O Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, recentemente aprovado na Câmara dos Deputados, está no centro de um intenso debate jurídico e político, gerando ampla discussão na sociedade brasileira. Especialistas em direito penal alertam que, embora o texto seja publicamente associado a casos como a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, ele pode estender seus benefícios a criminosos comuns. A proposta visa alterar os percentuais de cumprimento de pena para progressão de regime, gerando preocupações sobre um possível afrouxamento da legislação penal em vigor desde 2019. Juristas questionam a universalidade da lei e as potenciais distorções que uma alteração focada em casos específicos poderia acarretar no sistema de execução penal.
A controvérsia sobre a amplitude do PL da Dosimetria
As mudanças propostas pelo PL da Dosimetria (PL 2.162 de 2023) têm gerado discussões acaloradas entre juristas e parlamentares. A principal preocupação reside na interpretação da abrangência da lei, que, segundo alguns especialistas, pode ir muito além dos casos do 8 de janeiro, afetando a execução de penas para uma gama variada de delitos.
Redução dos percentuais de progressão de pena
Um dos pontos mais criticados por especialistas é a redução “sensível” dos percentuais de cumprimento de pena para a progressão de regime em comparação ao modelo vigente desde 2019, instituído pelo pacote anticrime. O professor de direito Rodrigo Azevedo, por exemplo, destaca que o projeto padroniza o marco básico de progressão em um sexto da pena, o que representa cerca de 16% do total da condenação. Ele argumenta que essa alteração configura um afrouxamento relevante em relação ao sistema atual, que exige 20% para réus primários e 30% para reincidentes, mesmo em crimes sem violência.
Azevedo ilustra o impacto da proposta com um exemplo concreto: “Hoje, um condenado por roubo só progride após cumprir 40% da pena. Com o texto aprovado, se for primário, poderá progredir após 25%, mostrando que a mudança afeta diretamente crimes comuns e não apenas os casos do 8 de janeiro”. Outro especialista, o advogado e criminalista João Vicente Tinoco, também reforça essa visão, afirmando que o PL da Dosimetria representa “um passo atrás” em relação ao agravamento das condições de progressão que vieram com a legislação de 2019.
O argumento do relator e a visão dos especialistas
A discussão sobre o verdadeiro escopo do PL da Dosimetria contrapõe a visão dos especialistas às declarações do relator da proposta na Câmara dos Deputados, deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP).
Divergência sobre o público-alvo da lei
Durante a sessão que aprovou a matéria na Câmara, o deputado Paulinho da Força defendeu o projeto, afirmando que “não há nenhuma possibilidade de este texto beneficiar crime comum. Ele trata apenas do 8 de janeiro”. Segundo o relator, o projeto foi construído com o apoio de juristas renomados justamente para evitar que criminosos comuns fossem beneficiados.
No entanto, essa perspectiva é veementemente contestada por especialistas. Rodrigo Azevedo, que também é membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, sustenta que o argumento do relator não se sustenta juridicamente. Ele explica que a Lei de Execução Penal (Lei 7.210 de 1984) é uma lei geral, concebida para disciplinar a forma de cumprimento de penas para todas as pessoas condenadas no país. “Não existe, no sistema constitucional brasileiro, a figura de uma lei de execução penal aplicável apenas a um grupo específico de condenados”, afirma Azevedo, sublinhando que qualquer alteração na LEP impactará a totalidade dos condenados.
Detalhes da proposta e suas implicações
Para entender a complexidade do debate, é fundamental analisar as especificidades das alterações propostas pelo PL 2.162 de 2023.
Novas regras para progressão de regime
O texto do PL estabelece que o preso poderá progredir do regime fechado para o semiaberto, ou do semiaberto para o aberto, ao cumprir um sexto (16%) da pena. Atualmente, a progressão após 16% da pena é aplicável apenas a réus primários em crimes sem violência. Para outros casos, os percentuais são significativamente maiores, podendo chegar a 70% da pena se o condenado for reincidente em crime hediondo.
Um dos aspectos mais inovadores e controversos do PL da Dosimetria é que ele permite que condenados por crimes com violência ou grave ameaça – categoria que incluiria os crimes de tentativa de golpe de Estado – se beneficiem com essa progressão menor, de 16%.
Contudo, o projeto de lei também inclui uma série de exceções à essa regra principal, aumentando o tempo de cumprimento de pena de acordo com o tipo de infração. Por exemplo, se a condenação for por crimes previstos nos títulos 1 e 2 do Código Penal (que abrangem crimes contra a pessoa e contra o patrimônio), o tempo mínimo para progressão de regime é de 25%.
O advogado criminalista João Vicente Tinoco alerta para uma lacuna importante nessas exceções. Ele explica que “há outros crimes que, praticados com violência, não estão nesses títulos do Código Penal, e que são praticados com violência grave e ameaça, e nesses os presos serão beneficiados”. Essa brecha, segundo o especialista, pode estender o benefício da progressão mais branda a um leque de delitos que a sociedade esperaria ver com punições mais severas.
As contradições e o futuro do PL
As implicações do PL da Dosimetria vão além das questões técnicas da execução penal, tocando em pontos cruciais sobre a consistência legislativa e a política de segurança pública.
Impacto na segurança pública e sistema penal
João Vicente Tinoco expressa preocupação com a prática de modificar a legislação para atender a casos específicos, afirmando que isso gera distorções difíceis de calcular. “É sempre muito delicado quando o legislador decide modificar a lei, que vale para todas as pessoas, pensando em um caso específico ou em beneficiar uma pessoa específica, porque isso potencialmente gera distorções”, completa o advogado.
Para o professor Rodrigo Azevedo, da PUC do RS, o PL da Dosimetria contradiz diretamente o PL Antifacção, que foi também aprovado na Câmara e que busca endurecer as regras para progressão de regime de integrantes de facções criminosas ou milícias. A aprovação de projetos com propostas tão opostas, segundo Azevedo, “apenas fragiliza o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), gera incerteza para juízes e operadores da execução penal e dificulta a formulação de políticas de segurança pública estáveis e eficazes”.
O futuro do PL da Dosimetria é incerto e depende das próximas etapas legislativas. O texto deve ser analisado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal em breve, sob a relatoria do senador Esperidião Amim (PP-SC). Amim é um aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro e tem defendido publicamente a anistia total aos condenados por tentativa de golpe de Estado, o que adiciona uma camada de complexidade e expectativa ao debate.
Perguntas frequentes sobre o PL da Dosimetria
O que é o PL da Dosimetria?
É um projeto de lei que propõe alterações nas regras de progressão de regime de pena no Brasil. Ele busca reduzir os percentuais de cumprimento de pena exigidos para que um condenado possa passar de um regime prisional mais severo (fechado) para um mais brando (semiaberto ou aberto).
Quem, segundo especialistas, pode ser beneficiado pelo PL?
Especialistas argumentam que, embora o PL seja associado aos casos do 8 de janeiro, ele pode beneficiar uma gama mais ampla de criminosos. Isso incluiria condenados por crimes comuns, tanto os não violentos quanto, em certas hipóteses, aqueles praticados com violência ou grave ameaça que não estão explicitamente abrangidos pelas exceções do texto.
Qual a principal mudança proposta para a progressão de pena?
O PL propõe que a progressão de regime possa ocorrer após o cumprimento de um sexto (cerca de 16%) da pena total. Atualmente, esse percentual é aplicável apenas a réus primários em crimes sem violência. A inovação do PL é estender esse percentual, em algumas situações, para crimes com violência ou grave ameaça.
Perspectivas e implicações para o sistema penal
O debate em torno do Projeto de Lei da Dosimetria revela tensões significativas entre a legislação penal e as expectativas sociais por justiça. Enquanto seus defensores afirmam que a proposta se restringe a eventos específicos como o 8 de janeiro, especialistas jurídicos alertam para o risco iminente de que suas disposições se estendam a criminosos comuns, gerando um recuo nas penas de progressão de regime. A análise no Senado, sob a relatoria de um senador alinhado aos interesses dos envolvidos nos eventos golpistas, será crucial para determinar o impacto duradouro desta legislação na segurança pública e na estabilidade do sistema judicial brasileiro, enfrentando o desafio de harmonizar a lei com o clamor por equidade e rigor.
Para aprofundar seu conhecimento sobre as próximas etapas e a influência do PL da Dosimetria no cenário jurídico brasileiro, continue acompanhando as atualizações sobre o tema.



