O Brasil e a comunidade afro-brasileira lamentam o falecimento de Mãe Carmen de Oxaguian, a respeitada ialorixá do Terreiro do Gantois, em Salvador, Bahia, que nos deixou aos 98 anos. A notícia, que abalou profundamente o cenário religioso e cultural do país, foi recebida com grande pesar por diversas personalidades, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama Janja. Mãe Carmen, cujo nome civil era Carmen Oliveira da Silva, dedicou mais de duas décadas à liderança espiritual de um dos mais importantes terreiros de Candomblé do Brasil, perpetuando um legado de fé, ancestralidade e resistência. Sua vida foi um testemunho da força e da beleza das tradições africanas no coração do Brasil, deixando um vazio imenso.

O legado de uma matriarca espiritual

A ialorixá Mãe Carmen de Oxaguian, nascida em 29 de dezembro de 1926, era uma figura de inestimável valor para o Candomblé e para a cultura brasileira. Nascida na própria Casa do Gantois, seu destino estava intrinsecamente ligado ao terreiro. Ela foi iniciada nas tradições do Candomblé aos sete anos de idade, absorvendo desde cedo os ensinamentos e a espiritualidade que moldariam sua trajetória. Em 2002, assumiu a liderança do Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, amplamente conhecido como Terreiro do Gantois, sucedendo matriarcas de grande renome, incluindo sua própria mãe de santo, Mãe Menininha do Gantois, uma das mais célebres líderes religiosas do Brasil.

Durante seus mais de 20 anos à frente do terreiro, Mãe Carmen cultivou e protegeu a tradição ancestral, assegurando que os ritos, a sabedoria e os valores transmitidos por gerações fossem mantidos vivos. Sua liderança foi caracterizada por um profundo amor e um compromisso sagrado com a espiritualidade africana, que, conforme ressaltou o presidente Lula, “fez uma nova casa no Brasil e permeou a cultura e o coração dos brasileiros”. A presença de Mãe Carmen era um farol de resistência cultural e religiosa, um símbolo da riqueza da herança africana no país.

A importância do Terreiro do Gantois

O Terreiro do Gantois, ou Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, é um dos mais antigos e respeitados templos de Candomblé do Brasil, localizado em Salvador, Bahia. Fundado no século XIX, o terreiro é um marco da religiosidade afro-brasileira e um centro vital para a preservação das tradições e da cultura africanas. Sua importância transcende o âmbito religioso, sendo reconhecido como um patrimônio cultural e histórico nacional.

A Casa do Gantois tem sido palco de momentos cruciais para a defesa da liberdade religiosa e o reconhecimento da cultura afro-brasileira. Liderado por matriarcas como Mãe Menininha e, posteriormente, Mãe Carmen, o terreiro se tornou um símbolo de resiliência e acolhimento, atraindo fiéis, pesquisadores e admiradores de todo o mundo. A influência do Gantois se estende à música, literatura e artes visuais, inspirando inúmeros artistas e intelectuais a explorar e celebrar a riqueza da espiritualidade e da cultura de matriz africana. Mãe Carmen, como ialorixá, garantiu que a chama dessa herança permanecesse acesa e vibrante.

Reações e o luto nacional

A notícia da partida de Mãe Carmen reverberou por todo o país, provocando uma onda de comoção e homenagens. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama Janja expressaram profunda tristeza em uma carta de pesar. “Eu e Janja ficamos profundamente tristes com a partida da querida Mãe Carmen de Oxaguian, que liderou com muito amor, por mais de 20 anos, um dos mais importantes terreiros de candomblé do Brasil, o Ilé Ìyá Omi Àse Ìyamase, conhecido em prosa e verso como o Terreiro do Gantois”, declarou o presidente. Ele ainda salientou o papel de Mãe Carmen em cultivar a tradição ancestral transmitida por Mãe Menininha e outras matriarcas.

A ministra da Cultura, Margareth Menezes, também utilizou suas redes sociais para prestar tributo à líder religiosa. “Tive o privilégio de conhecê-la como autoridade espiritual, mas também como uma grande mulher de fé que cultivou amor, acolhimento e a força de quem lidera pelo exemplo”, afirmou a ministra, ressaltando os valores que Mãe Carmen representava. A profundidade de sua liderança e seu impacto na vida das pessoas foram amplamente reconhecidos.

Homenagens de personalidades e instituições

O Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania divulgou uma nota de pesar, solidarizando-se com a comunidade do Gantois e expressando o peso da perda. “A sua partida representa uma grande perda para o povo de santo, para a Bahia e para o país. Sua vida permanece como legado de sabedoria, firmeza espiritual e compromisso com a ancestralidade”, dizia o comunicado. A mensagem enfatiza a dimensão da influência de Mãe Carmen, que ia além dos limites do terreiro, atingindo a esfera dos direitos humanos e da cidadania, ao defender e personificar a diversidade religiosa e cultural.

Artistas renomados também se manifestaram. O músico Gilberto Gil, uma das figuras mais emblemáticas da cultura brasileira e um profundo conhecedor das tradições afro-brasileiras, foi um dos que expressaram sua dor. Em uma breve, mas significativa mensagem, Gilberto Gil lamentou a partida da filha mais nova de Mãe Menininha, escrevendo: “Partiu hoje deixando muitas saudades. Descanse em paz! Que Obatalá nos proteja”. Essas homenagens de figuras públicas e instituições destacam a amplitude do reconhecimento da importância de Mãe Carmen e do Terreiro do Gantois para a identidade nacional.

A despedida de uma guardiã

Mãe Carmen de Oxaguian deixou duas filhas, três netos e quatro bisnetos, perpetuando sua linhagem familiar e espiritual. O velório da líder religiosa seguiu em Salvador, sua cidade natal e berço de seu terreiro, até o sábado, 27 de janeiro, quando foi realizada sua cerimônia de sepultamento. O adeus a Mãe Carmen não marca apenas o fim de uma vida longa e dedicada, mas também a transição de um legado que, com certeza, continuará a inspirar e a guiar as futuras gerações. Sua memória e seus ensinamentos permanecerão vivos no Terreiro do Gantois e nos corações de todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la e de aprender com sua sabedoria e fé inabaláveis. A chama da espiritualidade africana, que ela ajudou a manter acesa no Brasil, segue como um farol de esperança e identidade cultural.

Perguntas frequentes

Quem foi Mãe Carmen do Gantois?
Mãe Carmen de Oxaguian, cujo nome civil era Carmen Oliveira da Silva, foi a ialorixá do Terreiro do Gantois, em Salvador, Bahia. Ela nasceu em 1926 e assumiu a liderança espiritual do terreiro em 2002, dedicando mais de 20 anos à preservação das tradições do Candomblé.

Qual a importância do Terreiro do Gantois?
O Terreiro do Gantois (Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase) é um dos mais antigos e importantes templos de Candomblé no Brasil. É um patrimônio cultural e religioso que desempenha um papel fundamental na manutenção e divulgação das tradições e da cultura afro-brasileira, sendo um centro de resistência e acolhimento.

Quais foram as reações à morte de Mãe Carmen?
A morte de Mãe Carmen gerou grande comoção. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama Janja expressaram tristeza. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, e o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania prestaram homenagens, assim como o músico Gilberto Gil, que lamentou a perda da líder religiosa.

Conheça mais sobre a história e a importância do Candomblé no Brasil em nossos próximos artigos.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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