Pela primeira vez em quase três décadas, a chamada “Cracolândia” deixou de existir como um problema estrutural no centro da capital paulista. O cenário que por anos simbolizou abandono, criminalidade e exclusão social foi desmobilizado a partir de um amplo conjunto de ações integradas lideradas pelo Governo do Estado de São Paulo, em parceria com a Prefeitura, reunindo segurança pública, saúde, assistência social, requalificação urbana e desenvolvimento econômico.
O avanço considerado histórico foi resultado direto do enfrentamento ao ecossistema do crime organizado que sustentava o tráfico de drogas na região, aliado à ampliação inédita dos serviços de cuidado, tratamento e acolhimento a dependentes químicos. Um dos principais marcos desse processo foi a desocupação total da Rua dos Protestantes, em 10 de maio de 2025, encerrando definitivamente o fluxo que por anos se deslocava entre vias como Helvétia, Dino Bueno, Alameda Cleveland e a Praça Princesa Isabel.
Desde 2023, o Estado estruturou uma nova Política Estadual sobre Drogas, com foco em tratamento, reinserção social, redução da oferta de drogas e requalificação das cenas abertas de uso. Dentro desse eixo, o Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas superou a marca de 30 mil encaminhamentos para tratamento em menos de três anos. Ao todo, foram entregues 13 complexos com 52 Casas Terapêuticas e dez unidades do Espaço Prevenir na Grande São Paulo e no interior, totalizando mais de 42,2 mil atendimentos.
De acordo com o vice-governador Felicio Ramuth, a superação da Cracolândia representa a prova de que é possível unir segurança pública e cuidado social. Ele destacou que milhares de pessoas receberam atendimento humanizado, com acompanhamento em saúde e assistência social, ao mesmo tempo em que foi desarticulada a estrutura criminosa que operava no território há décadas.
Investigações da Polícia Civil revelaram que hotéis, pensões e ferros-velhos funcionavam como centros logísticos do tráfico, envolvendo armazenamento de drogas, lavagem de dinheiro e movimentações financeiras milionárias incompatíveis com o perfil dos frequentadores. A partir desse diagnóstico, operações como Downtown e Salut Et Dignitas foram deflagradas para atingir diretamente o crime organizado e milícias envolvidas em exploração sexual, receptação e outros delitos.
A Polícia Militar teve papel decisivo nesse processo, especialmente após a qualificação dos frequentadores da região, o que permitiu diferenciar dependentes químicos que precisavam de tratamento daqueles envolvidos diretamente em práticas criminosas. O patrulhamento passou a atuar de forma integrada com equipes de saúde e assistência social, contando ainda com o apoio das câmeras do programa Muralha Paulista, que ampliaram a identificação de foragidos e criminosos que antes se escondiam em meio à multidão.
No campo da saúde pública, houve ampliação expressiva dos atendimentos. O Consultório na Rua Redenção, o Serviço Especializado de Abordagem Social e os núcleos do Programa Redenção elevaram em 29% os atendimentos entre 2023 e 2024. O Hub de Cuidados passou a concentrar triagem, acompanhamento médico, atendimento psicossocial, grupos terapêuticos e encaminhamentos hospitalares para desintoxicação.
A rede de acolhimento da Secretaria de Desenvolvimento Social também foi fortalecida, oferecendo uma jornada completa de proteção social que inclui Casas de Passagem, Casas Terapêuticas, acolhimento comunitário, repúblicas e Espaços Prevenir. Entre 2023 e 2025, somente Casas de Passagem e Casas Terapêuticas somaram mais de 10 mil acolhimentos, enquanto toda a rede registrou 27,7 mil até setembro de 2025.
As Casas Terapêuticas se consolidaram como um dos pilares do tratamento humanizado, organizadas em quatro fases — Acolher, Despertar, Transformar e Caminhar — com foco na reconstrução da autonomia, reinserção educacional e estímulo ao emprego e à geração de renda. Histórias de superação passaram a simbolizar o impacto das políticas públicas, como a de um ex-morador de rua que viveu 17 anos na cena aberta de uso, hoje próximo de concluir o tratamento, com emprego formal, retomada dos laços familiares e moradia própria.
Paralelamente, o Governo do Estado avançou em políticas estruturantes de moradia e requalificação urbana. Por meio da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano, 744 famílias já deixaram a Favela do Moinho até dezembro, representando cerca de 90% das adesões voluntárias ao plano de reassentamento. Ao todo, 776 famílias já selecionaram suas unidades habitacionais, garantindo dignidade e segurança a moradores que viviam em condições insalubres e de alto risco.
Outro projeto estratégico é a construção do Novo Centro Administrativo nos Campos Elíseos, que reunirá secretarias e órgãos estaduais em um complexo com sete edifícios e dez torres, com capacidade para cerca de 22 mil servidores. Além de modernizar a gestão pública, o empreendimento prevê equipamentos culturais, espaços de convivência e áreas comerciais, fortalecendo a economia local e a ocupação qualificada do centro.
O plano de requalificação inclui ainda o restauro de 17 imóveis tombados, a ampliação em mais de 40% das áreas verdes do Parque Princesa Isabel e a criação de 25 mil metros quadrados destinados a comércio e serviços. Somadas a outros investimentos estratégicos — como obras viárias, habitação, saneamento, saúde, educação e segurança — as ações consolidam um novo ciclo de transformação urbana e social.
Com resultados antes considerados impossíveis, o Governo de São Paulo afirma que o fim da Cracolândia simboliza não apenas a recuperação de um território, mas a reconstrução de vidas, reafirmando que políticas públicas integradas, coragem administrativa e foco na dignidade humana são capazes de mudar realidades históricas.
