A capital paulista enfrenta um novo capítulo de incertezas no transporte público. A empresa Sancetur, que havia assinado um contrato emergencial para assumir a operação das linhas de ônibus da Transwolff, informou à Prefeitura de São Paulo a “impossibilidade de assumir plenamente a execução” do acordo. A notícia chega a poucos dias da data prevista para a completa transição, gerando preocupação sobre a continuidade do serviço que transporta mais de meio milhão de passageiros diariamente. As 133 linhas em questão, que servem 555 mil pessoas por dia, já vinham sendo operadas pela Sancetur desde a intervenção municipal na Transwolff, alvo de graves investigações por suspeita de lavagem de dinheiro e ligações com o crime organizado.
Reviravolta no contrato emergencial para linhas de ônibus
O recuo da Sancetur e a posição da prefeitura
A Sancetur comunicou à gestão municipal sua incapacidade de assumir a totalidade das operações das linhas antes geridas pela Transwolff. Esta notificação veio a público justamente quando a empresa se preparava para assumir plenamente a responsabilidade pelo serviço de transporte coletivo. A empresa, que já estava à frente de parte da operação sob regime de intervenção, apontou limitações para a completa absorção do contrato emergencial.
Diante da declaração da Sancetur, a Prefeitura de São Paulo afirmou que “segue adotando todas as medidas necessárias para publicação do edital para concessão do serviço dos referidos lotes “. A administração municipal reiterou seu compromisso em garantir a continuidade do serviço sem prejuízos para os usuários. Além disso, assegurou que os funcionários das linhas afetadas terão seus empregos mantidos, juntamente com o pagamento de salários e benefícios, buscando minimizar o impacto social da situação. A busca por uma solução definitiva para a concessão das linhas é a prioridade da prefeitura, que já havia iniciado o processo para uma nova licitação em fevereiro.
O histórico judicial e a Operação Fim da Linha
Investigações contra a Transwolff e a Operação Fim da Linha
A Transwolff Transportes tornou-se o centro das atenções após ser alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP). As investigações apontam fortes suspeitas de lavagem de dinheiro e favorecimento ao Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores organizações criminosas do país. As apurações indicam que recursos de origem ilícita, possivelmente do PCC, teriam sido utilizados para aumentar o capital social da Transwolff. O esquema envolveria a utilização de “laranjas” e “CNPJs fantasmas”, além de facilidades fornecidas por empresas de fachada para ocultar a verdadeira origem dos valores, prática comum em crimes de lavagem de dinheiro.
Em decorrência dessas suspeitas graves, a Prefeitura de São Paulo deu início, em dezembro de 2024, ao processo para rescindir os contratos com a Transwolff e outra empresa de ônibus, a UPBus, também implicada nas investigações. A defesa da Transwolff, por sua vez, nega veementemente qualquer vínculo com o crime organizado, afirmando não haver comprovação de relação com atividades ilícitas e prometendo contestar as decisões na Justiça.
Decisões judiciais contraditórias
A complexidade da situação foi acentuada por duas decisões judiciais distintas proferidas em dezembro de 2025, referentes à Transwolff. Em uma das deliberações, a Vara de Crimes Tributários e Organizações Criminosas determinou a suspensão das atividades da Transwolff Transportes. A decisão manteve o afastamento dos réus da gestão da companhia e autorizou a Prefeitura de São Paulo a realizar a venda antecipada de imóveis e veículos apreendidos. O juiz Thiago Machado justificou a medida como necessária para evitar a rearticulação do grupo criminoso, mesmo após o decreto de caducidade do contrato municipal, e salientou que a decisão não afetaria a prestação do serviço de transporte.
Contrariamente, em outro processo, o juiz Rodolfo Campos, da Vara da Fazenda Pública, suspendeu o encerramento do contrato entre a prefeitura e a Transwolff. O magistrado considerou que o município não seguiu os trâmites adequados do processo administrativo para a rescisão. A Procuradoria Geral do Município de São Paulo (PGM) informou que recorrerá dessa decisão, argumentando que não foi ouvida no processo e, portanto, impedida de apresentar informações cruciais. A PGM reforça a legalidade do decreto de caducidade, embasado em processo administrativo regular e ordem judicial devido ao envolvimento dos sócios com o crime organizado.
A Transwolff, por meio de sua defesa, celebrou a decisão liminar da 14ª Vara da Fazenda Pública, que suspendeu o decreto de caducidade, mantendo-a como concessionária. A decisão provisória proíbe a prefeitura de contratar outras empresas para os lotes operacionais da Transwolff, exigindo a devolução da concessão. O juiz considerou o risco de dano irreversível para a Transwolff caso o decreto fosse implementado sem a devida defesa da empresa. A Transwolff esclarece que ainda não foi notificada sobre a decisão de suspensão de suas atividades e reafirma a ausência de qualquer fundamento nas alegações de relação com atividades ilícitas, prosseguindo com sua defesa nas instâncias competentes.
Consequências e próximos passos para o transporte público
O recuo da Sancetur adiciona uma camada de complexidade a um cenário já tumultuado para o transporte público da capital. Com as linhas da Transwolff sob intervenção e um imbróglio jurídico que envolve decisões contraditórias, a estabilidade do serviço permanece incerta. A prefeitura tem a tarefa de navegar por um terreno legal e operacional minado, enquanto busca uma solução a longo prazo através de um novo processo licitatório. A prioridade é garantir que os 555 mil passageiros diários não sejam prejudicados pela série de eventos, mantendo a operação das 133 linhas. A situação exige uma articulação eficiente entre as esferas jurídica e executiva para desatar os nós que impedem uma transição tranquila e a normalização de um serviço essencial para a vida paulistana.
Perguntas frequentes
Por que a Sancetur não assumirá plenamente as linhas da Transwolff?
A Sancetur informou à Prefeitura de São Paulo que tem “impossibilidade de assumir plenamente a execução do contrato emergencial”, sem detalhar os motivos específicos da limitação.
Qual é o motivo da intervenção e investigação da Transwolff?
A Transwolff está sob investigação pela Operação Fim da Linha (MP-SP) por suspeita de lavagem de dinheiro e favorecimento ao PCC, com alegações de uso de recursos ilícitos e esquemas de ocultação.
O que acontece com os passageiros e funcionários das linhas afetadas?
A Prefeitura de São Paulo assegura que não haverá prejuízo para passageiros e funcionários. Os empregos serão mantidos, assim como o pagamento de salários e benefícios, enquanto o município busca uma solução definitiva através de nova licitação.
Houve decisões judiciais contraditórias sobre a Transwolff?
Sim, em dezembro de 2025, houve duas decisões: uma da Vara de Crimes Tributários e Organizações Criminosas suspendendo as atividades da Transwolff, e outra da Vara da Fazenda Pública suspendendo o decreto de caducidade da prefeitura, permitindo à Transwolff continuar como concessionária provisoriamente.
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Fonte: https://g1.globo.com



