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Caru Brandi exibe cultura trans em mostra pioneira no Rio de Janeiro

© Gabriela Puchineli/Divulgação 

A cidade do Rio de Janeiro recebe, pela primeira vez, uma exposição individual do artista gaúcho transmasculino não-binário Caru Brandi. Intitulada “Fabulações transviadas de Caru Brandi”, a mostra estará em cartaz até 22 de abril no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), localizado no Catete. Esta iniciativa marca a abertura do calendário 2026 do programa Sala do Artista Popular (SAP) e representa um marco significativo para a visibilidade da cultura trans no cenário artístico carioca. Para o artista, a exposição é uma “abertura de caminhos” e uma importante conquista da comunidade trans, estabelecendo um precedente para futuras inclusões em instituições culturais. A entrada é gratuita, convidando o público a um mergulho em narrativas artísticas singulares.

A mostra pioneira e seu significado

Visibilidade e representatividade
A exposição de Caru Brandi no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular representa um momento histórico, sendo a primeira vez que um artista transmasculino não-binário ocupa individualmente o espaço. Caru Brandi manifestou grande satisfação com o que descreve como uma “abertura de caminhos”, celebrando a oportunidade de expor fora de Porto Alegre e, mais crucialmente, de ser pioneiro nesse renomado centro cultural carioca. O artista enfatizou a importância dessa conquista para a comunidade trans, expressando a esperança de que esta iniciativa se torne uma política contínua, não apenas no CNFCP, mas também em outras instituições do Rio de Janeiro. A mostra, com suas cerâmicas e pinturas, oferece um olhar sobre o conhecimento artístico a partir dos saberes trans, proporcionando um espaço vital para a representação e a educação do público sobre a diversidade de existências.

A jornada artística e pessoal de Caru Brandi

Da tatuagem à transição e a arte como encontro
Inicialmente, Caru Brandi explorava sua veia artística através da tatuagem e do desenho realista. Contudo, um ponto de virada significativo ocorreu a partir de 2018, em sintonia com seu processo de transição de gênero e o reconhecimento em outras pessoas transmasculinas e não-binárias. Esse período marcou uma transformação radical em sua criação, migrando do realismo para uma abordagem mais ficcional e lúdica. Para o artista, a pintura e o desenho tornaram-se um meio fundamental de conexão com essa comunidade, um verdadeiro “encontro”.

Apesar de ter concluído a faculdade de Direito em 2021, Caru Brandi optou por seguir o caminho da arte, percebendo uma profunda identificação de sua expressão com a transmasculinidade. Essa decisão, que ele considera um ato de coragem, consolidou sua preferência profissional. Desde 2024, ele cursa Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), buscando a profissionalização e o aprofundamento acadêmico. Em paralelo, atua como arte-educador na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, compartilhando seu conhecimento e experiência.

Mergulho na cultura trans e suas expressões

Performances e coletividade na abertura
A inauguração da exposição foi precedida por uma série de eventos que reforçaram seu caráter imersivo e participativo. O público teve a oportunidade de participar da oficina “Imaginários do barro”, uma vivência prática no universo da escultura em cerâmica, conduzida pelo próprio Caru Brandi. A abertura oficial contou com uma performance impactante dos artistas Maru e Kayodê Andrade, que celebraram a potência da cultura ballroom. Essa manifestação artística, nascida nos anos 70 entre a população LGBTQIA+, negra e latina nos Estados Unidos, é uma forma de resistência expressa através de intervenções, desfiles e dança.

Maru, um multiartista e performer transmasculino não-binário, e Kayodê Andrade, um modelo, ator, poeta, dublador e produtor cultural transmasculino de 25 anos, são figuras proeminentes na cena ballroom brasileira e em diversas frentes de arte e ativismo. Kayodê é também fundador do Coletivo TransMaromba, focado na saúde mental e física de transmasculinos. Caru Brandi enfatizou a importância de trazer esses artistas para a exposição, sublinhando o caráter coletivo de suas vivências e produções artísticas. Suas obras, embora baseadas em experiências pessoais, transcendem o individual para falar sobre a coletividade e as vivências trans, muitas vezes invisibilizadas. O artista reforça que a arte é um veículo para mostrar as diversas formas de ser trans, desmistificando a ideia de uma existência única.

Obras e o conceito de transmasculinidade e não-binaridade
A mostra “Fabulações transviadas” apresenta uma coleção de cerâmicas e pinturas de Caru Brandi, que exploram de maneira lúdica e crítica o processo de transição de gênero. As obras incluem peças do acervo pessoal do artista e outras criadas especificamente para a Sala do Artista Popular, buscando retratar a complexidade e a beleza das identidades trans. Todas as obras expostas estão disponíveis para venda.

Para facilitar a compreensão do público, o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular fornece definições essenciais. A transmasculinidade refere-se a indivíduos designados como gênero feminino ao nascer, mas que ao longo da vida se reconhecem como pertencentes ao gênero masculino, embora não necessariamente se identifiquem com a categoria “homem”. Já a não-binaridade descreve o não pertencimento ao binário de gênero homem ou mulher. A exposição, nesse contexto, atua como uma ação educacional vital, convidando as pessoas a conhecerem e compreenderem melhor a comunidade trans. A visitação é gratuita e aberta de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h.

O impacto institucional e a redefinição da arte popular

Pesquisa, patrimônio e a Sala do Artista Popular
O catálogo da exposição, com pesquisa e texto elaborados pelo antropólogo Patrick Monteiro do Nascimento Silva, oferece um aprofundamento conceitual sobre a obra de Caru Brandi. Patrick visitou o ateliê do artista em Porto Alegre, um espaço conquistado após o projeto colaborativo “Além-mundos: memórias do (in)imaginário2” desenvolvido na Casa Baka. Segundo o antropólogo, as obras desafiam dicotomias estabelecidas sobre o que é humano, natureza, homem e mulher, abraçando novas perspectivas na arte.

A exibição de uma mostra individual de um artista trans na Sala do Artista Popular é considerada por Patrick como um marco fundamental. Ele ressalta os esforços do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em pensar os patrimônios desse segmento da sociedade brasileira, exemplificado pela criação do Grupo de Trabalho LGBTQIAPN+ em 2025.

Rafael Barros, diretor do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, confirmou que esta é a primeira vez que o espaço recebe um artista trans. Ele descreveu o trabalho de Caru Brandi como “muito singular, muito expressivo”, especialmente em suas pinturas e cerâmicas, que, segundo ele, “tensionam, esgarçam, transbordam os limites e os contornos do conceito de arte e de cultura popular”. Essa abordagem tem levado o centro cultural a explorar novos horizontes e perspectivas, levantando questionamentos cruciais como: “O que é arte popular hoje?”, “Qual o lugar da arte popular e qual o lugar do artista popular?”.

Para Barros, a exposição também revela uma dimensão “extremamente maravilhosa”: a compreensão do universo trans, do “multiverso trans” e das diversas existências não-binárias e queer como “universos extremamente populares”. Este reconhecimento expande as fronteiras da arte e da cultura, promovendo uma visão mais inclusiva e contemporânea.

Perguntas frequentes (FAQ)

Qual é o principal objetivo da exposição “Fabulações transviadas”?
O principal objetivo é dar visibilidade à cultura trans e às vivências transmasculinas não-binárias através da arte de Caru Brandi, promovendo a abertura de caminhos para artistas trans em instituições culturais e funcionando como uma ação educacional para o público.

Até quando e onde a exposição pode ser visitada?
A exposição “Fabulações transviadas de Caru Brandi” pode ser visitada até 22 de abril no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), no Catete, Rio de Janeiro.

A entrada para a exposição é gratuita?
Sim, a entrada para a exposição é totalmente gratuita.

Quais tipos de obras são apresentadas na mostra?
A mostra exibe cerâmicas e pinturas de Caru Brandi, que retratam de forma lúdica e crítica a transição de gênero, incluindo obras do acervo do artista e outras criadas para o espaço.

Qual a importância da presença de artistas transmasculinos e não-binários neste espaço cultural?
É a primeira vez que o CNFCP recebe um artista trans individualmente, o que significa um marco de representatividade e inclusão, abrindo espaço para um olhar sobre o conhecimento artístico a partir dos saberes trans e ampliando a definição de arte popular.

Convidamos você a visitar “Fabulações transviadas de Caru Brandi” no CNFCP/Iphan e mergulhar em uma experiência artística que celebra a diversidade e convida à reflexão sobre as múltiplas facetas da cultura e identidade trans no Brasil. Não perca esta oportunidade de vivenciar arte que inspira e educa.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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