O carnaval em Brasília transcende a mera celebração, transformando-se em um vibrante palco para o autocuidado e a promoção de causas sociais. Longe dos holofotes das grandes escolas de samba, coletivos locais encontram na efervescência da folia um espaço vital para oferecer apoio, visibilidade e resistência a grupos frequentemente sobrecarregados ou marginalizados. Para cuidadores de pessoas com doenças demenciais, por exemplo, a festa pré-carnavalesca se converte em um raro momento de respiro e conexão. Da mesma forma, movimentos anticapacitistas utilizam a energia do carnaval para desafiar preconceitos e celebrar a diversidade, mostrando que a alegria e a solidariedade podem caminhar lado a lado na capital federal.
A folia como respiro e rede de apoio para cuidadores
Para muitos, o carnaval representa uma pausa na rotina, mas para cuidadores, essa pausa é ainda mais significativa, muitas vezes sendo a única oportunidade de se reconectar com o próprio bem-estar. Em Brasília, coletivos como o “Filhas da Mãe” emergem como faróis de esperança e apoio, transformando o período carnavalesco em uma plataforma para o autocuidado e a solidariedade.
Carmen Araújo, uma professora carioca de 59 anos, personifica essa realidade. Cuidadora do pai, de 89 anos, que vive com Alzheimer há 15 anos, Carmen encontrou no samba e na comunidade do “Filhas da Mãe” um caminho para não negligenciar seu próprio cuidado. Em um dos recentes eventos pré-carnavalescos da capital, ela deixou a música conduzir seus passos, com olhos marejados de emoção e um sorriso que refletia a importância desses momentos. Carmen ressalta a necessidade de se cuidar para evitar o adoecimento. O amor pelo carnaval, uma herança do pai, reforça a conexão com essas memórias afetivas, embora a participação ativa dele hoje não seja mais possível. A experiência no coletivo permitiu a Carmen compartilhar suas vivências e colaborar com outras famílias que enfrentam desafios semelhantes.
Filhas da Mãe: um oásis de suporte no ritmo do samba
Fundado em 2019, o coletivo “Filhas da Mãe” nasceu da urgência de apoiar pessoas que dedicam suas vidas ao cuidado de familiares com doenças demenciais. Em sua maioria, essas pessoas são mulheres, que enfrentam uma sobrecarga física e emocional imensa. A psicanalista Cosette Castro, uma das fundadoras e diretoras do coletivo, explica que a iniciativa surgiu de suas próprias experiências e “dores e soluções” ao cuidar da mãe, que faleceu após uma década convivendo com Alzheimer. Cosette aponta que, enquanto há muita discussão sobre tratamentos e métodos de cuidado para os pacientes, a atenção aos cuidadores é frequentemente negligenciada.
A ideia central do coletivo é resgatar a “criança interior” em cada cuidador. Cosette observa que muitos se sentem culpados por buscar momentos de alegria ou por simplesmente querer rir, imersos em uma rotina de responsabilidades que consomem 24 horas por dia. O “Filhas da Mãe” atende diariamente cerca de 550 pessoas através de projetos de rede de apoio, incluindo serviços virtuais voluntários. O foco é a promoção da saúde dos cuidadores, a visibilidade da necessidade do diagnóstico precoce de doenças demenciais como o Alzheimer, e a conscientização sobre a sobrecarga que esses indivíduos suportam.
Problemas de saúde como lesões na coluna, fibromialgia, hipertensão, problemas cardíacos e transtornos mentais, incluindo insônia e altos níveis de ansiedade, são alarmantemente comuns entre cuidadores. Por isso, o coletivo organiza eventos variados, como caminhadas e exposições, para disseminar informações e oferecer suporte. O carnaval, nesse contexto, torna-se uma ferramenta terapêutica poderosa. Cosette compartilha que o som e as letras das músicas foram uma das últimas memórias a se perderem em sua mãe, e a música continua a ter um valor terapêutico inestimável para muitos.
Márcia Uchôa, de 69 anos, outra fundadora do coletivo, também testemunha o poder da música. Sua mãe, Maria, de 96, diagnosticada com Alzheimer, tem um profundo amor por música e crochê. Embora o receio da gripe e a chuva tenham a impedido de participar da folia recente, Márcia enfatiza que “a gente precisa se cuidar e o carnaval está dentro da gente”, destacando a importância da autocompaixão e da alegria intrínseca.
Combatendo preconceitos ao som da fanfarra
Ao lado da festividade do “Filhas da Mãe”, o carnaval em Brasília também se tornou palco para outra importante causa social: a luta anticapacitista. O coletivo “Me chame pelo nome” desfilou sua alegria e resistência com uma fanfarra vibrante, composta por pessoas com deficiência, reafirmando o direito de todos à folia e à visibilidade.
Me chame pelo nome: inclusão e arte no coração do carnaval
Aline Zeymer, servidora pública e uma das coordenadoras do grupo “Me chame pelo nome”, explica que este foi o segundo carnaval do coletivo com o propósito explícito de combater o preconceito. A iniciativa busca promover a resistência e o cuidado através da arte, utilizando a música e a dança como ferramentas de transformação social. A fanfarra, um símbolo de união e força, demonstra que a deficiência não é um impedimento para a plena participação na vida cultural e social. O grupo desafia estereótipos, celebra a neurodiversidade e a diversidade física, e cria um ambiente onde a inclusão é a norma, não a exceção.
A presença do “Me chame pelo nome” no carnaval de Brasília é um poderoso lembrete de que a festa popular pode e deve ser um espaço para todas as pessoas. Ao desfilar pelas ruas, o coletivo não apenas diverte, mas também educa e inspira, mostrando que a arte é um veículo eficaz para a conscientização e a mudança de mentalidades. Eles transformam a folia em um ato político de inclusão, onde cada nota tocada e cada passo de dança é uma afirmação de dignidade e respeito. A participação ativa no carnaval fortalece a comunidade de pessoas com deficiência, proporcionando-lhes um senso de pertencimento e empoderamento, enquanto sensibiliza o público em geral para a importância de uma sociedade verdadeiramente acessível e acolhedora.
A celebração que transcende a festa
O carnaval em Brasília, portanto, revela-se muito mais do que um período de simples entretenimento. Ele se consolida como um espaço de profundo significado social, onde a alegria e a folia servem como catalisadores para o autocuidado, a construção de redes de apoio e a promoção de causas essenciais. Desde o alívio e a camaradagem encontrados por cuidadores exaustos até a visibilidade e a resistência proporcionadas a pessoas com deficiência, a capital federal demonstra uma forma única e poderosa de celebrar a vida e a humanidade em toda a sua complexidade. A energia contagiante das ruas se mescla com a força das histórias de vida, transformando a festa em um movimento contínuo de solidariedade, esperança e inclusão.
Perguntas frequentes sobre coletivos no carnaval de Brasília
1. O que são os coletivos Filhas da Mãe e Me chame pelo nome?
O coletivo “Filhas da Mãe” é uma rede de apoio que oferece suporte a cuidadores, em sua maioria mulheres, de familiares com doenças demenciais. Durante o carnaval, ele se manifesta como um bloco de rua. Já o coletivo “Me chame pelo nome” é um grupo anticapacitista que promove inclusão e combate o preconceito contra pessoas com deficiência através de uma fanfarra e expressões artísticas no carnaval.
2. Como o carnaval contribui para o autocuidado de cuidadores?
Para os cuidadores, o carnaval oferece um raro momento de respiro e distração das intensas responsabilidades diárias. Coletivos como o “Filhas da Mãe” criam um ambiente de acolhimento e camaradagem, onde os participantes podem dançar, expressar emoções e se reconectar com a alegria, o que é crucial para sua saúde mental e física e para evitar o esgotamento.
3. Qual a importância da visibilidade para doenças demenciais e a sobrecarga dos cuidadores?
A visibilidade é fundamental para conscientizar a sociedade sobre a realidade das doenças demenciais, como o Alzheimer, e sobre a imensa sobrecarga que os cuidadores enfrentam. Promover o diagnóstico precoce e o suporte aos cuidadores é essencial para a saúde pública, pois muitos sofrem de problemas físicos e mentais devido à privação de sono, ansiedade e estresse crônico. Eventos como o carnaval ajudam a trazer essas questões à tona de forma leve e acessível.
Explore a riqueza do carnaval de Brasília e junte-se a esses coletivos que transformam a folia em um ato de amor e resistência. Descubra mais sobre o trabalho desses grupos e como você pode apoiar suas causas, participando das próximas edições do carnaval em Brasília e seguindo seus canais de comunicação.



