A luta incessante pela verdade, memória e justiça em relação aos crimes da ditadura militar brasileira continua a ecoar através da voz de Victória Grabois. Aos 82 anos, ela personifica a resiliência de quem se recusa a aceitar o silenciamento, mesmo após mais de cinco décadas. Victória perdeu seu pai, Maurício, seu irmão, André, e seu marido, Gilberto Olímpio, todos brutalmente assassinados por agentes do Estado em 1973, na região da Serra do Araguaia. A recente entrega de atestados de óbito retificados, incluindo o de seu pai, marca um passo significativo, mas insuficiente, em sua busca por respostas definitivas sobre o destino dos que foram tirados de sua família.

A persistência na busca pela verdade e memória

A dor pessoal e a motivação inabalável de Victória Grabois

Victória Grabois é uma figura central na preservação da memória dos mortos e desaparecidos políticos do Brasil. Sua história é marcada por uma tragédia profunda e pessoal. Seu pai, Maurício Grabois, foi um deputado constituinte em 1946 e uma figura proeminente na oposição ao regime de exceção. Ao lado de seu filho André e de seu genro Gilberto Olímpio, Maurício foi vítima da repressão estatal durante a Guerrilha do Araguaia, um dos capítulos mais sombrios da história brasileira. Todos foram assassinados por agentes do Estado em 1973, e seus corpos jamais foram devolvidos às famílias, perpetuando uma dor e uma incerteza que perduram até hoje.

Apesar dos 53 anos que separam o presente daquelas perdas irreparáveis, Victória mantém-se firme em seu compromisso. “Não posso parar e faço tudo o que eu puder fazer para divulgar a memória e acabar com o silenciamento”, declara a ativista. Essa determinação é a força motriz por trás de seu engajamento em movimentos como o Tortura Nunca Mais, do qual é uma das fundadoras. Embora reconheça que as esperanças de saber exatamente o que aconteceu com seus familiares sejam tênues, ela insiste que a luta pela verdade e contra o esquecimento é um imperativo moral. Victória conviveu com seu pai, que ela descreve como “um grande homem” e “um homem de princípios”, até seus 29 anos, e carrega consigo a lembrança de um pai que “deu o seu bem maior, a vida, e levou o seu filho junto, em prol da liberdade do Brasil e da democracia”. A provável data da morte de Maurício e André, 25 de dezembro de 1973, adiciona uma camada de amargura a uma data que deveria ser de celebração.

O reconhecimento oficial e os desafios remanescentes

A retificação dos atestados de óbito e seus significados

Um evento marcante na luta pela reparação histórica ocorreu com a entrega de 27 atestados de óbito retificados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Entre os documentos, o atestado de Maurício Grabois, que era baiano, foi um dos destaques. A retificação mais significativa é a alteração da causa da morte, que agora oficialmente declara “ação violenta do Estado”, substituindo as versões anteriores que frequentemente disfarçavam a responsabilidade estatal ou omitiam detalhes cruciais. Essa mudança não é apenas burocrática; ela representa um reconhecimento oficial da verdade histórica, um passo fundamental na desconstrução da narrativa imposta pelo regime autoritário.

Victória Grabois, que reside no Rio de Janeiro, não pôde comparecer ao evento em Salvador, mas sua mensagem é clara: a retificação dos atumentos, embora bem-vinda, é apenas o começo. Ela exige que o Estado vá além, investigando profundamente o que ocorreu com as vítimas da ditadura. Além de Maurício Grabois, outras figuras emblemáticas da resistência, cujas histórias foram imortalizadas em filmes e livros, como Carlos Lamarca e Stuart Edgar Angel Jones (filho da estilista Zuzu Angel), também tiveram seus atestados retificados. A lista de nomes abrangia ainda Antônio Carlos Monteiro Teixeira, Célio Augusto Guedes, Dinaelza Santana Coqueiro, Dinalva Oliveira Teixeira, Eduardo Collier Filho, Esmeraldina Carvalho Cunha, Inocêncio Pereira Alves, Israel Tavares Roque, Joel Vasconcelos Santos, Jorge Leal Gonçalves Pereira, José Campos Barrêto, José Maurílio Patrício, Luiz Antônio Santa Barbara, Mário Alves de Souza Vieira, Nilda Carvalho Cunha, Otoniel Campos Barreto, Pedro Domiense de Oliveira, Péricles Gusmão Régis, Rosalindo Sousa, Sergio Landulfo Furtado, Uirassú de Assis Batista, Vandick Reidner Pereira Coqueiro, e Vitorino Alves Moitinho e Walter Ribeiro Novaes. A entrega solene desses documentos carrega um peso simbólico imenso para as famílias, embora a ausência dos corpos e das respostas definitivas ainda seja uma ferida aberta.

A luta contínua por justiça e a abertura dos arquivos

Para Eugênia Gonzaga, presidente da comissão de mortos e desaparecidos, a retificação das certidões de óbito tornou-se a medida de reparação mais importante e bem-sucedida. A comissão almeja realizar as 434 retificações pendentes para todas as famílias, idealmente em ocasiões solenes acompanhadas de um pedido formal de desculpas por parte do Estado. No entanto, Eugênia expressa profunda crítica à persistente recusa das Forças Armadas em abrir completamente seus arquivos. Apesar de muitos documentos terem sido revelados e estarem em arquivos públicos, a versão definitiva sobre as circunstâncias de muitas mortes e os locais de sepultamento dos corpos ainda não foi fornecida.

Essa falha é vista como uma lacuna grave no sistema de justiça brasileiro. A ausência de respostas definitivas para as famílias de mortos e desaparecidos políticos impede o fechamento de um ciclo de luto e justiça. A plena abertura dos arquivos é crucial não apenas para desvendar os fatos do passado, mas também para garantir que tais violações nunca mais se repitam. A pressão para que o Estado cumpra sua obrigação de investigar e revelar a verdade sobre todos os crimes da ditadura permanece um pilar central na agenda dos movimentos de direitos humanos.

O impacto da arte e do ativismo na conscientização

A influência do cinema e a ressonância do movimento “Tortura Nunca Mais”

A conscientização sobre a ditadura militar e suas atrocidades tem recebido um novo impulso através da arte. Victória Grabois destaca a importância dos últimos filmes brasileiros que participaram do Oscar e abordaram o tema da ditadura. Para ela, essas produções foram fundamentais para “furar a bolha” e permitir que um público mais amplo compreendesse melhor o período de opressão que o Brasil viveu. Ela observa que, graças a esses filmes, escolas e jovens demonstraram um interesse renovado em aprender sobre a história, muitos conhecendo as violações apenas recentemente. A Guerrilha do Araguaia, por exemplo, antes um tema restrito a círculos acadêmicos ou de ativistas, passou a ser um fato histórico mais conhecido e discutido.

Paralelamente ao impacto cultural, o movimento Tortura Nunca Mais continua seu trabalho incansável de memória e reconhecimento. Em uma cerimônia recente, o movimento homenageou defensores dos direitos humanos com a medalha “Chico Mendes”, uma tradição que se mantém há 38 anos como contraponto à medalha do Pacificador, do Exército. Neste ano, a honraria lembrou figuras históricas como o guerrilheiro Francisco Manuel Chaves, desaparecido no Araguaia, e a socióloga Yara Yavelberg, também assassinada por agentes do Estado. A homenagem se estendeu a defensores dos direitos humanos contemporâneos, como as mães que perderam filhos para a violência policial, entre elas a ativista Solange de Oliveira, fundadora do Movimento Mães em Luto da Zona Leste, em São Paulo. Essa conexão entre as violações do passado e as do presente é crucial, como enfatiza Victória Grabois: “Lembramos das violações que foram cometidas no passado e no presente e de pessoas que lutam contra”. A ressonância desses movimentos e manifestações artísticas é vital para manter a memória viva e fortalecer a luta contínua por um país que respeite plenamente os direitos humanos.

O legado de uma luta inabalável

A trajetória de Victória Grabois, assim como a de tantos outros familiares de vítimas da ditadura, é um testemunho da incansável busca por justiça e memória. A retificação dos atestados de óbito representa um avanço simbólico e legal, mas a plena reparação e a verdade integral sobre o que aconteceu naqueles anos sombrios ainda são metas a serem alcançadas. A recusa em abrir os arquivos militares e a ausência de respostas definitivas sobre o paradeiro dos desaparecidos continuam a ser um entrave para a completa reconciliação nacional. No entanto, o ativismo, a educação e a arte provam ser ferramentas poderosas para manter acesa a chama da verdade, garantindo que as futuras gerações compreendam a importância de defender a democracia e os direitos humanos contra qualquer forma de autoritarismo. A voz de Victória, assim como a de muitos, seguirá ecoando, exigindo que o passado seja confrontado com honestidade para que o presente seja justo e o futuro, livre.

Perguntas frequentes

1. Quem é Victória Grabois e qual a sua importância na luta contra a ditadura?
Victória Grabois é uma professora e ativista, cofundadora do movimento Tortura Nunca Mais. Ela é uma figura central na luta pela memória e justiça dos mortos e desaparecidos políticos, tendo perdido seu pai, irmão e marido na Guerrilha do Araguaia, em 1973, assassinados por agentes do Estado. Sua importância reside na persistência em divulgar a verdade e combater o silenciamento.

2. O que significa a retificação dos atestados de óbito para as famílias das vítimas da ditadura?
A retificação dos atestados de óbito, alterando a causa da morte para “ação violenta do Estado”, representa um reconhecimento oficial da responsabilidade do Estado nas mortes ocorridas durante a ditadura militar. Para as famílias, é um passo crucial no processo de reparação histórica e na busca pela verdade, embora não substitua a necessidade de encontrar os corpos ou obter todas as respostas sobre as circunstâncias dos crimes.

3. Quais são os principais desafios atuais na busca por justiça e memória sobre a ditadura militar?
Os principais desafios incluem a persistente recusa das Forças Armadas em abrir completamente seus arquivos, o que impede a obtenção de respostas definitivas sobre as circunstâncias das mortes e os locais de sepultamento dos desaparecidos. Além disso, há a necessidade de garantir que todas as famílias recebam as devidas reparações e que o Estado promova uma investigação aprofundada, acompanhada de um pedido formal de desculpas, para fechar esse capítulo da história.

A história da ditadura não é apenas um registro do passado, mas um lembrete constante da vigilância necessária para a preservação da democracia. Conheça mais sobre os movimentos de direitos humanos e apoie as iniciativas que buscam a verdade e a justiça para que atrocidades como as do regime militar nunca mais se repitam no Brasil.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Compartilhar.
Deixe Uma Resposta

Olá vamos conversar!