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Morre ogan Bangbala, o mais antigo do Brasil e guardião da tradição

© Milana Trindade/Divulgação

O candomblé e a cultura afro-brasileira estão de luto com a partida de Luiz Ângelo da Silva, conhecido carinhosamente como ogan Bangbala, que faleceu na noite do último domingo (15) no Rio de Janeiro, aos 106 anos de idade. Reconhecido como o ogan mais antigo do Brasil, com mais de oito décadas de dedicação à sua função religiosa, sua morte representa uma perda imensurável para a comunidade. O sepultamento de ogan Bangbala ocorreu na tarde desta terça-feira (17) no Cemitério Jardim Mesquita, localizado na Baixada Fluminense, reunindo devotos, familiares e admiradores para o último adeus a uma das figuras mais emblemáticas e respeitadas do candomblé. Sua vida foi um testemunho vibrante da fé, da resiliência e da riqueza das tradições ancestrais africanas em solo brasileiro, deixando um legado indelével para as futuras gerações.

A partida de um ícone da fé afro-brasileira

A notícia do falecimento de ogan Bangbala ressoou profundamente entre os praticantes e admiradores da cultura afro-brasileira. Luiz Ângelo da Silva estava internado no Hospital Municipal Salgado Filho, no Rio de Janeiro, desde o dia 31 de janeiro, tratando de uma infecção nos rins. Apesar dos esforços médicos, o quadro se agravou, culminando em seu falecimento no domingo, dia 15. Sua esposa, Maria Moreira, comunicou a perda através das redes sociais, expressando a profunda dor e o vazio deixado pela ausência do esposo e mestre.

Os últimos dias e o adeus no cemitério jardim mesquita

Em sua emotiva mensagem, Maria Moreira escreveu: “Hoje o candomblé perdeu uma das figuras mais importantes, o Comendador Ogan Bangbala, o mais velho ogan do Brasil, o mestre dos mestres. Meu coração sangra de tanta dor, vá em paz meu amor, meu orgulho, meu mestre”. As palavras de sua viúva ressaltam não apenas o amor pessoal, mas o reconhecimento público da magnitude de sua figura. A cerimônia de sepultamento, realizada no Cemitério Jardim Mesquita, na Baixada Fluminense, foi um momento de profunda comoção e reverência. Amigos, familiares e membros da comunidade do candomblé se reuniram para prestar as últimas homenagens ao homem que dedicou sua longa vida à preservação e propagação das tradições africanas no Brasil, deixando um vazio que será difícil de preencher. A despedida marcou o fim de uma era, mas consolidou a memória de ogan Bangbala como um eterno guardião da fé.

Uma vida dedicada ao candomblé e à cultura

Nascido em 21 de junho de 1919, na cidade de Salvador, Bahia, Luiz Ângelo da Silva iniciou sua jornada no candomblé em sua terra natal. Ainda jovem, assumiu a função de ogan, um papel de extrema importância nas cerimônias da religião. Como ogan, Bangbala era o responsável por tocar os atabaques, instrumentos sagrados, e por comandar o ritmo que convoca e saúda os orixás, sendo o coração musical e rítmico de cada celebração. Sua habilidade e profundo conhecimento dos toques e cânticos o tornaram um mestre reverenciado, cujos ensinamentos e performances moldaram gerações de praticantes.

Da iniciação em salvador à fundação dos filhos de gandhy no rio

Ainda na juventude, ogan Bangbala se mudou para Belford Roxo, na Baixada Fluminense, onde estabeleceu suas raízes e viveu até seus últimos dias. No Rio de Janeiro, sua influência se expandiu para além das casas de candomblé. Ele foi um dos fundadores do afoxé Filhos de Gandhy no Rio de Janeiro, um bloco de carnaval de inspiração africana que celebra a paz e a cultura iorubá. Além disso, seu talento e dedicação à música sacra africana o levaram a gravar dezenas de álbuns de cânticos de candomblé, todos interpretados na língua iorubá, preservando e difundindo um patrimônio cultural e religioso de valor inestimável. Sua voz e os ritmos de seus atabaques atravessaram fronteiras, alcançando e inspirando pessoas dentro e fora da comunidade religiosa.

Reconhecimento e homenagens: do mérito cultural à escola de samba

A grandiosidade da trajetória de ogan Bangbala foi reconhecida em diversas esferas. Em 2014, ele recebeu a prestigiosa Ordem do Mérito Cultural, uma condecoração concedida pela Presidência da República que destaca personalidades e instituições que contribuem significativamente para a cultura brasileira. Sua contribuição também foi celebrada no universo do samba, sendo homenageado pela escola de samba Unidos do Cabuçu em 2020. Em 2024, sua vida e legado foram tema de uma exposição organizada pelo Centro Cultural Correios, reafirmando sua importância como um pilar da identidade afro-brasileira.

O babalorixá Ivanir dos Santos, outra voz proeminente no candomblé, definiu ogan Bangbala como “o grande griot das nossas tradições, não só dos ritos dos orixás, mas também dos ritos fúnebres”. O termo “griot” refere-se, nas culturas da África Ocidental, às pessoas que são guardiãs das memórias, contadores de histórias, genealogistas e conselheiros, transmitindo oralmente o conhecimento e a história de seus povos. “Ele nos deixou, mas vai sempre continuar presente aos nossos afazeres, no dia-a-dia dessas práticas. Agora ele também é um ancestral nosso. Que continua nos iluminando e sendo presente nas nossas ações dentro das casas de candomblé, dos blocos afros, dentro dessa cultura tão vasta que marca a identidade do povo afro-brasileiro”, complementou Santos, evidenciando que o legado de ogan Bangbala transcende sua existência física, tornando-o um guia espiritual e cultural para a comunidade.

Legado eterno e a continuidade da tradição

A partida de ogan Bangbala, aos 106 anos, encerra um capítulo de uma vida extraordinariamente rica e dedicada. Contudo, seu espírito e sua inestimável contribuição para o candomblé e a cultura afro-brasileira permanecem vivos. Ele não foi apenas um ogan; foi um guardião, um mestre, um historiador vivo que carregava em si a memória e a essência de uma herança ancestral. Seu trabalho na fundação do Afoxé Filhos de Gandhy, suas gravações e os inúmeros ritos que conduziu deixam um material riquíssimo para as futuras gerações. Ogan Bangbala se consolida como um ancestral, cujo exemplo e ensinamentos continuarão a iluminar os caminhos de todos aqueles que buscam manter viva a chama da fé e da cultura afro-brasileira, reforçando a importância da tradição e da resiliência cultural no cenário nacional.

Perguntas frequentes sobre ogan bangbala

Quem foi ogan Bangbala e qual a sua importância?
Ogan Bangbala, cujo nome de batismo era Luiz Ângelo da Silva, foi o ogan mais antigo do Brasil, falecendo aos 106 anos. Ele foi uma figura central no candomblé e na cultura afro-brasileira, conhecido por sua dedicação de mais de oito décadas à religião, sendo um guardião das tradições, ritmos e cânticos ancestrais.

Qual era a função de ogan Bangbala no candomblé?
Como ogan, Bangbala tinha a importante função de tocar os atabaques sagrados durante as cerimônias de candomblé. Ele era responsável por comandar o ritmo dos ritos, o que inclui a invocação e saudação dos orixás, sendo essencial para a condução das celebrações e a manutenção da espiritualidade.

Quais foram as principais homenagens e reconhecimentos que ele recebeu?
Ogan Bangbala recebeu a Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República em 2014. Ele também foi homenageado pela escola de samba Unidos do Cabuçu em 2020 e teve sua vida e obra tema de uma exposição no Centro Cultural Correios em 2024, demonstrando seu vasto reconhecimento cultural.

Para aprofundar-se na rica tapeçaria da cultura afro-brasileira e nas tradições que ogan Bangbala tanto defendeu, explore mais sobre o candomblé e seus guardiões.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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