Um levantamento recente, lançado nesta quinta-feira (5), revela uma realidade alarmante no Brasil: sete em cada dez mulheres afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio moral ou sexual. Os dados destacam que a ocorrência desses atos se dá predominantemente em ruas e espaços públicos, mas se estende a diversos ambientes do cotidiano feminino. O estudo abrangeu 3,5 mil pessoas, com foco especial nas percepções e experiências de 2.066 mulheres, em um levantamento realizado em dezembro em 10 das maiores capitais brasileiras: Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. A pesquisa sublinha a persistência do assédio contra mulheres como um problema estrutural que limita a liberdade e o direito à cidade para uma parcela significativa da população feminina, apesar de pequenas variações em relação a levantamentos anteriores.
A persistência do assédio nas cidades brasileiras
A pesquisa aponta que 71% das mulheres entrevistadas nas dez capitais brasileiras declararam ter sido vítimas de assédio em pelo menos um dos seis locais analisados. Essa proporção, embora apresente uma leve queda em comparação com os 74% registrados em 2014, ainda é considerada elevada e persistente por especialistas que acompanham o fenômeno. “A insegurança é uma regra na nossa vida, não é uma exceção. Há uma proporção alta de mulheres que seguem dizendo que já sofreram assédio”, observou uma diretora de opinião pública durante o lançamento do estudo. A constatação reforça a ideia de que, para muitas mulheres, a vulnerabilidade e o receio de serem assediadas são constantes, moldando suas rotinas e decisões diárias.
Metodologia e abrangência do estudo
O estudo, de caráter nacional, buscou traçar um panorama detalhado da percepção de segurança das mulheres nas grandes áreas urbanas do país. Foram 3,5 mil pessoas entrevistadas, com uma amostra representativa do público feminino nessas capitais. A escolha das cidades visa capturar a diversidade das experiências urbanas no Brasil, revelando padrões e particularidades regionais. A análise profunda dos dados permite não apenas quantificar a extensão do problema, mas também identificar as nuances e os ambientes específicos onde o assédio se manifesta com maior frequência, fornecendo informações cruciais para a formulação de políticas públicas eficazes.
Locais de maior incidência e o impacto na liberdade
Os dados do levantamento são claros ao indicar que ruas e espaços públicos, como praças, parques e praias, são os ambientes mais hostis, citados por 54% das mulheres como locais onde sofreram assédio. Em seguida, o transporte público aparece com uma alta incidência, sendo mencionado por 50% das entrevistadas. Outros locais relevantes incluem o ambiente de trabalho (36%), bares e casas noturnas (32%), o ambiente familiar (26%) e o transporte particular, como táxis ou carros por aplicativo (19%).
Um dado particularmente chocante é que 5% das mulheres entrevistadas relataram ter sofrido assédio em todos os seis espaços mensurados. “Embora pareça pouco, estamos falando de mulheres que vivem em 10 capitais que concentram 33 milhões de habitantes, e 5% delas dizem que já sofreram algum tipo de assédio em todos os locais”, salientou uma das responsáveis pelo estudo. Esse cenário de insegurança generalizada limita significativamente a liberdade de ir e vir das mulheres, o que compromete seu direito pleno à cidade e à participação social. Muitas acabam alterando rotas, horários e até mesmo vestimentas para tentar evitar situações de risco, o que representa uma restrição de sua autonomia.
Múltiplas experiências de assédio
A constante ameaça de assédio em múltiplos ambientes força as mulheres a viverem em estado de alerta permanente. Desde o momento em que saem de casa, no trajeto para o trabalho ou estudo, durante o lazer e até mesmo em espaços que deveriam ser seguros, como o lar, a vigilância se torna uma rotina exaustiva. Essa “insegurança como regra” tem um impacto profundo na saúde mental, no bem-estar e na qualidade de vida das mulheres, gerando estresse, ansiedade e medo constante. A soma dessas experiências em diferentes contextos constrói uma barreira invisível, mas poderosa, que impede o pleno desenvolvimento e a livre expressão feminina na sociedade.
Caminhos para a proteção e o debate sobre punição
Diante desse cenário, a pesquisa também consultou a população sobre as medidas mais eficazes para combater o assédio. Aumentar as penas contra os agressores foi a opção mais citada, com 55% das menções, seguida pela ampliação dos serviços de proteção às vítimas (48%) e a agilização da investigação das denúncias (37%). “A pesquisa aponta para um caminho que combina esse desejo da punição e da justiça, mas há necessidade de uma rede de apoio mais robusta”, explicou um dos especialistas envolvidos no levantamento. Ele ainda ressaltou a importância de aproximar a população dos agentes de segurança e promover treinamento adequado para que possam acolher melhor as mulheres.
No entanto, o debate sobre o combate à violência contra mulheres não se restringe à via punitivista. Uma promotora de justiça especializada no tema, destacou que “essa ideia de que o direito penal vai dar conta de tudo, de que o homem precisa ser preso, ele precisa ser punido, é uma visão que é patriarcal.” Ela ressaltou que, embora haja uma demanda por aumento de penas, o feminicídio, por exemplo, já possui a maior pena prevista no código penal (40 anos), mas isso não tem se traduzido em redução dos crimes, que, ao contrário, têm aumentado. Além disso, o descumprimento das medidas protetivas de urgência também tem crescido.
Para uma coordenadora de políticas para mulheres de São Paulo, é essencial repensar as intervenções públicas e os mecanismos de proteção a partir dos dados apresentados. Ela enfatizou a vulnerabilidade das mulheres, mesmo com ferramentas já existentes. “Muitas mulheres não estão seguras no lar e, quando ela vai para o espaço público, para a rua, o transporte público, ela enfrenta uma insegurança ainda maior.” A coordenadora descreveu a rotina de vigilância: “Sair de casa tendo que observar que horas que eu estou saindo, que horas que eu vou chegar. Eu saio do meu trabalho pensando nisso: não posso chegar muito mais que dez da noite na minha região. É inseguro para mim, é inseguro para muitas mulheres.”
A necessidade de um acolhimento mais eficaz
A discussão sobre as soluções para o assédio e a violência contra mulheres vai além da punição. Há um consenso crescente sobre a necessidade de fortalecer a rede de apoio às vítimas, garantir um acolhimento humanizado e capacitar os agentes de segurança para lidar com essas situações complexas. A aproximação entre a população e as forças de segurança, por meio de políticas de segurança comunitária, também surge como um caminho promissor, com quase três em cada dez homens apontando essa como uma prioridade. Essa abordagem multidisciplinar, que engloba educação, prevenção, acolhimento e punição, é vista como fundamental para transformar a realidade da insegurança feminina.
A desigualdade invisível: tarefas domésticas
Além do assédio, o levantamento também abordou a percepção sobre a divisão das tarefas domésticas. Do total da amostra, 39% dos entrevistados reconheceram que, embora a responsabilidade pelos afazeres de casa seja de todos, as mulheres acabam fazendo a maior parte. Para 37%, as atividades são divididas igualmente entre homens e mulheres.
No entanto, a percepção varia significativamente quando analisada por gênero. Enquanto 47% dos homens acreditam que as tarefas domésticas são divididas igualmente, esse percentual cai para apenas 28% entre as mulheres. Da mesma forma, 32% dos homens admitem que as mulheres fazem a maior parte das tarefas, mesmo com a responsabilidade sendo de ambos, enquanto entre as mulheres, esse percentual sobe para 44%. Esses dados revelam uma assimetria na percepção da carga de trabalho doméstico, evidenciando uma desigualdade persistente que se soma aos desafios enfrentados pelas mulheres no espaço público e privado.
Desafios persistentes e a urgência de ação conjunta
O estudo sublinha que a experiência feminina nas cidades brasileiras é marcada por uma insegurança crônica e multifacetada, evidenciada pela alta prevalência de assédio em diversos espaços e pela desigualdade na divisão das tarefas domésticas. A combinação desses fatores cria um ambiente que restringe a autonomia, a mobilidade e o bem-estar das mulheres, impactando diretamente seu direito de viver plenamente e sem medo. A solução para esses desafios complexos exige mais do que medidas isoladas; demanda uma ação conjunta e integrada, envolvendo políticas públicas abrangentes, um sistema de justiça e segurança mais sensível e eficaz, além de uma profunda mudança cultural que promova a igualdade de gênero e o respeito mútuo. A persistência desses problemas reforça a urgência de continuar o debate e implementar estratégias que garantam a segurança e a dignidade de todas as mulheres.
Perguntas frequentes sobre o assédio contra mulheres
Qual a principal conclusão do levantamento sobre assédio contra mulheres?
A principal conclusão é que sete em cada dez mulheres afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio moral ou sexual, com maior incidência em ruas e espaços públicos, demonstrando a persistência e a amplitude do problema no Brasil.
Quais são os locais onde as mulheres mais relatam ter sofrido assédio?
Os locais mais citados são ruas e espaços públicos (54% das menções), seguidos pelo transporte público (50%), ambiente de trabalho (36%), bares e casas noturnas (32%), ambiente familiar (26%) e transporte particular (19%).
O que a pesquisa aponta como soluções para o problema do assédio?
A pesquisa indica uma demanda popular por aumento de penas para agressores (55%), ampliação dos serviços de proteção às vítimas (48%) e agilização das investigações de denúncias (37%). Especialistas também enfatizam a necessidade de uma rede de apoio robusta, acolhimento humanizado e políticas de segurança comunitária.
Como a pesquisa abordou a divisão das tarefas domésticas?
O levantamento revelou que 39% dos entrevistados reconhecem que as mulheres fazem a maior parte das tarefas domésticas, mesmo com a responsabilidade sendo de todos. A percepção difere entre gêneros, com homens tendendo a acreditar que a divisão é mais igualitária do que as mulheres percebem.
Para aprofundar seu conhecimento sobre o tema e conhecer iniciativas de combate ao assédio, continue acompanhando as análises e notícias sobre direitos das mulheres.



