O setor de turismo no Brasil avança em sua jornada rumo à inclusão plena, com o lançamento de uma pesquisa nacional focada em aprimorar a experiência de viajantes neurodivergentes. Esta iniciativa, promovida pelo Ministério do Turismo em parceria estratégica com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o projeto Mais Acesso, tem como principal objetivo coletar informações cruciais para a elaboração de um Guia de Boas Práticas. O documento servirá como um pilar fundamental para orientar prestadores de serviços e gestores na criação de um ambiente turístico mais acessível, humano e acolhedor para todos. A coleta de dados visa identificar desafios, mapear necessidades específicas e impulsionar a qualificação dos serviços.
A voz dos viajantes: compreendendo a experiência neurodivergente
A iniciativa do Ministério do Turismo reconhece a complexidade e a diversidade das necessidades de pessoas neurodivergentes durante viagens. Longe de ser uma questão homogênea, a neurodivergência abrange uma vasta gama de condições, incluindo, mas não se limitando a, Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, dislexia e Síndrome de Tourette. Para muitos desses indivíduos e suas famílias, uma viagem, que deveria ser sinônimo de lazer e relaxamento, pode se transformar em uma fonte de estresse e ansiedade devido à falta de adaptações e compreensão.
Mapeando desafios e demandas sensoriais
O questionário da pesquisa foi meticulosamente elaborado para capturar as nuances da vivência de pessoas neurodivergentes. Ele aborda fatores que frequentemente impactam a jornada, desde o planejamento até a execução. Aspectos como barulho alto em aeroportos, estações, hotéis ou restaurantes; a presença de cheiros fortes em ambientes fechados ou até mesmo em produtos de limpeza; e o impacto de um toque físico inesperado são questões centrais. Para indivíduos com sensibilidades sensoriais elevadas, esses estímulos podem provocar sobrecarga, desconforto significativo e até crises.
Além disso, a pesquisa se aprofunda em questões logísticas e emocionais, como o cansaço do cuidador durante a viagem, um fator muitas vezes negligenciado, mas que impacta diretamente a qualidade da experiência para toda a família. A necessidade de manter uma rotina de medicação, por exemplo, exige flexibilidade e compreensão por parte dos serviços de hospedagem e transporte. Ao considerar as diferentes etapas do trajeto — transporte, hospedagem, alimentação, lazer, eventos e visitação a atrativos naturais e culturais — o levantamento busca criar um panorama completo das barreiras existentes. A identificação dessas demandas sensoriais, comunicacionais e comportamentais é o primeiro passo para desenvolver soluções eficazes e inclusivas.
Construindo um guia de boas práticas abrangente
Os dados coletados por meio da pesquisa nacional serão a espinha dorsal para a criação de um Guia de Boas Práticas detalhado. Este guia não será apenas um manual, mas uma ferramenta estratégica para transformar o setor de turismo brasileiro, tornando-o um modelo de inclusão.
Da coleta de dados à implementação de políticas
A informação compilada a partir das respostas dos participantes será utilizada para aprimorar políticas públicas existentes e formular novas diretrizes que atendam especificamente às necessidades da comunidade neurodivergente. Isso inclui a qualificação de serviços turísticos em todas as suas vertentes: desde a capacitação de equipes em hotéis, pousadas e restaurantes para lidar com diferentes sensibilidades, até a adaptação de espaços e atividades para garantir o conforto e a segurança dos visitantes.
O Guia de Boas Práticas abordará, por exemplo, a importância de oferecer espaços mais tranquilos para descanso ou descompressão, a implementação de sinalização acessível que vá além das convenções visuais, e a adaptação de atividades de lazer e culturais para que possam ser desfrutadas por todos. Conforme destaca o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, “ao ouvir quem vive a neurodivergência, avançamos na construção de políticas públicas que tornam o setor mais acessível, humano e inclusivo em todo o país”. Essa perspectiva enfatiza a importância da escuta ativa e da cocriação de soluções para promover uma verdadeira transformação no turismo nacional. Os resultados da pesquisa também auxiliarão no fortalecimento da acessibilidade no turismo em âmbito nacional, elevando o Brasil a um patamar de referência em inclusão.
Mobilização setorial e outras iniciativas de acessibilidade
Para garantir a abrangência e a relevância das informações coletadas, a pesquisa não se limita apenas a pessoas neurodivergentes e seus familiares. Seu público-alvo é significativamente mais amplo, englobando todos os elos da cadeia turística.
Expansão do público-alvo e sinergias
Profissionais do turismo, como guias, agentes de viagens e operadores receptivos, são incentivados a participar, compartilhando suas percepções sobre os desafios e as oportunidades de inclusão que observam em suas rotinas. Gestores públicos, empreendedores do setor, pesquisadores e estudantes da área também são convidados a contribuir, enriquecendo o debate com diferentes perspectivas e expertises. Essa abordagem multifacetada visa não apenas identificar lacunas, mas também mapear as boas práticas de acolhimento que já estão sendo adotadas pelo setor, permitindo que sejam replicadas e disseminadas.
O Ministério do Turismo tem um histórico de ações voltadas ao turismo acessível. Um exemplo notável é o livro “Turismo com Acessibilidade: perfil do turista com deficiência e diretrizes para promoção da acessibilidade”, também elaborado em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Essa obra anterior já trazia dados importantes sobre o perfil do turista com deficiência e apresentava diretrizes para que prestadores de serviços pudessem oferecer experiências mais inclusivas. A atual pesquisa sobre neurodivergência complementa essas iniciativas, aprofundando o olhar sobre um segmento específico e fundamental para a construção de um turismo verdadeiramente universal.
Perspectivas futuras para o turismo acessível no Brasil
A pesquisa nacional sobre a experiência de turistas neurodivergentes representa um passo significativo para consolidar o Brasil como um destino turístico verdadeiramente inclusivo. Ao coletar dados de forma sistemática e abrangente, o Ministério do Turismo não apenas demonstrará um compromisso com a diversidade, mas também fornecerá as ferramentas e diretrizes necessárias para que o setor se adapte e prospere. A expectativa é que o Guia de Boas Práticas resultante inspire mudanças tangíveis em toda a cadeia de serviços, desde o planejamento de infraestruturas até a interação direta com o público. O fortalecimento das políticas públicas e a qualificação dos profissionais trarão benefícios não só para os viajantes neurodivergentes, mas para todos, elevando o padrão de qualidade e humanidade da experiência turística brasileira.
FAQ
O que é neurodivergência no contexto do turismo?
No contexto do turismo, neurodivergência refere-se à variabilidade natural no funcionamento neurológico humano, incluindo condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, dislexia e outras. Para pessoas neurodivergentes, aspectos sensoriais (barulhos, cheiros), sociais e de rotina em ambientes turísticos podem apresentar desafios únicos, exigindo adaptações para uma experiência agradável.
Quem pode participar da pesquisa nacional?
A pesquisa é direcionada a um público amplo e diversificado. Podem participar pessoas neurodivergentes e seus familiares, profissionais do turismo (guias, agências, receptivos), gestores públicos, empreendedores do setor, pesquisadores e estudantes da área. A contribuição de todos é fundamental para um panorama completo.
Qual o objetivo principal do Guia de Boas Práticas?
O objetivo principal do Guia de Boas Práticas é oferecer orientações detalhadas e embasadas para prestadores de serviços turísticos (hotéis, restaurantes, transportadoras, atrativos) e gestores, visando criar experiências mais acessíveis e inclusivas para pessoas neurodivergentes. Ele abordará desde a capacitação de equipes até a adaptação de ambientes e atividades.
Como os dados coletados serão utilizados para melhorar o turismo?
Os dados coletados servirão para subsidiar a elaboração do Guia de Boas Práticas, aprimorar políticas públicas, qualificar os serviços turísticos em todo o país e fortalecer a acessibilidade no setor em âmbito nacional. O objetivo é transformar as informações em ações concretas que melhorem a experiência de viagem para todos.
Participe da pesquisa e ajude a construir um turismo mais inclusivo para pessoas neurodivergentes, contribuindo diretamente para a criação de um setor mais acolhedor e acessível no Brasil.



