que falta que mais machuca. É o que tenta — sem sucesso — preencher tudo.

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