Um levantamento recente do Censo 2022 expõe a dura realidade enfrentada por moradores de favelas e comunidades em Campinas, no interior de São Paulo. O estudo, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela a carência de serviços básicos e infraestrutura no entorno de seus domicílios.
Os dados mostram que a maioria esmagadora dos residentes dessas áreas enfrenta dificuldades diárias. Quase 90% (124,7 mil pessoas) não têm acesso a um ponto de ônibus próximo de suas casas, dificultando o deslocamento para o trabalho, estudo ou lazer. A ausência de saneamento básico é outro problema grave, com mais de 62% (86.961 pessoas) sem acesso a bueiros ou bocas de lobo, aumentando o risco de doenças e alagamentos.
A falta de pavimentação afeta quase metade dos moradores (65.599 pessoas), tornando o trânsito difícil e perigoso, principalmente em dias de chuva. A ausência de calçadas (60.372 pessoas) também compromete a segurança dos pedestres, que são forçados a dividir o espaço com veículos. Mais de um terço (50.992 pessoas) não tem acesso à arborização, o que contribui para o aumento da temperatura e a piora da qualidade do ar. E 15,2% (21.266 pessoas) sofrem com a falta de iluminação pública, o que aumenta a sensação de insegurança, especialmente à noite.
Em Campinas, existem 118 favelas e comunidades urbanas, onde vivem 140,7 mil pessoas, representando 12,3% da população total. O IBGE identificou 49,6 mil domicílios nessas áreas, com uma predominância de moradores pretos e pardos (66,6%).
A falta de infraestrutura afeta diretamente a qualidade de vida dos moradores. A líder comunitária do Jardim Rosália IV, Ana Paula Veronezzi, relata que, apesar de terem conquistado uma linha de ônibus, ainda faltam asfalto, calçada, rede de esgoto e iluminação. Ela descreve a sensação de abandono e a dificuldade de acesso a serviços essenciais, como coleta de lixo e entrega de correspondências.
No Jardim Novo Flamboyant, conhecido como Buraco do Sapo, a situação não é diferente. Ruas estreitas, falta de calçadas, rede de esgoto inexistente e fiação elétrica irregular são problemas que afetam o dia a dia dos moradores. A dona de casa Vilma Maciel, que vive no local há 35 anos, reclama da falta de legalização da energia elétrica e da precariedade da infraestrutura.
Para a pesquisadora Camilla Marcondes Massaro, do Observatório da PUC-Campinas, é fundamental que o poder público mapeie esses espaços irregulares e providencie a regularização. No entanto, ela ressalta que a regularização sozinha não é suficiente para garantir infraestrutura e qualidade de vida. É preciso que as políticas públicas sejam pensadas de forma integrada.
A CPFL informou que a regularização das ligações de energia do Jardim Novo Flamboyant depende de uma adequação urbanística pela prefeitura. Já a Prefeitura de Campinas afirmou que, pela legislação, é necessário um plano de regularização fundiária para realizar obras de infraestrutura em núcleos residenciais. A administração municipal informou ainda que, desde 2021, regularizou 141 núcleos com quase 21,5 mil imóveis e que outros 1,2 mil estão em fase final de liberação nos cartórios. Sobre as ruas estreitas, a prefeitura explicou que as áreas podem contar com linhas de ônibus que ficam próximas e que está implantando microflorestas para combater o calor e melhorar a qualidade do ar.
Fonte: g1.globo.com
